Dúvida

Cinema, Críticas 1 Comentário »

Dirigido por John Patrick Shanley. Com: Meryl Streep, Phillip Seymour Hoffman, Amy Adams, Viola Davis, Carrie Preston, Joseph Foster e Bridget Megan Clark. (Doubt, 2008)

O primeiro sermão dito pelo Padre Brendan Flynn (Hofffman) nos primeiros minutos da projeção é sobre a Dúvida. A história se passa um ano após o assassinato do Presidente Kennedy, talvez um dos mais importantes líderes políticos que o país e o mundo já viram. Em uma época de incertezas, a Dúvida referida pelo Padre era mais sobre a conjuntura que os Estados Unidos estariam tomando após aquele fatídico dia. Aqui, o roteiro escrito por John Patrick Shanley – que, na verdade, é uma peça de criada por ele mesmo – não precisa mencionar tal coisa, fica subtendido por ter sido um fato marcante e estava ainda muito recente.

Padre Flynn representa o progresso da Instituição Educacional onde é reitor. Enquanto isso, a Irmã Aloysius Beauvier (Streep) é exatamente o contrário. Lutando contra os progressistas, ela é uma pessoa conservadora e faz questão de mostrar isso para as outras Irmãs e, principalmente, para os alunos, uma vez que o respeito é muito importante. E, de imediato, esta personalidade fica em evidência quando a vemos dando ordens de comportamento ás crianças durante uma missa. Além disso, a sua expressão sempre séria é um contraponto com as outras Irmãs. O Progresso e o Conservadorismo se enfrentam neste filme, sendo a Dúvida algo muito mais forte.

A Instituição muda completamente quando acolhe o primeiro estudante negro, Donald Miller (Foster). Sendo coroinha do Padre Flynn, ele tem um desejo muito grande de um dia se tornar como ele. Por essa razão, os dois mantém um contato muito próximo que acaba despertando suspeitas por parte da Irmã James (Adams) e, principalmente, da Irmã Aloysius. Porém, as duas são bem diferentes. A personagem de Amy Adams confessou a desconfiar apenas por intermédio da Irmã Beauvier, haja vista que a sua desconfiança já vinha de longa data. O filme segue com essa dúvida durante todo o tempo e, na verdade, se trata de acreditar na verdade que cada um conta, ou melhor, no juízo de valor de cada um.

O espectador pode acreditar na Irmã Aloysius, mas desmerecê-la por não ter provas que comprovam que o Padre Flynn estaria tendo um relacionamento sexual com o estudante Donald Miller, sofrendo preconceitos da turma e do seu próprio pai, encontrando no Padre o “carinho” que lhe faltava. Por essa razão, que fica até mesmo difícil não acreditar na palavra do Padre Flynn, mesmo porque ele se utiliza de justificativas plausíveis para explicar a “amizade” que tinha com o garoto. E a fotografia do sempre competente Roger Deakins representa bastante isso porque, ao delimitar o espaço em que as coisas acontecem, temos a percepção desta falta de liberdade que persegue os alunos, principalmente porque a direção de John Patrick Shanley é também muito próxima dos seus personagens, causando até certa claustrofobia em determinados momentos.

No entanto, o que mais intrigou no filme – além da Dúvida, é claro – foi à metáfora inteligentíssima que o roteiro utilizou para o vento. Perceba o quanto este elemento narrativo é importante porque, a primeira que o vemos com detalhe é quando ele movimenta ferozmente o guardanapo da Irmã Aloysius, que olha com certa preocupação. O vento vai ficando mais forte, até causar um acidente com uma das Irmãs mais velhas da Paróquia. Mais pra frente, ele volta a ser utilizado quando a mãe de Donald Miller, aqui muito bem interpretada por Viola Davis, tem um longo e intrigante diálogo com Irmã Aloysius. O Vento representa a instabilidade, assim como a banda Los Hermanos traduz ao cantar: “o vento que entortou a flor / passou também por nosso lar…”

Como se não bastasse, este elemento foi utilizado ainda mais uma vez. Ao perceber que a situação estava insustentável, o Padre Flynn pede demissão. E isso pode ter dois entendimentos: o pedido de resignação por ser culpado ou, ainda, por querer apenas proteger o garoto. Mais uma vez ela, a Dúvida. No entanto, o que mais chama a atenção é o seu sermão num dos últimos atos do filme, quando ele cita o Vento para explicar o porquê de estar se desligando da Paróquia. É uma metáfora bastante intrigante, suscitando uma série de entendimentos para o que estava acontecendo, para as desconfianças que moviam a paróquia e aquele colégio.

Ainda que a Irmã Aloysius tenha conseguido o que realmente queria – expulsar o Padre Flynn – é perceptível que ela própria, apesar da aparente certeza, tinha dúvidas quanto à integridade do Padre, mas também quanto ao que ela pensava sobre ele. E não é por mero acaso que o filme se chama Dúvida. É ela quem move o filme, assim como o Vento, que se torna um elemento narrativo de fundamental importância. Mesmo tendo uma direção irregular em alguns momentos, o roteiro de John Patrick Shanley é primoroso ao saber retratar o julgamento humano, deixando que o público faça o seu, tendo a possibilidade de acreditar na história ou não.

Cotação: ★★★★☆

* Postado originalmente no dia 6 de Fevereiro e novamente publicado por conta do filme ter estreado no Brasil neste fim de semana.

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Lars and The Real Girl

Cinema, Críticas 2 Comentários »

Dirigido por Craig Gillespie. Com: Ryan Gosling, Emily Mortimer, Paul Schneider, Kelli Garner e Patricia Clarkson. (idem, 2007)

Lars (Gosling) não é uma pessoa muito sociável. Na pacata cidade onde vive, ele segue a sua vida normal. Acorda, vai pro trabalho e retorna pra casa. A todo momento Karin (Mortimer), esposa do seu irmão mais velho, tenta fazer com que Lars possa se socializar um pouco mais com a sua família o convidando para tomar o café ou para jantar. E Lars também não mantém nenhum relacionamento amoroso, por mais que ele atraia as mulheres por meio da sua beleza e do seu charme. Mesmo assim, ele nunca se interessa. Este é o ponto-chave do roteiro de Nancy Oliver, porque ela cria uma expectativa a partir do momento em que começamos a questionar o porquê de Lars não manter nenhum relacionamento.

Muito bem, para se esquivar das indagações, Lars compra uma boneca sexual. Porém, se engana quem pensou que ele comprou apenas para satisfazer as suas necessidades sexuais. Muito pelo contrário, ele criou em Bianca (nome que ele deu para a boneca), uma garota real que fazia tudo aquilo que as outras garotas da sua idade deveria fazer. E ele não tem vergonha alguma de mostrar a sua Bianca para aquele pequeno povoado que, quando acontece algo de diferente, logo começa os burburinhos. Pra começar, o irmão de Lars, Gus (Schneider), acredita que ele está ficando louco ao vê-lo tão “apaixonado”. E podemos até mesmo rir com as suas facetas de desaprovação ao não compreender aquilo que está se passando na cabeça do seu irmão.

Mas, aos poucos, não somente ele mas a pequena cidade, começa a tratar Biana como uma pessoa de verdade. Uma mulher com necessidade de ir ao salão, de trabalhar, de fazer trabalhos para a caridade. Coisas que as mulheres do lugar também faziam. E essa também é uma forma de tornar os fatos confortáveis para Lars, uma vez que ele idealizou uma mulher e acredita veementemente que tem uma relação de amor com ela e que aquilo não está apenas na sua imaginação. Ele começa a se encontrar ocasionalmente com Dagmar (Clarkson), uma psicóloga da cidade que o ajuda indiretamente a entender o que está acontecendo.

O mais importante é que aqui o roteiro pode desenvolver para o espectador uma série de explicações para o que acontece com Lars. Para explicar, por exemplo, a maneira como ele não é sociável, podemos deduzir que seja por conta da sua infância problemática ao perder os pais muito cedo, não tendo a oportunidade de conhecê-los. Entretanto, para compreender o fato dele não se relacionar com ninguém, pode-se até imaginar que ele já teve alguma desilusão amorosa e encontrou em Bianca uma forma de superar aquilo que ele passou. É claro que estas deduções podem estar completamente equivocadas. E volto a repetir, o maior mérito do roteiro de Nancy Oliver, além de não cair nos clichês do gênero, é está dúvida que permanece durante todo o filme. E Gus também começa a se culpar por ter abandonado o irmão na infãncia uma vez que, para ele, este pode ser o real motivo para ele estar agindo daquela forma, sob o ponto de vista de Gus.

No entanto, Lars começa a perceber em um determinado momento que ele não estava se relacionando com uma pessoa real. Ele poderia até ter entendido isso antes, mas ele começa a se dar conta a partir do momento em que tem um encontro com Margo (Garner). Ele ali consegue enxergar a realidade que antes parecia meio obscura. E, metaforicamente, a maneira como ele utiliza o fato de não querer mais nada com Bianca é a partir do seu provável “não” ao pedido de “casamento” de Lars e, logo em seguida, quando ele diz que ela está morrendo. Acredito que são dois momentos muito importantes no filme, não por aquele atinge o seu clímax, mas basicamente porque mostra a aceitação da realidade por parte de Lars ou o começo da sua compreensão de que Bianca fazia parte apenas de uma idealização que ele tinha de uma mulher perfeita.

A história de Lars and The Real Girl é tão tocante que o filme não precisa se esforçar em nenhum momento para emocionar o seu espectador ou para chocar. As coisas parecem acontecer naturalmente. Os saltos no tempo, representados sempre pela tomada de fora da casa de Lars, é a maneira que o roteiro encontrou para mostrar a passagem do tempo e a duração do relacionamento que ele tinha com Bianca. Apesar de continuar na mesma estação (o filme se passa no Inverno), vimos que existem várias características que o representa. Além disso, vale edificar a atuação de Ryan Gosling e a direção precisa e convencional de Craig Gillepsie. Um filme maravilhoso, muito mais pela simplicidade e pela maneira realista com que a história é contada.

Cotação: ★★★★☆


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À Procura de um Beijo da Meia-Noite

Cinema, Críticas 5 Comentários »

Dirigido por Alex Holdridge. Com: Scott McNairy, Sara Simmonds, Brian McGuire, Twink Caplan, Kathleen Luong e Robert Murphy. (In Search of a Midnight Kiss, 2008)

Dados apresentados no início do filme dão conta de que, às vésperas do ano novo, sites de relacionamentos como Facebook, Orkut e Myspace, se tornam uma grande zona de pessoas desesperadas para encontrar uma companhia na passagem do ano. Muitos acabam criando contas e marcando encontros para conhecer aquela pessoa ideal, afim de não ter que passar mais um final-de-ano sozinho, pensando nos amores que poderia ter tido, pensando nos relacionamentos que terminaram e no péssimo ano que tiveram.

E assim somos apresentados a Wilson (McNairy) e seu colega de quarto, Jacob (McGuire), além da namorada deste último, Min (Luong). Os três viveram juntos durante o ano de 2008 e cada um viu no outro as mudanças (ou não) que cada um teve. Jacob, por exemplo, se manteve firme no seu relacionamento com Min e agora, na virada do ano, pretende pedí-la em casamento. Para isso, pediu o anel que o seu pai deu para a sua mãe quando eles se casaram. Um objeto que, por si só, representa tudo o que há de pior num relacionamento, já que ele acabou passando por cinco pessoas diferentes e é carregado de ódio e desilusão. No entanto, Jacob quer mudar a tradição e por isso escolheu uma data tão simbólica para se comprometer ainda mais com a namorada que ele tanto ama.

Enquanto isso, Wilson é um cara solitário e que fica usando as fotos da namorada do seu amigo para exercer o seu “poder sexual”. Desde que se mudou para Los Angeles - antes ele morava em Austin, no Texas – sua vida não mudou muito e ele continua relembrando uma antiga paixão que ele acabou deixando na sua cidade-natal. Além disso, ele vive constantemente querendo voltar, por achar que Los Angeles não é uma cidade “amorosa”, uma vez que ele não conseguiu mudar a sua vida e nem tem pretensões de fazer isso na virada do ano. Por essa razão, Jacob, querendo ajudar o seu amigo, tem a brilhante idéia de fazer um perfil dele nestes sites de relacionamentos. É o começo da jornada de Wilson em conhecer alguém especial para não passar o fim-de-ano sozinho novamente, mas também de Jacob, que precisa tomar coragem para pedir a mão da sua namorada.

Com o seu perfil, Wilson logo consegue marcar um encontro com uma garota. Ele, então, conhece Vivian. E desde o início percebemos que ela é uma pessoa perturbada. Basta apenas observar o número de cigarros que ela tenta fumar enquanto marcava para conhecer Wilson pelo telefone, assim como o seu desespero em agendar vários encontros para ter a chance de escolher a melhor companhia na virada do ano. E constantemente o seu celular toca e ouvimos a voz em off, hora do seu namorado procurando redenção e perdão, hora da sua mãe se preocupando com a sua filha que, aparentemente, resolveu se esconder do mundo e das pessoas.

O roteiro escrito pelo próprio Alex Holdridge deixa de ser, conforme o filme passa, uma mera jornada para encontrar a pessoa ideal, já que ele também se preocupa em mostrar uma parte da cidade de Los Angeles que não é muito mostrada. O que torna o seu filme uma espécie de guia turístico porque ele faz questão de apontar a sua câmera para as placas com nomes de bairros, nomes de boates, de avenidas, estações de metrô e bares que ele considera ser um atrativo da cidade, para quem deseja ficar um pouco fora do glamour que ela pode proporcionar.

Ao lado de Alex Holdridge está Richard Linklater (diretor e roteirista do filme Antes do Pôr-do-Sol). Talvez, por essa razão, as duas obras acabam se tornando muito parecidas em sua linguagem - quase que uma extensão da outra - principalmente pela maneira natual com que os seus personagens dialogam. É claro que À Procura de um Beijo da Meia-Noite não tem a mesma empatia e sensibilidade do filme de Linklater, mas contempla a mesma simplicidade com que foi filmado. E quanto mais o filme avança, fica claro o que Holdgridge está reservando. Já podemos esperar pelo tal beijo antes mesmo de assistir à obra – basta ler o título do filme. O que é uma pena, uma vez que  percebemos uma tentativa por parte do roteiro em guardar aquele tão esperado momento e torná-lo inesquecível aos olhos de quem assiste o que, na verdade, não funciona.

Uma pena também que ele procurou ter o enfoque mais ainda na jornada de Wilson e Vivian, já que em determinados momentos eles se mostram um “casal” bastante desinteressante e começamos a ter a sensação de que a história entre eles não evolui, apesar de ambos ficarem andando pra cima e pra baixo pela cidade de Los Angeles, conversando sobre qualquer coisa. As poucas cenas entre Min e Jacob possuem uma representação muito mais forte e presente dentro do filme, já que ele está prestes a pedí-la em casamento quando ela, na realidade, tem planos de se mudar para Londres devido a uma oportunidade de emprego.

À Procura de um Beijo da Meia-Noite não sai do propósito da narrativa, que era colocar Wilson e Vivian enfrentando os seus problemas. E o casal começa a ficar mais interessante quando cada um decide contar àquele segredo que nunca contaram por ninguém. De imediato, Wilson revela o seu segredo ao ter atração sexual pela namorada do seu melhor amigo. Vivian, no entanto, guarda o seu até o final da obra. E quando ela revela que estava grávida do seu ex-namorado, dá pra ficar realmente espantado porque vemos, finalmente, que o roteiro tinha algo mais para ser usado, tinha uma trama que não tinha ficado claro á primeira vista. E o que também explica o desespero de Vivian em encontrar também uma pessoa, assim como Wilson, mas também o porquê dela ter se escondido das pessoas e de não atender o seu celular.

E a verdade é que a trama entre eles fica muito mais interessante depois deste fato e do aparecimento do ex-namorado de Vivian, Jack (Murphy). O que acaba se tornando também o ponto de partida para que os dois se beijem na virada do ano, afogando o desespero e as lágrimas do último que passou, sem nenhum remorso de esquecê-lo. E o final, por mais que o filme tenha pecado neste desenvolvimento precário da narrativa, é fundamental para que ele próprio pudesse se livrar de todo esse romantismo embutido. Ao fazer uma analogia com a música “Wind of Chance” do Scorpions, vemos que a jornada de virar o ano de uma maneira diferente vai muito mais além do que um mero desespero para encontrar uma paixão. É apenas a maneira do filme dizer que era necessário uma “mudança de ares” e que todos precisam disso, em algum momento.

Cotação: ★★★☆☆


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A Duquesa

Cinema, Críticas 1 Comentário »

Dirigido por Saul Dibb. Com: Keira Knightley, Ralph Fiennes, Charlotte Rampling, Dominic Cooper e Simon McBurney. (The Duchess, 2008)

As mulheres, na Inglaterra dos anos 1700, eram puramente tratadas como um objeto de desejo dos homens mas que serviam apenas para procriar e gerar filhos para os seus respectivos noivos. E que estas crianças pudessem ser homens. Este era o acordo e foi assim que Georgina (Knightley), uma moça do campo e com expectativas de se casar com uma pessoa que a amava, entregou-se para o Duque de Devonshire (Fiennes). Ainda ingênua, ela realmente acreditou que estaria se casando por paixão e que o seu pretendente estaria, decerto, apaixonada por ela, mesmo os dois tendo se encontrado apenas em duas oportunidades.

Georgina, agora a Duquesa de Devonshire, estava prestes a perceber qual era a sua missão enquanto esposa. Como os dois mal conversavam entre si, ela começara a entender que o Duque estava muito mais preocupado com os seus cachorros do que com ela, do que com a sua esposa. O seu único interesse era que Georgina pudesse lhe dar filhos (lêia-se: homens) para assumir o trono do pai. E o grande problema do casamento entre os dois não ter funcionado foi a sorte de Georgina ter ficado logo grávida, mas a falta dela [a sorte], desta primeira criança ser uma menina. O Duque não acreditou no que estava acontecendo e, mesmo antes dela engravidar, ele já mantinha relações com outras mulheres fora do casamento. E, naquele momento, o fato da criança ter sido uma menina só ajudou para que ele procurasse outras mulheres o que, na verdade, era uma tendência naquele tempo.

Ao contrário de Maria Antonieta, que não conseguia engravidar de forma alguma, Georgiana era uma mulher que não tinha essa dificuldade mas, por outro lado, não conseguia “cumprir” a sua parte do acordo que era dar um filho homem ao seu marido. Falando dessa forma até soa grosseiro. Mas não se engane. Não existia nenhum romantismo no casamento e nos relacionamentos entre homens e mulheres. Esta idéia romântica de que a união seria para coroar a paixão e o amor de um casal estava apenas escrita nos livros porque, na realidade, todos tinham que cumprir mesmo as suas obrigações. Em uma determinada passagem do filme, o Duque de Devonshire pergunta porque as roupas das mulheres são tão complicadas. A Duquesa responde que elas eram nesse formato porque era a única coisa que as mulheres tinham pra mostrar, por isso todo o “glamour” e toda a complicação.

O que ela quis dizer é que os homens não precisavam usar roupas para chamar a atenção. O próprio título de nobreza falava por si só. As mulheres, por outro lado, tinham que estar sempre se afirmando perante a eles. Por isso que a Duquesa se tornou uma figura tão importante na história da Inglaterra. Com a sua gravidez e percebendo que ela não era amada (e que só poderia ser se pudesse dar um filho homem ao seu marido), Georgiana começou a se interessar muito mais por política e a participar das reuniões do partido do Duque de Devonshire. Sempre questionando a liberdade “moderada” que aqueles homens tanto pregavam, ela foi a responsável por “bater de frente” com o seu marido, numa época em que as mulheres deveriam se contentar apenas em criar os seus filhos e posar de boa esposa.

Quando Georgiana faz amizade com Elizabeth (Rampling), esta se torna a sua melhor amiga. No entanto, depois de tentativas frustradas de ter um filho homem, o Duque de Devonshire já estava cansado do casamento. A partir do momento em que ele começa a se relacionar com a sua melhor amiga, Georgiana sente que o seu mundo acabou e não consegue entender aquela poligamia familiar. Mas ela também começa a sentir uma necessidade de amar e ser amada e, quando ela reencontra Charles Grey (Cooper), ela finalmente pôde se sentir dessa forma. No entanto, os boatos em Londres e na alta nobreza começam a circular e o Duque de Devonshire começa a tomar as suas providências para acabar com a felicidade da sua Duquesa.

O Duque, assim, se mostra uma pessoa completamente egoísta. Mesmo com a não muito boa atuação de Ralph Fiennes, se percebe pelos seus atos o seu egoísmo. E não poderia ser diferente, afinal de contas, ele era homem e sentia que deveria controlar absolutamente tudo, mesmo tendo duas mulheres em casa e dividindo a mesma do café-da-manhã com elas, sem saber exatamente qual das duas ele mais gostava. O que também não se trata de “gostar”, ou de “amar”, mas sim do prazer que ele sentia em ver aqueles dois objetos em cada uma das suas mãos. E ele também não admitia ser o “corno” da relação com Georgiana. E as coisas ficam bem piores quando ela diz que estar grávida de Charles Grey, sendo obrigada a se livrar da criança a mando do seu marido.

A Duquesa é um filme belíssimo. O figurino é incrível, Keira Kinightley parece evoluir a cada épico inglês em que atua e isso fica claro na sua interpretação como a Duquesa de Devonshire. Talvez o ponto mais baixo da obra tenha sido a falta de representação do ator Ralph Fiennes, que não parece se esforçar muito em cena. A Duquesa, pelo menos, apaga a péssima impressão que fora deixada pelo filme A Outra. É claro que ele acaba sendo apenas mais um longa-metragem desta série de épicos ingleses lançados atualmente. Mesmo assim, o filme é preciso ao mostrar a composição da sociedade inglesa daquela época e os costumes que foram gerados em torno dela.


Cotação: ★★★½☆

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Novembro

Cinema, Críticas 5 Comentários »

Dirigido por Achero Mañas. Com: Óscar Jaeneda, Ingrid Rubio, Javier Ríos, Juan Díaz, Adriana Dominguez, Juan Margallo e Paloma Lorena. (Noviembre, 2003)

Tanto o Teatro quanto o Cinema (assim como a música) serviram, em épocas de ditadura e de outros movimentos sociais, como uma arte em busca de resistência e de explorar todas estas mazelas de uma forma criativa e original, tentando alertar a população e batendo de frente com as leis e o governo. Esse espírito revolucionário acabou se perdendo nestes tempos áureos da contemporaneidade, mas ainda tiveram aqueles que resistiram a esta globalização e lutaram contra aquilo que acharam valer a pena.

Foi com este mesmo intuito que nasceu o grupo de teatro espanhol “Noviembro” que, durante a década de 90 e começo do século XXI, causou transtornos ao governo espanhol por criarem um grupo de teatro cujas apresentações eram feitas nas ruas, nas praças públicas, nas avenidas movimentadas de Madri. O grande idealizador de tudo isso foi Alfredo (Óscar Jaeneda), que saiu da região de Murcia para tentar ganhar a vida em Madri e ser aceito em uma escola de teatro que se formava na cidade, ainda na década de 90. Entretanto, Alfredo começou a perceber que aquela escola não servira para ele. Ele não estava aprendendo técnicas de interpretação ou a verdadeira representação do teatro, mas sim algo que envolvia muito mais a psicologia do que propriamente a arte de atuar.

Percebendo isso, ele preferiu largar a escola e alguns amigos que ele fizera durante as aulas acabou seguindo-o. Todos tinham a mesma ideologia que ele: formar um grupo de teatro que pudesse invocar uma resistência jamais vista. Assim, eles começaram a criar alguns espetáculos de rua e isso causou um certo alarde nas autoridades. O grupo estava sempre se mantendo em confusão, porque estarem criando um teatro mais festivo e eles ainda não tinham preocupações em abordar temas políticos ou polêmicos. Muito pelo contrário, eles queriam apenas se divertir fazendo aquilo que eles gostavam. Por essa razão, eles criaram um Manifesto com dez mandamentos a serem respeitados e que serviriam de base para a ideologia dos seus participantes.

O filme dirigido por Achero Mañas comprova tudo o que está sendo mostrado a partir dos depoimentos daqueles que fizeram parte do grupo de teatro. Dessa maneira, eles relembram os espetáculos que fizeram, as vezes que foram presos e tiveram que prestar explicações à polícia sobre aquilo que estavam fazendo. E o começo para a dissipação do grupo “Noviembro” foi a partir do momento em que eles começaram a deixar de fazer um teatro mais festivo para, então, começar a abordar mais os temas políticos e atuais. A idéia de fazer estes espetáculos nas ruas foi exatamente a maneira que eles encontraram para chamar atenção do público, mas não apenas por isso.

O propósito de se fazer um teatro com pessoas sentadas e batendo palmas no final se caracterizava, segundo eles, uma reação esperada de um público que pagou o ingresso para assistir àquele espetáculo. Levando isso para as ruas, as chances de chegar a todas as classes sociais era muito grande. Mas eles acabaram caindo na própria armadilha, principalmente quando lançaram o espetáculo “Atentado”. O texto fora escrito por Alfredo e simulava ataque terroristas por alguns cantos da cidade de Madri. Foi exatamente em um momento em que a Espanha tinha fechado um acordo de paz com o ETA. Assim, “Atentado” marcou o fim da união que eles tinham antes. Os próprios integrantes, agora mais idosos, reconheceram irem longe demais e talvez este tenha sido o problema para o fracasso logo em seguida.

Entretanto, ninguém estava afim de desistir. Mas quando eles foram condenados por este espetáculo supracitado, o grupo se separou e todos tiveram que ficar quatro anos sem atuar. E foi aqui que Alfredo começou a “se vender”, como justifica o seu amigo Daniel, um dos fundados do grupo “Noviembro”. Um dos mandamentos do Manifesto que eles fizeram, dizia que eles não fariam teatro por dinheiro, que era não esta a idéia. No entanto, Alfredo se viu de mãos atadas e topo fazer um espetáculo para um produtor teatral, que resolveu se aproveitar do “sucesso” que foi “Atentado”. O grupo começou a enfrentar problemas de relacionamento e ideológicos entre si, mas eles ainda estavam dispostos a fazer um último espetáculo para transmitirem a mensagem que eles sempre quiseram.

Foi assim que o grupo “Noviembro” resolveu invandir o Teatro Real, um dos modernos e mais antigos teatros de Madrid. Alfredo aproveitou o momento para declamar o significado da verdadeira arte que é o teatro. Enquanto produtores estão preocupados com o dinheiro que está por trás, eis que ele ainda pode funcionar como uma resistência em relação àquilo que está errado – ou que eles consideram errado. A maneira trágica como termina o grupo (e o próprio filme) já estava sendo anunciada a partir dos depoimentos deles próprios. A morte de Alfredo naquele Teatro Real foi a prova do incômodo que eles causaram, mas sem terem a certeza de que foram ouvidos, ou se tudo isso fez sentido para alguém.


Cotação: ★★★★☆

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