Agora já em casa depois de curtir um pouco do Festival de Cinema de Gramado, as publicações aqui no blog voltaram ao normal. Mas ainda falando do evento de cinema na Serra Gaúcha, afinal de contas, foi uma semana de filmes exibidos, debates no centro de eventos e muita badalação no tapete vermelho. No jornal “Diário do Festival”, pude acompanhar os textos e opiniões da crítica em relação aos longas-metragens e sobre tudo o que acontecia na cidade, que durante esse tempo respirava cinema, algo que poderia ser notado logo na entrada e na decoração.de todo o espaço.

Mas o propósito do festival é discutir cinema, certo? Não em Gramado. Apesar do bom trabalho da nova ouvidoria, formada por José Carlos Avellar e Sérgio Sanz, o Festival de Cinema de Gramado precisa deixar de lado um pouco mais do glamour do tapete vermelho e se concentrar nas discussões cinematográficas, tendo como base os críticos, cinéfilos, produtores e amantes da sétima arte. Os espaços para debates são muito poucos. O único lugar em que isso ocorre é no Centro de Eventos, na parte da manhã, onde realizadores de longas e curtas-metragens que foram exibidos na noite anterior se reúnem com a imprensa e com os cinéfilos para um papo sobre os seus respectivos trabalhos. Não existe nenhuma mesa-redonda para se discutir as teorias do cinema, os elementos de composição e de realização, entre outras coisas.

Fazendo um pequeno paralelo com o Seminário de Cinema que acontece aqui em Salvador, o Festival de Gramado fica muito atrás. Eu falo isso em relação aos debates que a mostra na capital baiana oferece. O tempo de duração é o mesmo: uma semana. A diferença está na forma como cada um é organizado. No Festival de Gramado os ingressos para assistir aos filmes no Palácio dos Festivais chegam a custar R$80,00. Em Salvador, paga-se apenas R$20,00 e dá para curtir o Seminário todos os dias. A diferença não fica apenas no valor, mas é óbvio que a cidade de Gramado também está preocupada com o turismo e, por essa razão, o festival é mais feito para quem vem de fora do que para os gramadenses, que se espremem nas grades que cercam o tapete vermelho para, assim, tentarem ver algum artista.

Mas há um saldo positivo desse Festival de Gramado. Apesar de ter sido o primeiro que acompanho de perto, estando na cidade e vivenciando tudo o que eu costumava ler em edições anteriores, este 36° festival seguiu a lógica e não procurou inventar prêmios. O kikito dado a Nome Próprio, por exemplo, foi super merecido e comemorado por todo o público que estava no Palácio dos Festivais. Assim como a premiação de Leandra Leal, que interpreta Camila no filme de Murillo Sales, ter vencido na categoria de Melhor Atriz. Mas ninguém estava mais feliz do que Matheus Nachtergaele. O seu filme A Festa da Menina Morta, que marca a sua estréia na direção de um longa-metragem, levou seis kikitos, incluindo os prêmios de Melhor Filme eleito pela crítica e pelo júri popular.

Por mais que se tente discutir o cinema e de tentar ser uma celebração dessa arte apaixonante, o Festival de Cinema de Gramado é um evento feito para poucos. Digo isso porque os altos valores atrapalham e fazem parecer que ele seja mesmo destinado apenas para os atores, diretores, produtores e realizadores do cinema. No entanto, se até o Júlio Bressane, que em toda a sua vida criticou o formato do festival se rendeu este ano e até foi homenageado, não cabe a mim proclamar críticas à maneira como eles conduzem o evento. De qualquer maneira, fica aqui registrado o meu desejo de que o Festival de Cinema de Gramado possua mais debates, palestras com estudiosos. E que não fique apenas no tapete vermelho. O cinema é maior que isso e, por essa razão, é preciso que a comissão organizadora faça valer o aspecto de arte que ele tem. Uma arte que tem o poder de emocionar, de nos fazer rir, chorar e criticar. Esse é o espírito do cinema e não apenas a badalação e gritarias do tapete vermelho.

Porém, o que marcou mesmo a edição desse ano foi o equílibrio. E essa é a palavra que todos usavam nas matérias que foram publicadas no dia seguinte ao término do evento. A dosagem perfeita entre o glamour que tanto chama atenção na cidade e as discussões, mesmo que pequenas, sobre o cinema. Todos apontavam que em nenhuma outra edição isso havia sido feito de uma maneira tão interessante, inclusive dando valor às mostras paralelas e ao Gramado Cine Vídeo, que tem o objetivo de no ano que vem se desvencilhar do Festival de Cinema de Gramado. Com isso, o Gramado Cine Vídeo aconteceria em Maio, sendo um evento completamente independente. Mas, nesse momento, isso não vem ao caso. O que vale dizer é que, querendo ou não, o Festival em Gramado é o mais importante no Brasil, juntamente com a Mostra de Cinema de São Paulo.