
Dirigido por Mariano Cohn e Gastón Duprat. Com: Rafael Spregelburd, Daniel Aráoz e Eugenia Alonso. (El Hombre de al Lado, 2009).
O francês Le Corbusier foi um importante arquiteto do século XX. Viajou o mundo e esteve em várias cidades construindo casas bastante modernas para o tempo em que viveu. Em uma dessas suas viagens, ele passou pela América do Sul. Chegou a visitar o Rio de Janeiro, mas foi na Argentina que deixou a sua marca com a construção de uma casa na cidade de La Plata, que é uma região próxima à capital Buenos Aires. É exatamente nela que se passa a história do filme “O Homem ao Lado”, escrito por Andrés Duprat e dirigido por Mariano Cohn e Gastón Duprat.
A história é bastante simples. Leonardo (Rafael Spregelburd) é um importante designer que mora nesta casa construída por Le Corbusier. A sua vida muda completamente quando o seu vizinho, Victor (Daniel Aráoz) decide abrir uma janela que dá para a sala da casa de Leonardo. A partir disso, tudo muda completamente.
Leonardo é uma pessoa que vive personificada pela aparência. Tem o carro do ano e projeta objetos de vanguarda para combinar perfeitamente com a casa modernista em que mora. Uma residência que, por sinal, se apresenta de maneira confusa na tela, dando uma impressão de inacabada em alguns momentos. Por outro lado, neste drama entre vizinhos em que cada um deseja se resguardar e preservar a sua vida, o surgimento de Victor na vida de Leonardo é o estopim para que uma série de coisas comecem a ficar bagunçadas.
Talvez se não fosse pela janela que acaba invadindo a privacidade de Leonardo, nem ele mesmo conseguisse observar o quanto vive afastado da sua família. A sua mulher, interpretada aqui p0r Eugenia Alonso, é chata e manipuladora. Tudo o que ela mais quer é ter a certeza de que Leonardo vai resolver aquele problema. E ela conta com isso. Já a filha do casal pouco se expressa em forma de diálogos. Sempre com um fone de ouvido, ela mal dá atenção para o pai – ou até mesmo para a mãe – vivendo ali no seu próprio mundo sem se preocupar com o que acontece à sua volta.
Acostumado a manter a sua vida em ordem, Victor conturba Leonardo e isso é mostrado em algumas passagens rápidas no filme como, por exemplo, quando ele esquece de entregar um design e passa a ter problemas no trabalho; ou quando ele não consegue se concentrar em seus desenhos e desconta em sua mulher, que leva a culpa injustamente; e, ainda, na sua falta de paciência ao receber outros alunos e curiosos na casa onde mora por ela ter sido construída por um importante arquiteto francês.
A trama simples narrada pelo roteiro de Andrés Duprat ganha em certa complexidade a partir do momento em que Victor e Leonardo passam a trocar ideias para se chegar em um consenso e resolver aquele problema. A cena em que Victor, por exemplo, explica que abriu a janela porque queria um “poquito de sol” é extremamente bem-humorada, assim como outras passagens. E é neste humor-negro que o filme argentino acaba se enveredando por uma outra via, quando Leonardo passa a desconfiar de Victor e questionar a sua própria segurança.
E para retratar isso, a direção da dupla Mariano Cohn e Gastón Duprat é eficiente. Para representar a solidão de Leonardo, ambos filmam o personagem com grande isolamento, sempre sozinho. É assim na cena em que ele está fazendo comida na cozinha, ou quando está dentro do carro e, principalmente, quando se encontra com Victor. Tanto a direção quanto o roteiro do filme estimulam o espectador a gostar muito mais da simpatia de Victor do que, obviamente, da solidão e do tédio de Leonardo.
Um outro exemplo do afastamento entre os dois personagens é que a dupla de diretores os filmam de maneiras diferentes: para filmar Victor, por exemplo, a câmera se posiciona no ombro de Leonardo e sempre com plano mais fechado. Já no caso do outro personagem, ela por diversas o esconde da tela, isto é, não o revelando para o espectador que ele está ali em cena – o que é interessante, porque a câmera acaba se posicionando com um plano aberto e, por isso, dá mais importância ao conturbado cenário da casa. Sem contar que Cohn e Duprat nunca filmam a janela aberta para a casa de Leonardo do ângulo de Victor, mas sim, do enquadramento oposto os colocando separados por aquele pequeno limite que existe entre os dois.
Se o roteiro sugere que o espectador se identifique muito mais com a simpatia de Victor, isso é essencial para entender a desconfiança e também as ações cometidas por Leonardo ao longo da história. “O Homem ao Lado” se encaixa no perfil de uma comédia de humor-negro no qual o centro são dois vizinhos e os dramas que eles vivem para superarem as suas diferenças. Parece até um filme dos irmãos Coen – guardadas as suas devidas proporções. Um dos maiores problemas de “O Homem ao Lado” está, muitas vezes, na contemplação de algumas cenas o que torna a narrativa bastante lenta. Por outro lado, tem uma estética interessante que se mostra à serviço da história.
Le Corbusier nunca foi a favor das cidades e se mostrou, muitas vezes, contra o urbanismo. Talvez este medo tenha apavorado Leonardo, cujo medo o levou ao desespero.
[rating: 3/5]
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