Dirigido por Aaron Katz. Com: Erin Fisher, Cris Lankenau, Sarah Hellman, Joe Swanberg, Tucker Stone. (Quiet City, 2007)

O que é ser independente? O que um filme precisa para ser alternativo? Em tempos em que estão dando cada vez mais valor às produções independentes, tenho visto que existe, na verdade, uma deturpação do termo e dos predicativos que servem para consolidar um filme como alternativo ou não. Afinal de contas, ser alternativo não é apenas porque se trata de um tema diferente ou de uma maneira não muito comum. São termos que vão muito além disso. Na época em que Pequena Miss Sunshine foi lançado, se retomou muito essa discussão e ela ganhou força com o lançamento de Juno. Mas será mesmo que esses dois longas são independentes ou alternativos? A resposta: talvez sejam, mas não dentro do enquadramento que estou propondo.

Não estou implicando com estes dois filmes citados, mas sim com a forma com que eles são colocados pela mídia e pelas pessoas. A imprensa, em primeiro lugar, coloca ambos como alternativos levando em conta o baixo orçamento e por trazerem famílias disfuncionais, histórias diferentes do que se costuma fazer e outras caracterísitcas que não são comuns ao cinema hollywoodiano. Entretanto, é bom saber que a imprensa e as pessoas têm visto mais esses filmes ditos como independentes e é importante que eles estão chegando até o público. Ainda assim, essa forma de tratar certas produções como alternativas acaba menosprezando outras que estão no mercado e que não estão tendo o tratamento merecido, com exceção de alguns. Apenas uma Vez, por exemplo, que estreou recentemente nos cinemas brasileiros, pode ser considerado como uma exceção, porque foi super valorizado com o Oscar que recebeu e por trazer de uma forma fantástica para as pessoas o que realmente um filme precisa ter para que ele seja considerado como alternativo.

Além de Apenas uma Vez, uma outra produção que merece atenção é Cidade Tranqüila. Completamente filmado com uma câmera digital, o filme conta a história de Jamie (Erin Frisher) e Charlie (Cris Lankenau), pessoas que se conheceram por acaso. Primeiro, Jamie encontra o tal Charlie numa estação de metrô e o pergunta sobre um restaurante que ela precisava se encontrar com a sua amiga. Charlie, confuso, não consegue explicar direito a direção e resolve acompanhá-la para que ela não caminhasse sozinha nas ruas escuras de Nova York. Jamie tenta contactar a sua amiga Samantha pelo celular, sem sucesso. Os dois ficam, então, sentados no restaurante e começam a conversar sobre coisas completamente inusitadas, dessas que paramos para falar besteiras ou qualquer coisa que venha na mente. Jamie não consegue de maneira alguma entrar em contato com sua amiga e Charlie oferece o seu apartamento para que ela pudesse passar a noite e continuar as tentativas no dia seguinte.

A própria despretensão do filme é causada pela maneira com que ele foi filmado. Logo de início percebemos isso, quando a câmera persegue os dois andando pela estação, balançando constantemente. Em algumas cenas ainda se pode perceber o quanto ela fica desfocada e também por não existir uma técnica a ser imprimida. É como se o diretor Aaron Katz pegasse a câmera e estivesse afim apenas de registrar uma obra experimental, porque esse é o verdadeiro espírito do filme, tanto que em algumas cenas ele traz uma filmagem em um plano-aberto que valoriza a relação das duas pessoas que acabaram de se conhecer, mas que também mostra a sua posição de não interferir no relacionamento dos dois. E essa é a principal característica que o difere dos longas Antes do Pôr-do-Sol e Antes do Amanhecer, relembrando em alguns momentos o aclamado Encontros e Desencontros, principalmente pela exploração que ele usa no seu roteiro e não nas imagens filmadas, que acabam traduzindo um pouco do que é o título do filme, apesar de ser uma ilusão por ele se passar na cidade de Nova York, que de tranqüila não tem nada.

A diferença de Cidade Tranqüila para Antes do Pôr-do-Sol e Antes do Amanhecer está no tratamento dos seus personagens, principalmente. Nesses dois longas citados, as únicas pessoas que atuam é o casal que se encontram e que conversam durante horas, andando pela cidade, caminhando sem rumo. No caso do filme de Aaron Katz, existe uma relação com outros personagens, sejam os amigos de Charlie com que Jamie se relaciona, ou até mesmo o contrário. Isso é importante porque a própria obra não se torna cansativa, se transformando em algo muito mais dinâmico e real, apesar da idéia de encontrar alguém em uma estação de metrô e isso se transformar em uma amizade ser uma das coisas mais difíceis de se acontecer.

Além disso, o mais engraçado é como ele consegue transmitir essa tranqüilidade e talvez Nova York não seja essa cidade que todos nós vemos em filmes ou quando passa nos telejornais: de carros buzinando e pessoas andando depressa. Talvez seja em uma determinada área da cidade, enquanto que do outro lado ela tenha mesmo essa paz, essa quietude profunda e dominante. A falta de uma trilha sonora para embalar a narrativa também é proposital como uma forma de expressar esse silêncio com mais evidência, contando apenas com as vozes dos seus personagens e o som ambiente, obviamente. O plano-detalhe é uma outra técnica também muito utilizada, quando ele foca a sua câmera digital na maneira com que os seus personagens usam as mãos para se expressar. Além disso, a todo instante ele transfere a sua lente para sinais de trânsito e esse é um dos momentos não muito claro da maneira com que conduz o seu filme. Em um outro instante, ele consegue colocar toda uma avenida em um plano aberto e já fica mais evidente a mensagem que ele queria passar das ruas desertas e em como os sinais são sincronizados para fecharem no mesmo momento.

O jeito simples com que Aaron Katz termina a sua obra é incrível, completamente apaixonante. Cidade Tranqüila passa longe de ser um romance. Na verdade, ele não possui gênero algum. Ele apenas conta uma história, que qualquer pessoa pode se identificar ou não, que alguns podem gostar e outros podem odiar, podem achar cansativa e se incomodar com a maneira com que foi filmado. Ele também não tem essa sensibilidade em agradar a todos. Apesar de eu ter, particularmente, certa objeção com tudo que é gravado com câmeras digitais, e mais ainda com celulares, o longa-metragem de Aaron Katz tem um encantamento diferente de alguns que eu já vi e que usaram essa mesma técnica. A forma com que os atores atuam, sempre dispostos de maneira natural, também contribui para que tudo soe o mais realista possível. Cidade Tranqüila resgata, assim como Apenas uma Vez, o espírito de um filme independente.