Desde a sua estreia, há quatro anos, “Damages” conquistou a crítica com roteiros bem inteligentes e personagens fascinantes. Glenn Close, que andava meio esquecida na indústria do entretenimento, recuperou a sua carreira ao encarnar com autoridade e veemência a advogada implacável Patty Hewes. Após três temporadas, o cancelamento e a salvação por meio de um canal pago norte-americano, a série encabeçada por Glenn Close e Rose Bryne está de volta para mais uma história de conflito, segredos e surpresas.

Desde a morte de Tom Shayes, três anos se passaram e tanto Patty quanto Ellen (Bryne) seguiram caminhos diferentes em suas vidas – apesar de manterem um ou outro contato. Hewes está tentando sobreviver sozinha com a sua neta, Catherine, mas não consegue lidar com a solidão, o cansaço e o estresse do trabalho. Na outra via está Ellen, determinada a fugir da estagnação do seu novo emprego e lutando para conseguir um caso que possa valer a pena. É por meio disso que ela volta a se encontrar com um ex-amigo de escola, Chris Sanchez, um ex-fuzileiro que prestou serviços para a High Star, empresa contratada pelo governo americano para dar suporte à guerra no Afeganistão, e que está passando por problemas de readaptação por conta da última missão que participou.

É claro que Ellen sente falta daquela “emoção” de pegar um grande caso. A High Star é uma boa oportunidade para ela voltar a trabalhar da forma que aprendeu com Patty. Mesmo porque, apesar dela negar durante bastante tempo e, principalmente, condenar as ações de Hewes em relação à condução dos seus processos, Ellen sabe que no mundo atual cada um faz o que é necessário para conseguir vencer. Por isso que a sua pergunta à Patty Hewes ao final da terceira temporada soa de forma tão retórica: “valeu a pena?”. O governo americano não deseja renovar o contrato com a High Star e, no centro desta negociação, o Congresso acusa Howard Ericksson (John Goodman) sobre a maneira como a sua empresa atuou na Guerra.

Aliás, foi uma escolha acertada por parte dos criadores chamarem o ator John Goodman para interpretar um personagem que está diretamente ligado à guerra. Ele já fez isso quando trabalhou com os Irmãos Coen em “O Grande Lebowski” (1998). Walter Sobchak, seu personagem  no filme que virou um símbolo cult nos EUA, era judeu, jogador de boliche e lutou no Vietnã. Todas as suas ações são motivadas por métodos paranóicos que colocam, tanto ele quanto “The Dude”, em apuros durante o filme. Em “Damages” ele aparece com outros “chefões” que a série já apresentou nas últimas temporadas: alguém que, além das atrocidades que porventura tenha cometido, está tentando fazer o melhor para a sua empresa. Pelo menos, é nisso que eu quero acreditar.

Outros personagens que também foram processados como, por exemplo, Arthur Frobisher e Louis Tobin, eram “medalhões” que cometeram erros e que, acostumados com a impunidade, seguiram em frente sem pensar em consertá-los. No entanto, a partir do momento em que Patty Hewes esteve no encalço deles, de alguma forma era possível perceber que eles estavam tentando corrigir os seus erros (neste caso, pagando para aqueles que eles provocaram “danos”). É por isso que Howard desaprova os métodos de Jerry Boorman (Dylan Baker) que, como ele próprio diz, “está limpando a sujeira” deixada por Ericksson.

Se “Damages” apresenta esta relação entre os seus personagens, as tramas são ainda mais fáceis de perceber isso porque estão diretamente ligadas a casos que aconteceram de verdade. Na primeira temporada, a história apresentava um grupo de funcionários de uma empresa falida que lutavam para receberem indenização. Este caso teve como base um escândalo ocorrido em 2001 envolvendo a empresa de energia Enron. Localizada no Texas, ela foi acusada de fraudar os lucros da empresa ao longo de seis anos, foi processada por seus funcionários e depois pediu falência.

Já no segundo ano, a série apresentou a relação da indústria com problemas ambientais. E esta é uma referência a vários casos que ainda estão acontecendo, não somente nos Estados Unidos, mas em todo o mundo. A história da terceira temporada girou em torno de um esquema aplicado por um empresário e filantropo com base no caso de Bernard Madoff, em 2009. Intitulada de “pirâmides financeiras”, o esquema se baseava em investimentos e promessas no centro de Wall Street. Movimentando mais de 50 bilhões de dólares, Madoff não poderia explicar como o dinheiro era investido, em que era investido e da onde ele saía para ser investido, já que a transação se baseava no investimento das pessoas que entravam na pirâmide – o que fazia o dinheiro render a partir do investimento que cada um fazia.

Nesta quarta temporada, a relação da empresa particular High Star está diretamente ligada à BlackWater e em suas atividades na Guerra do Iraque. Fundada em 1997, o seu objetivo era treinar ex-militares e civis para serviços de segurança. Ela foi contratada pelo governo americano sem passar por nenhuma licitação pública, recebendo recursos para atuar na segurança da Embaixada Americana no Iraque, proteção de diplomatas e também de instalações. Nos anos 2000, a partir de uma série de reportagens publicadas nos veículos de comunicação dos Estados Unidos, vários processos foram abertos contra a empresa acusada de 200 casos de corrupção, abuso de poder e um massacre de civis ocorrida na praça de Bagdá, que resultou na morte de 17 iraquianos mortos e outros 20 feridos.

No livro “BlackWater: The Rise of the World’s Most Powerful Mercenary Army”, publicado em 2007 pelo jornalista investigativo americano Jeremy Scahill, ele esmiúça ainda mais as práticas ilegais da BlackWater, a sua relação com o governo americano e em como ele se envolveu, além dos casos de corrupção n0s quais foi acusada. E é isso que o canal DirecTv, que salvou “Damages” do cancelamento, deseja que os roteiristas também façam: esmiuçar a história para ir cada vez mais fundo na complexidade deste jogo de poder que a série tratará ao longo desta quarta temporada.

“Damages” começou bem, mas ainda acredito que episódios com mais de cinquenta minutos os tornam extremamente cansativos e enfadonhos. Em um determinado momento, perto do seu final, os editores do capítulo deram uma acelerada na ação e no corte das cenas. Seria prudente se eles pensarem em fazer isso mais vezes para tentar criar um certo dinamismo para a história para não torná-la por demais arrastada. Este foi o mal que ocorreu com “Rubicon”, da AMC, e que praticamente provocou o seu cancelamento. Para este primeiro episódio faltou, sim, dinâmica. No entanto, a série esbanjou poder em seu roteiro e na composição dos personagens.

Agora é aguardar o que mais poderá vir por aí…

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