Vicky Cristina Barcelona
Cinema, Críticas 16 de novembro de 2008Dirigido por Woody Allen. Com: Rebecca Hall, Scarlett Johansson, Javier Bardem, Penélope Cruz, Patricia Clarkson, Kevin Dunn e Chris Messina (idem, 2008)
Woody Allen é um gênio. Não tem como iniciar uma crítica de um dos seus filmes, sem falar da sua inteligência. Ele parece ter um feeling para as relações interpessoais dos seres humanos, alcançando o grande público com histórias que vão nos surpreendendo aos poucos, à medida em que a sua obra avança e se aproxima do clímax. Vicky Cristina Barcelona é o segundo filme que ele lança neste ano – o primeiro foi O Sonho de Cassandra – e ele permanece em turnê pela Europa, se consolidando cada vez mais como um diretor que preserva os diálogos bem construídos, acreditando que são eles que fazem com que um filme tenha a sua dose de humor e de dramaticidade.
Mas, dessa vez, ele resolveu deixar a Inglaterra de filmes como Match Point e decidiu estacionar na Espanha, mais precisamente em Barcelona, mostrar a beleza dos lugares e o que fazem com que as pessoas sejam apaixonadas pela cidade. Em meio a isso, ele nos apresenta a Vicky (Hall) e Cristina (Johansson), duas amigas que decidiram passar férias em Barcelona. Na realidade, Vicky viajou com o intuito de concluir o seu mestrado em Cultura Catalã, enquanto que Cristina está apenas buscando diversão depois de ter atuado em um filme de doze minutos o qual ela detestou.
As duas são bem diferentes uma da outra. Primeiro que Vicky é uma mulher mais racional, está de casamento marcado e se mostra uma pessoa muito sensata em relação ao amor e aos relacionamentos. Cristina, ao contrário, sempre está em busca de uma nova paixão, de aventuras para provocar a sua vida. E é assim, em meio ao turismo e aos vinhos de Barcelona, que elas conhecem Juan Antonio (Bardem), um pintor que vive na boemia da cidade e que tem um passado conturbado a partir de um relacionamento problemático com a sua ex, María Helena (Cruz).
Logo de imediato, Cristina demonstra interesse em Juan Antonio quando ela o encontra em uma galeria de arte que estava visitando. Mais tarde, as amigas vão jantar e os olhares de Cristina persistem a procurar Juan Antonio. Como um tremendo galanteador que é, ele se aproxima da mesma e chama as duas para passar alguns dias em Oviedo a base de vinhos, jantares e sexo. Vicky, obviamente, não aceita. Mas ela não tem muita escolha, já que a sua amiga Cristina se mostra muito interessada na proposta indecente de Juan Antonio e, assim, eles partem rumo à Oviedo para viver as suas aventuras numa cidade romântica, apaixonante e histórica.
E aqui começa o relacionamento conturbado entre as duas amigas. Vicky questiona a maneira como Cristina decide expôr a sua vida, vivendo de aventuras e de relacionamentos não-duradouros. Juan Antonio não está muito preocupado com a briga das duas e quer apenas ter relações sexuais com ambas ou com quem ele conseguir conquistar primeiro. Com isso, Allen também começa a utilizar o seu humor afiadíssimo para caracterizar as discussões entre as duas amigas, mas também a posição de Juan Antonio entre elas. A própria narração em off tem esse teor cômico como objetivo, além de ter uma função muito importante em fazer com que o filme caminhe em um bom ritmo. Dessa maneira, Allen não perde tempo explicando pontos turísticos, mostrando significados ou coisas do gênero.
Além disso, o roteiro escrito pelo próprio Woody Allen, começa a explorar as “peripécias sentimentais de figuras cheias de inconstâncias”. Em um dos dias em Oviedo, Cristina passa mal enquanto estava a ponto de ter uma relação sexual com Juan Antonio. A sua úlcera ataca e ela acaba perdendo a oportunidade. Sim, porque logo depois ele parte para conquistar Vicky, que se entrega completamente e se apaixona por Juan Antonio a medida em que vai conhecendo-o melhor. Ela, uma pessoa cheia de seguranças e caminhando para “casamento perfeito”, se vê se relacionando com Juan, uma pessoa que, no primeiro momento, ela simplesmente detestou.
E aquela mesma voz, em off, vai guiando o seu espectador por esta viagem improvável e por este triângulo amoroso, principalmente quando adentra na história María Helena. Nesse meio tempo, Juan Antonio já havia se relacionado com Vicky e também com Cristina, que decidiu morar com ele enquanto viviam loucamente aquela paixão. Mas o retorno de María Helena mexe com o ponto fraco de Juan Antonio, e ela aparentando estar ainda mais desequilibrada por a vida não ter dado certo em Madrid.
Agora, morando sob o mesmo teto estão Juan Antonio, María Helena (a ex) e Cristina (a atual). É claro que isso não poderia dar muito certo, mas eles acabam, com o passar tempo, conseguindo se relacionar normalmente. Cristina começa a ter um gosto refinado por fotografia e recebe ajuda dos outros dois, que viram seus parceiros, de cama e de beijos apaixonados. A idéia de Cristina de relacionamento aberto fica em evidência por um tempo, mas ela logo percebe que não é uma pessoa tão liberal como aparenta ser e decide pôr um fim naquela relação a três que estava se formando.
Woody Allen também explora mais as brigas por conta dessa relação, confrotando isso com a segurança amorosa de Vicky, agora uma mulher casada e com o seu marido morando também em Barcelona. Entre tantas liberdades, como a paixão ardente entre Cristina e María Helena, Allen começa a colocar freios na história como uma maneira de expressão dos seus personagens, principalmente quando Cristina decide viajar para a França, passando um tempo longe de Barcelona e do conflito amoroso com María Helena, que também decide partir depois dela. Sobrou para Juan Antonio e também para Vicky, já que ele decidiu se concentrar nela e nos momentos “calientes” que ambos tiveram enquanto estiveram em Oviedo.
Vicky Cristina Barcelona segue de maneira agradável até o seu desfecho, quando as duas amigas estão indo embora da cidade. O filme vira, na realidade, uma parte da personalidade de cada um de nós. Quem já não viveu uma aventura amorosa? Quem não se sente segura e com medo demais para viver uma paixão? Woody Allen coloca uma série de questões que estão envoltas em cada ser humano, sejam pelas contradições do amor ou, ainda, pelas oportunidades desperdiçadas para vivê-lo. Com uma melancolia característica, mas também dono de uma comédia sagaz e cheia de tiradas inteligentes, Woody Allen, mesmo longe de Nova York, cria um filme divertido e atrapalhado, como a própria vida.
















16 de novembro de 2008 as 11:16
eu vim aqui só pra ler o que a pessoa mais entendida de cinema ( e que eu mais admiro) tinha a dizer sobre o meu diretor favorito. vi o trailer do filme e amei!
a sua critica esta infitnitas vezes melhor que a do cineinsite (como sempre)
beijos. te amo!
(acho que eu tô mais pra Vicky hein..)
16 de novembro de 2008 as 15:45
Gostei desse filme. Não tem nada de muito espetacular, mas funciona por causa do elenco. Eles, junto com o roteiro, trazem muita verossimilhança para a história. No final das contas, é fácil se identificar com a história. O ponto alto, no entanto, foi a Penélope Cruz, maravilhosa!
16 de novembro de 2008 as 15:56
Eu acho, Matheus, que é por isso que o filme funciona tão bem. Ele não tem nada de excepcional. É uma obra realmente simples e, como você mesmo disse, depende bastante da atuação dos seus atores. Concordo com você: a Penélope Cruz arrasa no filme. Eu achei a Rebecca Hall meio sem graça, mas isso não importa muito para o filme.
Engraçado é o Juan Antonio falando: “María Helena, speak in english, please.” muito bom.
Ju, eu nao sabia que você me admirava coisinha linda aiuahuiaaiuhaiu
beijos, você vai amar o filme do seu diretor favorito
te amo!
4 de janeiro de 2009 as 1:56
Depois de muitas semanas, mas não jamais tardiamente, vi o filme. E que filme! Não tem nada de realmente outstanding, mas o que mais me impressionou foi que o filme foi realmente um presente para os quatro atores, em especial para Penelope Cruz, obviamente. Assim como o coringa de Heath Ledger, a cada menção de Maria Helena, eu fibrava e a ansiedade em ve-la em cena só aumentava. Cruz marca presença mesmo sem estar em cena, o que é incrível!
Um momento que me chamou muito a atenção foi a forma como Juan narra as loucuras de Maria Helena enquanto casados, mais precisamente quando ele diz, com um certo tom de satisfação, que ela tentou matá-lo, como se ele fosse abençoado por ter encontrado uma mulher que o amasse tanto ao ponto de perder a cabeça por conta dele.
A unica coisa que me incomodou (um comentário besta, confesso) é que assisti ao filme achando que a Vicky do título fosse a personagem de Cruz e perceber que ela não se chamava Vicky me deixou intrigado durante boa parte da história.rs Mas sem desprezar a verdadeira Vicky, que se mostrou definitivamente mais interessante que Cristina, porém, nem um pouco aos pés de María Helena.
Um filme delicioso para ser revisto em um sábado tranquilo jogado no sofá da sala.
4 de janeiro de 2009 as 1:58
E ah! O que foi o comentário do pai de Juan Antonio sobre os sonhos eróticos com Maria Helena?! Só Woody Allen msm hahahahaha
4 de janeiro de 2009 as 1:59
PQP! relendo meu comentário, achei dezenas de erros! Faz de conta que eu tenho 12 anos e aprendi a falar portugês agora.
4 de janeiro de 2009 as 3:10
O filme é muito bom Picelli. Eu tive revê-lo porque, na ocasião do lançamento eu acabei indo na estréia e me deparei com um cinema repleto de adolescentes que não estavam ali para ver o filme, mas sim, para pertubar o ambiente. Então, acabei pegando, no mesmo dia, uma sessão um pouco mais tarde, em torno das 21hrs, para assistir o filme em paz. E, nossa! Só percebi ainda mais o quanto ele era brilhante e gostoso de se ver.