O Seminário Internacional de Cinema e Audiovisual (Semcine) chega à sua quinta edição homenageando a Nouvelle Vague, por conta das comemorações do Ano da França no Brasil. Por isso, a Retrospectiva Godard, além de exibir filmes de um grande mestre e de um dos precursores do movimento, se torna também uma oportunidade de visualizar aquilo que se costumou chamar de ‘cinema de autor’. Entre os dias 28 de julho e 01 de agosto, no Teatro Martin Gonçalves, as obras do cineasta estarão prontas para serem exibidas a todo o público do festival.

Logo abaixo, estão as mesas de debates que farão parte dos três primeiros dias de Seminário, sendo sempre no turno da manhã e da tarde, porque de noite são exibidos longas-metragens para a Mostra Competitiva. Confira:

Salão Principal do Teatro Castro Alves

27 /07 – Segunda feira

14h às 18h

Abertura do V Seminário Internacional de Cinema e Audiovisual

MESA I. GODARD: CINEMA E POESIA - Céline Scemama (FR), Alain Bergala (FR)

Mediador: Angel Diez (RJ)

“A imagem chegará no tempo da ressurreição”. Palavras que Godard atribui a São Paulo, mas que não constam em nenhum dos textos do apóstolo… Promessa de Godard que, sendo o mais pessimista dos cineastas contemporâneos, revela-se como o maior guia para os futuros operários do que hoje chamamos de “audiovisual”. Cineasta ortodoxo, Jean-Luc Godard acredita na chegada messiânica de um novo modo de entender o mundo: a imagem como linguagem. Ainda moramos sob o poder de Gutenberg, não se cansa de repetir ele…

28 /07 – Terça feira

09h30 às 13h

MESA II. O FUTURO DO CINEMA – Kiko Goifman (SP), Montse Martí (ESP), Pedro Paulo Rocha (SP)

Mediador: Arlindo Machado (SP)

Acalorados debates questionam se a democratização prometida pelo digital permite ainda falar de arte cinematográfica. Fabricar um espetáculo completamente a partir de imagens de síntese ameaça a essência do cinema? A interpretação demoníaca das novas tecnologias representa a força da prudência ou simples tecnofobia?

Se a arte se empenha historicamente em utilizar as técnicas do seu próprio tempo o conhecimento delas, seus limites e possibilidades, é imperativo.

Da gênese do automatismo da imagem em movimento até os nossos dias, percorrer seus dispositivos experimentais obriga a uma historia das relações entre cinema e tecnologia. Esta não pode obviar o mar de nomes próprios que a alimentaram: Marey, Nicéphore, Edison, Lumière, os Skladanowsky, Meliès, Griffith, Sennett, Dreyer, Tati, Hitchcok, Bresson, Cameron, Straub & Huillet…

Seja a versão hardware das mega produções americanas como Trezentos, Guerra nas estrelas, ou o último Kar-wai-Wong, seja a versão software das DV de bolso de cada um, a ficção objetiva do real através do império do registro mais e mais automatizado levanta questões que merecem nossa análise.

Por outro lado mutações paradoxais como a mingua do espectador nas salas e a produção de um enorme numero de filmes obrigam a pensar novos parâmetros de produção, distribuição e exibição do audiovisual. Um cinema pós-midiático se anuncia.

Novas experiências cinemáticas de fronteiras expandidas. Em resumo, novas formas de fazer e de experimentar.

15h às 18h

MESA III. O ORIENTE CINEMATOGRÁFICO – Ram Devineni (EEUU), Alessandra Meleiro (SP)

Mediador: Mahomed Bamba (UFBA)

Cinema asiático ou cinema oriental? Existe de fato um oriente cinematográfico? Limita-se às cinematografias dos países do Oriente Médio ou inclui também países como Japão, Coreia, Israel, os Balcãs, a Índia, Turquia, Usbekistão e toda Ásia Central? A hesitação terminológica para se referir às cinematografias ao leste do Ocidente merece reflexão, pois revela uma parte de “orientalismo” na crítica e recepção dos filmes provenientes desta parte do mundo.

Um Oriente como ficção do Ocidente.

Se há um “orientalismo” cinematográfico contemporâneo, suas raízes profundas derivam daquilo que Edward Said já apontava como atitude e uma prática política, intelectual, cultural e científica reveladora de uma “certa vontade ou intenção de Se há um “orientalismo” cinematográfico contemporâneo, suas raízes profundas derivam daquilo que Edward Said já apontava como atitude e uma prática política, intelectual, cultural e científica reveladora de uma “certa vontade ou intenção de compreender, em alguns casos, controlar, manipular e até incorporar o que é um mundo manifestamente diferente.”

De um ponto de vista geográfico, podemos ver que o “orientalismo cinematográfico” começa pelo interesse manifesto de alguns realizadores ocidentais pelas paisagens, costumes e espaços do oriente árabe. Em seguida este interesse se prossegue na crítica e no olhar eurocêntrico sobre produções cinematográficas ricas em novas propostas estéticas (notadamente o cinema japonês, com os fenômenos que foram Ozu e Kurosawa, ícones da Nouvelle Vague.)

A atual expansão do cinema de Taiwan, China, Coréia, Iran, atualiza o debate sobre as fronteiras entre o político, o estético e o cultural na definição globalizante dos cinemas nacionais. A organização de festivais internacionais sobre estes filmes consagra, por sua vez, estes agrupamentos dos cinemas regionais sob um mesmo leque e etiqueta. Quais tendências, formas de pensamento e relação de alteridade tais denominações revelam? Essa é a proposta desta mesa em torno do cinema oriental ou asiático.

29 /07 – Quarta feira

09h30 às 13h

MESA IV.  QUANDO O CINEMA É ARTE - Walter Carvalho (RJ), Kristian Feigelson (FR)

Mediador: a confirmar

Polêmicas e teorias divergentes marcam a cópula histórica entre o cinema e a arte. Desde 1912, ano em que o futurista Ricciotto Canudo baptizou o cinema nascente como 7ma arte, síntese sinfónica de todas as artes, polimorfas interpretações sobre sua essência ocupam teóricos, críticos e realizadores.

Arte impura, voraz apropriadora de outros saberes, primitiva e moderna, sabia e popular, clássica e experimental, livre e universal ao mesmo tempo. Para as vanguardas, o cinema é antídoto do dogmatismo e academicismo, sempre reinantes.

Os argumentos universais da literatura retornam constantemente, o protagonismo da música se multiplica,  a dimensão poética é advertida. Magritte imprime a montagem cinematografia na pintura, o plano sequência é evidente em Hopper, Antonioni “pictorializa “ planos, Godard degusta o pop. As apropriações são constantes e as vezes, reciprocas.

Como as artes maiores afirmam sua presença no cinema? Nascido na encruzilhada do espectáculo de massa e das técnicas, o cinema merece a sua denominação de “sétima arte” ou é apenas um sucedâneo da grande arte? O que aproxima o “cinema de arte” do “vídeo arte” enquanto projetos estéticos? Quando podemos afirmar que a arte anima o audiovisual?

Ao longo da sua evolução, essas questões “existenciais” têm justificado indireta ou indiretamente a emergência de diversas escolas e poéticas cinematográficas. Os integrantes desta mesa tentaram fazer um balanço destas questões.

15h às 18h

MESA V. PENSAR O CINEMA – Silvia Swcharzbock (AR), Gerardo Yoeln (AR), Muniz Sodré (RJ)

Mediador: Célio Garcia (BH)

Podemos pensar o cinema ou ele é somente um campo de ação? Seria o acontecimento cinematográfico pensável, ou a ele teríamos que nos submeter, servindo-lhe de suporte “sem pensar”? O cinema como experimentação filosófica foi formalizado por Gilles Deleuze e vem sendo retomado incessantemente pela filosofia.

O estatuto ontológico da imagem, a operação epistemológica da montagem, o porte ético do travelling, a vocação panóptica do dispositivo cinematográfico, a fenomenologia da recepção, as dimensões da realidade e da ficção e suas porosas fronteiras, a dimensão ontológica e geopolítica do próprio cinema são questões que animam o debate contemporâneo de idéias.

Por outro lado, a extraordinária experimentação proporcionada pelo cinema e suas montagens liberadas cada vez mais de códigos consagrados, sua escrita sincopada, põe a filosofia a pensar novos problemas. A parceria entre o cinema e filosofia é hoje obrigatória. Imagens pensantes.

MESA VI.  A INSUSTENTÁVEL LEVEZA DOS MUROS. CINEMA E POLITICA – Jim Finn (EEUU), Paulo Paranaguá (FR), Gustavo Dahl (RJ)

Mediador: José Serafim (UFBA)

Cinema e política, política no cinema, política do cinema?

Como tratar esta questão, ou melhor, essa dupla explosiva que estará presente desde o inicio do cinematógrafo, através de filmes, como O caso Dreyfuss (1899) de Georges Méliès ou O assassinato do duque de Guise (1908) realizado por André Calmettes e Charles le Bargy. A partir deste momento o cinema, através de suas inúmeras representações de aspectos das sociedades abordará, tanto como tema principal quanto secundário, questões vinculadas à sociedade e à política. Estas questões permearão grande parte das produções cinematográficas, seja através de temáticas ou de movimentos mais amplos, por exemplo, o neo-realismo italiano ou a Nouvelle-vague francesa, esta última tratará a política, inclusive, através do manifesto denominado “política dos autores”.

Pode-se também pensar essa questão no sentido militante tal qual o movimento realizado nos anos 1960 pelos cineastas latino-americanos, ou a militância do Grupo Dziga Vertov criado por Jean-Luc Godard. Será também o caso de cineastas como Chris Marker, Costa Gavras, Nanni Moretti, Abbas Kiarostami entre tantos outros, que farão da política a espinha dorsal de suas obras, mas impregnando-as sempre com uma grande poesia. O cinema político não se definiria assim pelo seu conteúdo, mas sim pela sua própria ontologia. São os temas politicamente engajados ou sua função poética que transformam o cinema em uma arma carregada de futuro?

Parafraseando o pensador alemão Max Weber, pode-se dizer que o cinema tem indubitavelmente uma “vocação para a política”.