Hart of Dixie; Boss; Revenge; Terra Nova; The Ringer

Já estamos em agosto e a época de estreias das novas séries já está chegando. Os próximos dois meses são de muita intensidade na televisão americana. Além dos programas novos, os seriados antigos também retornam com novas temporadas. É também uma época de muitas apostas em relação aos novos programas. Quais serão aqueles que ganharão temporadas completas? Quais serão logo cancelados e descartados pelo público? Será que as expectativas em relação a determinadas programas se concretizarão?

Desde maio, quando as emissoras começaram a divulgar os shows cancelados e os que iriam estrear, alguns já começaram a despontar por diversas razões. Terra Nova, por exemplo, ganhou a expectativa do público por ser uma produção de Steven Spielberg, por estar sendo considerada “a nova Lost” e, além disso, por conta do seu orçamento que é bastante elevado para os padrões da televisão americana.

Nesta primeira parte do especial, apresento cinco séries que merecem uma atenção especial por parte do público. São elas que darei uma chance quando a fall season começar. Na semana que vem, mais cinco séries farão parte deste especial, que é uma maneira de já começar a se preparar para o que vem por aí. E esperamos que esta seja uma temporada de boas estreias, porque nos últimos anos temos tido mais cancelamentos do que programas renovados. Confiram abaixo o especial:

Série: Hart of Dixie
Emissora: CW
Estreia: 26/09/2011
Elenco: Rachel Bilson, Wilson Bethel, Jaime King,  Scott Potter e Cress Williams.
Produtores: Josh Schwartz, Leila Gerstein,  Stephanie Savage e Len Goldstein.

Este é o elenco de "Hart of Dixie", nova série da emissora CW

A nova série da CW, Hart of Dixie, traz de volta a atriz Rachel Bilson (a Summer de The O.C) ao mundo dos seriados. Ela andou fazendo uma participação aqui e ali, mas nesta nova série ela será a protagonista. A história gira em torno de Zoe Hart, uma jovem médica novaiorquina que perde a oportunidade de ser promovida em um importante hospital de Manhattan. Ao ver seu noivo trocá-la pela sua melhor amiga, Zoe decide se mudar para uma cidade localizada no Alabama, onde um amigo seu lhe ofereceu um emprego.

O problema é que quando ela chega na cidade, Zoe descobre que o seu amigo morreu. Ainda assim, ela resolve se estabelecer porque não tem nenhum outro lugar pra ir. No entanto, além de enfrentar os problemas da mudança e de ter que se adaptar à nova cidade e começar uma nova vida, ela ainda terá que enfrentar a oposição do único médico na cidade, Brick Breeland, que não aceita a sua presença.

No elenco, além de Rachel Bilson, estão os atores Scott Potter e Cress Williams (ambos da série Friday Night Lights), Wilson Bethel (Generation Kill) e Jaime King (My Generation).

Por ser uma série do canal CW, e criada por Josh Schwartz, é bem possível que o programa adote o tom teen da emissora – que também se desprende deste gênero ao exibir Supernatural, The Vampire Diaries e a nova The Secret Circle (que escreverei sobre em um outro moemnto). Mesmo assim, Hart of Dixie conta com o carisma de Rachel Bilson para conquistar o seu público.

Além disso, a série marca mais uma vez a parceria do criador de The O.C com a produtora e roteirista Stephanie Savage, que também trabalha com ele em Gossip Girl, outra série do canal CW. Confira abaixo o trailer:

Série: Boss
Emissora: Starz
Estreia: 21/10/2012
Elenco: Kelsey Grammer, Jeff Hephner, Hannah Ware, Thomas Kosik e Jennifer Mudge.
Produtores: Peter Giuliano, Richard Levine, Farhad Safine, Brian Sher e Stella Stolper.

Kelsen Grammer é o BOSS

BOSS não é uma série que faz parte de um canal muito conhecido por nós lá dos Estados Unidos, mas começou a chamar atenção desde o início. Isso porque trazia de volta à televisão o ator Kelsey Grammer, que ficou conhecido ao estrelar “Cheers” (1982) e “Frasier” (1993). Ele já tentou voltar antes, mas fracassou com as séries Back to You e Hank.

Neste seu novo retorno, ele interpreta o seu primeiro papel dramático dando vida ao impiedoso prefeito de Chicago, Tom Kane, que descobre sofrer de uma doença degenerativa. Com o primeiro episódio dirigido pelo experiente e premiado diretor Gus Van Sant (Milk), Tom está no centro do poder político da cidade e faz o melhor governo que este povo já viu. No entanto, ele já não pode mais confiar em sua condição mental, ou nos seus aliados e muito menos em si mesmo.

Tom Kane lembra bastante o personagem Denny Crane (William Shatner) da série Boston Legal. Um advogado condecorado, fundador da Crane, Poole & Schmidt e um dos mais respeitados da cidade, mas que começa a sofrer com o Mal de Alzheimer e, com isso, passa a duvidar da sua própria capacidade de continuar advogando. Ele encontra forças no amigo Alan Shore (personagem que rendeu um Emmy para James Spader), inseparável companheiro que promete cuidar do amigo quando a sua mente resolver lhe abandonar.

Segundo o que foi divulgado pelos roteiristas à imprensa, a história de BOSS é baseada em “Rei Lear”, de William Shakespeare.  Como em outras peças teatrais do escritor britânico, nesta história a tragicidade está mais uma vez no centro quando o Rei enlouquece após ser traído por duas de suas três filhas ao tentar dividir o Reino entre elas. O cômico desta história é que o Rei Lear expulsa do seu reino a filha que fez o discurso mais sincero, dizendo que o amava com o respeito e a obrigação que uma filha precisa ter em relação ao seu pai. As outras duas filhas, que disseram tanto que o amava, traíram o Rei e o fizeram enlouquecer.

BOSS foi aprovada pelo canal Starz sem passar sequer pelo episódio piloto. A primeira temporada terá oito episódios, já encomendados pela emissora. Confira o trailer abaixo:

Série: Revenge
Emissora: ABC
Estreia: 21/09/2011
Elenco: Emily VanCamp, Gabriel Mann, Ashley Madekwe, Madeleine Stowe, Henry Czerny e Joshua Bowman.
Produtores: Mike Kelley e Phillip Noyce.

Elenco de "Revange", a nova série da ABC

Revenge é a nova série da ABC que traz a atriz Emily VanCamp (Brothers and Sisters e Everwood) como protagonista. A história gira em torno de Amanda (VanCamp), que adota Emily como o seu novo nome ao se mudar para os Hamptons (o balneário da elite americana) e começar a sua vingança. Ela teve uma infância conturbada e viu a sua família ser destruída quando eles moravam nos Hamptons. Passados quinze anos, e após ser entregue  a uma casa de adoção, Amanda esconde a sua verdadeira identidade e volta a conviver no meio daquelas mesmas pessoas que orquestraram a prisão do seu pai.

Seu objetivo é se vingar dos Graysons, responsáveis por terem acabado com a vida do pai dela. Para conseguir tal feito, ela conta com a ajuda de dois amigos. É claro que toda esta adaptação em “O Conde de MonteCristo” não vai fazer muito efeito porque, por se tratar de um programa “serializado”, muitas mudanças na história serão feitas ao longo dos episódios.

Além disso, a ABC Studios sempre tem uma maneira muito peculiar de tratar os seus seriados. Não iria me surpreender se, no início, Revenge  se trate também de montar um perfil dos moradores de Hamptons – assim como o passado obscuro e sombrio que eles preservam. É como o canal faz com a série “Desperate Housewives”, ou também de como fazia com “Brothers and Sisters”: estudos das famílias norte-americanas. Confira o trailer:

 Série: Terra Nova
Emissora: Fox
Estreia: 05/10/2010
Elenco: Jason O’ Mara, Steve Lang, Christine Adams, Jason Chong, Shelley Conn e Naomi Scott.
Produtores: Steven Spielberg, Craig Silverstein e Kelly Marcel.

Elenco de "Terra Nova", aposta da FOX para a fall season deste ano

Desde que o projeto foi apresentado, Terra Nova se tornou uma ambição do canal Fox. E como poderia ser diferente? A série traz o produtor Steven Spielberg que, por se tratar de uma obra jurássica que o remete aos filmes da franquia “Jurassic Park”, já pode atrair os olhares do público e também da crítica. Outro ponto interessante que desperta curiosidade em assistir Terra Nova é que a série tem um custo de mais de US$ 10 milhões (e isso só para o primeiro episódio).

Já chamada de “a nova Lost”, o seriado conta a aventura de um grupo que viaja no tempo e volta à pré-história com o objetivo de começar uma civilização. Com o primeiro episódio dirigido por Alex Graves (das séries Fringe, The West Wing, entre outras), o diretor e os produtores já disseram que não pretendem inventar uma trama complexa, mas sim, apostar nos efeitos especiais, no carisma dos personagens e nas suas aventuras entre reptéis gigantes e florestas visalmente exuberantes.

Centrada na sobrevivência dos personagens em um ambiente ameaçador, Terra Nova se concentra em uma família do ano 2149 que volta 85 milhões de anos para tentar salvar a humanidade (e, assim, salvar a si mesmos). A primeira temporada contará com treze episódios, o que mostra que a série não pretende utilizar a fórmula de outras séries com muitos capítulos em cada temporada. E isso é bom, uma vez que dará mais objetividade à história.

Terra Nova levou dois anos em desenvolvimento. O ator Stephen Lang (do filme Avatar), que interpreta o Comandante Nathaniel Taylor, chegou a dizer que “podemos ver a série como um alerta ecológico”. E na mistura de Avatar, Lost e Jurassic Park, Terra Nova tentará achar o seu lugar sem perder a intenção de ser um programa de puro entretenimento. Confira o trailer:

Série: Ringer
Emissora: CW
Estreia: 13/10/2011
Elenco: Sarah Michelle Gellar, Jaime Murray, Nestor Carbonell, Ioan Gruffudd, Kristoffer Polaha, Tara Summers, Mike Colter.
Produtores: Eric C. Charmello, Sarah Michelle Gellar, Nicole Snyder, Peter Traugott e Pam Veasey.

Sarah Michelle Gellar retorna ao mundo das séries com "Ringer"

Ringer, a nova série do canal CW, marca o retorno de Sarah Michelle Gellar (Buffy – A Caça Vampiros) ao mundo televisivo norte-americano. Por trás da sua exibição tem uma história bastante curiosa. Ringer veio, digamos, do “lixão” da emissora CBS, que abortaram a produção do projeto. Eis então que os produtores do canal CW resolveram apostar na série e encomendaram, além do “Piloto”, novos episódios para a primeira temporada.

Aliás, Ringer não é só a aposta do canal CW para esta fall season, mas também do novo presidente da emissora, Mark Pedowitz. Ele entrou no lugar de Dawn Ostroff, que esteve à frente da emissora desde a fusão entre a WB e a UPN, que se transformaram em CW. Pedowitz com certeza está tentando mudar o perfil do canal e, para isso, confia em Ringer para atrair um novo tipo de público.

A história gira em torno de Bridget Cafferty (Gellar) que, ao presenciar um assassinato dentro do clube onde trabalhava como stripper passa a ser a testemunha-chave do caso e, por isso, a máfia a persegue. Para fugir, ela utiliza a identidade da sua irmã gêmea, que tem uma vida bem diferente e mora nos Hamptons. No entanto, durante a noite a irmã gêmea de Bridget desaparece misteriosamente, o que a leva a assumir a sua identidade. Mas logo ela vai descobrir que a vida da sua irmã não era nada perfeita.

O “Piloto” de Ringer foi escrito pela dupla Eric C. Charmello e Nicole Snyder. Ambos trabalharam juntos em Supernatural, outra série do canal CW. Confira o trailer abaixo:


O historiador, crítico e ex-Editor-Chefe da revista Cahiers du Cinéma, Antoine De Baecque, esteve em Salvador nesta semana para participar do CineFuturo – que é o Seminário Internacional de Cinema e Audiovisual. Durante o evento, ele participou de um debate em torno do filme “Godard, Truffaut e a Nouvelle Vague”, cujo roteiro é de sua autoria, e também falou sobre o seu livro “Cinefilia” (Cosac Naify, 469 págs), apresentando o seu método de composição e de estudo para formular a tese em torno deste termo. Biógrafo de Godard e Truffaut, talvez os dois maiores cineastas e mais representativos da Nouvelle Vague, De Baecque também participou de um Bate-Papo sobre a Nouvelle Vague no Teatro Eva Herz, da Livraria Cultura.

Durante o diálogo, o historiador falou bastante sobre o seu livro e explicou que, naquela época da década de 50, as pessoas exerciam com mais afinco a ‘cinefilia’. O termo é usado para a definição de cineclubes, a formação da cinemateca francesa, o ritual que muitos usavam quando iam ao cinema e por aí vai. Em seu livro, ele fala desse amor pelo cinema e a expressão artística que os jovens franceses encontravam nele, utilizando-o como uma forma de se expressarem. Para estes jovens, que depois poderiam se tornar cineastas, críticos ou nenhum dos dois, o cinema significava a vida.

Um dos motivos para que a ‘cinefilia’ não seja mais praticada hoje é exatamente por conta da modernidade encontrava na internet. Não existem mais cineclubes como os de antigamente, pois as pessoas hoje baixam os filmes em casa e assistam ali mesmo. O ritual de ir ao cinema também não é mais praticado porque os grandes complexos cinematográficos abrigam um público com uma formação bastante diferente daquela que se via quando a Nouvelle Vague começou.

Porém, um dos momentos mais interessantes do bate-papo com Antoine De Baecque foi quando ele citou a relação de Alfred Hitchcock com François Truffaut. Hitchcock nunca foi visto como um grande cineasta para a crítica americana, que dizia que ele fazia um cinema voltado para o povo – apesar disso, eles reconheciam o quanto ele era técnico. E isso explica o porquê de Hitchcock nunca ter vencido o Oscar. No entanto, a Nouvelle Vague exaltava o chamado “cinema de autor” e isso explica a paixão destes jovens, não somente por Hitchcock, mas também por Robert Wise, Howard Hanks, dentre outros. Estes diretores ganharam muita fama porque se encaixavam na “teoria do autor”, que era uma das prerrogativas para o movimento da Nouvelle Vague.

No documentário “Godard, Truffaut e a Nouvelle Vague”, esta relação é aprofundada. No livro “Cinefilia”, De Baecque também reserva um longo capítulo para tratar desta relação que, além disso, também narra a conturbada amizade entre Truffaut e Godard. Ambos foram os grandes nomes do movimento, mas Godard rompeu completamente com o seu amigo em 1968 para se entregar aos movimentos políticos da época. E tudo isso foi bastante discutido durante o debate, em que Antoine De Baecque contou o porquê desta ruptura.

Perguntei a ele, quando as perguntas foram abertas ao público, sobre os novos cineastas franceses como os Irmãos Dardenne e o diretor Christophe Honoré. Minha questão era sobre a possibilidade deles tentarem recriar a Nouvelle Vague na contemporaneidade em que vivemos. De Baecque respondeu dizendo que ele enxerga muito disso em Honoré, que trabalhou com ele na revista Cahiers du Cinéma. E isso acontece porque Honoré se incorporou mais deste movimento ao fazer filmes como “Canções de Amor”, “A Bela Junie” e “Em Paris”. No caso dos Irmãos Dardenne, existe uma ruptura com qualquer característica da Nouvelle Vague pois eles tentam criar um cinema próprio – mais ou menos como o Godard fez quando rompeu com Truffaut.

Foi um interessante bate-papo – como sempre o é ao falar sobre a Nouvelle Vague.

Antoine De Baecque é o palestrante do bate-papo sobre a Nouvelle Vague

Nos tempos da década de 50, quando os franceses fundaram o movimento da Nouvelle Vague e com ele o lançamento da revista “Cahiers du Cinéma”, críticos como François Truffaut, Jean-Luc Godard, Eric Rohmer e Jacques Rivette se reuniram em torno do estudioso e teórico André Bazin para começarem a definir o que seria este movimento que marcou uma geração de cineastas. Foram estas mesmas pessoas que descobriram diretores como Robert Wise e Alfred Hitchcock, por exemplo. Abandonados pela cultura norte-americana, eles foram cultuados por estes estudiosos que apresentaram ao mundo os seus filmes.

O historiador francês Antoine De Baecque está em Salvador nesta semana para, além de participar do debate em torno do documentário “Godard, Truffaut e a Nouvelle Vague”, também vai lançar o seu novo livro “Cinefilia”. No filme citado anteriormente, cujo roteiro é assinado por ele, o marco inicial para se falar da Nouvelle Vague parte de “Os Incompreendidos”,  do plano-sequência inicial com Antoine Doinel na praia.

Biógrafo dos dois cineastas mais importantes da Nouvelle Vague (Truffaut e Godard), De Baecque vai de encontro aos que entendem que o movimento começou com o lançamento do filme de Claude Chabrol no final da década de 50. Este blogueiro, aliás, compartilha deste mesmo pensamento. “Os Incompreendidos” é uma obra de maior impacto e representatividade, sendo o ponto-de-partida de toda esta história.

Se o documentário escrito por De Baecque já se caracteriza como um belo exercício crítico, além de ser construído a partir de imagens belíssimas dos dois cineastas, o livro que o historiador francês escreveu, “Cinefilia”, como ele próprio diz, fala mais de amor, das rivalidades e dos combates entre os grupos dominantes da época. A ‘cinefilia’, segundo o historiador, é o que podemos fazer diariamente ao conversar sobre qualquer filme. A relação dela com a crítica se dá de uma forma ainda mais vital para funcionamento de uma em função da outra.

Cena do filme "Os Incompreendidos", de François Truffaut

Godard certa vez disse: “nós colocamos Hitchcock no seu lugar dentro da história da arte…”. A cinefilia, então, está muito além de ser um ritual para assistir um filme na sala de cinema, ou de ter um lugar certo, ou pela ausência de luz, etc.  Para De Baecque, foi a cinefilia que conseguiu legitimar o cinema como uma arte do século 20, sendo a câmera o instrumento para construir uma representação do mundo – seja de forma estética, íntima, realista, política, ideológica ou histórica.

Assim como o roteiro escrito por ele para o documentário “Godard, Truffaut e a Nouvelle Vague” busca o sentimentalismo desde o início ao mostrar a cena inicial do filme “Os Incompreendidos”, o seu livro também segue por este caminho ao trazer ideias românticas à moda da Nouvelle Vague.

Serviço:
Um bate-papo sobre a Nouvelle Vague
Data e Hora: Sexta-feira, 29 de julho, às 15h
Local: Teatro Eva Herz (Livraria Cultura do Salvador Shopping)
Palestrante: Antoine de Baecque
Capacidade: 204 lugares


Dirigido por Mariano Cohn e Gastón Duprat. Com: Rafael Spregelburd, Daniel Aráoz e Eugenia Alonso. (El Hombre de al Lado, 2009).

O francês Le Corbusier foi um importante arquiteto do século XX. Viajou o mundo e esteve em várias cidades construindo casas bastante modernas para o tempo em que viveu. Em uma dessas suas viagens, ele passou pela América do Sul. Chegou a visitar o Rio de Janeiro, mas foi na Argentina que deixou a sua marca com a construção de uma casa na cidade de La Plata, que é uma região próxima à capital Buenos Aires. É exatamente nela que se passa a história do filme “O Homem ao Lado”, escrito por Andrés Duprat e dirigido por Mariano Cohn e Gastón Duprat.

A história é bastante simples. Leonardo (Rafael Spregelburd) é um importante designer que mora nesta casa construída por Le Corbusier. A sua vida muda completamente quando o seu vizinho, Victor (Daniel Aráoz) decide abrir uma janela que dá para a sala da casa de Leonardo. A partir disso, tudo muda completamente.

Leonardo é uma pessoa que vive personificada pela aparência. Tem o carro do ano e projeta objetos de vanguarda para combinar perfeitamente com a casa modernista em que mora. Uma residência que, por sinal, se apresenta de maneira confusa na tela, dando uma impressão de inacabada em alguns momentos. Por outro lado, neste drama entre vizinhos em que cada um deseja se resguardar e preservar a sua vida, o surgimento de Victor na vida de Leonardo é o estopim para que uma série de coisas comecem a ficar bagunçadas.

Talvez se não fosse pela janela que acaba invadindo a privacidade de Leonardo, nem ele mesmo conseguisse observar o quanto vive afastado da sua família. A sua mulher, interpretada aqui p0r Eugenia Alonso, é chata e manipuladora. Tudo o que ela mais quer é ter a certeza de que Leonardo vai resolver aquele problema. E ela conta com isso. Já a filha do casal pouco se expressa em forma de diálogos. Sempre com um fone de ouvido, ela mal dá atenção para o pai – ou até mesmo para a mãe – vivendo ali no seu próprio mundo sem se preocupar com o que acontece à sua volta.

Acostumado a manter a sua vida em ordem, Victor conturba Leonardo e isso é mostrado em algumas passagens rápidas no filme como, por exemplo, quando ele esquece de entregar um design e passa a ter problemas no trabalho; ou quando ele não consegue se concentrar em seus desenhos e desconta em sua mulher, que leva a culpa injustamente; e, ainda, na sua falta de paciência ao receber outros alunos e curiosos na casa onde mora por ela ter sido construída por um importante arquiteto francês.

A trama simples narrada pelo roteiro de Andrés Duprat ganha em certa complexidade a partir do momento em que Victor e Leonardo passam a trocar ideias para se chegar em um consenso e resolver aquele problema. A cena em que Victor, por exemplo, explica que abriu a janela porque queria um “poquito de sol” é extremamente bem-humorada, assim como outras passagens. E é neste humor-negro que o filme argentino acaba se enveredando por uma outra via, quando Leonardo passa a desconfiar de Victor e questionar a sua própria segurança.

E para retratar isso, a direção da dupla Mariano Cohn e Gastón Duprat é eficiente. Para representar a solidão de Leonardo, ambos filmam o personagem com grande isolamento, sempre sozinho. É assim na cena em que ele está fazendo comida na cozinha, ou quando está dentro do carro e, principalmente, quando se encontra com Victor. Tanto a direção quanto o roteiro do filme estimulam o espectador a gostar muito mais da simpatia de Victor do que, obviamente, da solidão e do tédio de Leonardo.

Um outro exemplo do afastamento entre os dois personagens é que a dupla de diretores os filmam de maneiras diferentes: para filmar Victor, por exemplo, a câmera se posiciona no ombro de Leonardo e sempre com plano mais fechado. Já no caso do outro personagem, ela por diversas o esconde da tela, isto é, não o revelando para o espectador que ele está ali em cena – o que é interessante, porque a câmera acaba se posicionando com um plano aberto e, por isso, dá mais importância ao conturbado cenário da casa. Sem contar que Cohn e Duprat nunca filmam a janela aberta para a casa de Leonardo do ângulo de Victor, mas sim, do enquadramento oposto os colocando separados por aquele pequeno limite que existe entre os dois.

Se o roteiro sugere que o espectador se identifique muito mais com a simpatia de Victor, isso é essencial para entender a desconfiança e também as ações cometidas por Leonardo ao longo da história. “O Homem ao Lado” se encaixa no perfil de uma comédia de humor-negro no qual o centro são dois vizinhos e os dramas que eles vivem para superarem as suas diferenças. Parece até um filme dos irmãos Coen – guardadas as suas devidas proporções. Um dos maiores problemas de “O Homem ao Lado” está, muitas vezes, na contemplação de algumas cenas o que torna a narrativa bastante lenta. Por outro lado, tem uma estética interessante que se mostra à serviço da história.

Le Corbusier nunca foi a favor das cidades e se mostrou, muitas vezes, contra o urbanismo. Talvez este medo tenha apavorado Leonardo, cujo medo o levou ao desespero.

[rating: 3/5]

Até o momento, a HBO exibiu quatro episódios de “True Blood”. Ainda é pouco, considerando que muita coisa poderá acontecer e a série não chegou nem sequer na metade desta sua quarta temporada.  Mesmo que alguns estejam duvidando da qualidade dos episódios até o momento – eu sou um deles – não tem como deixar de notar o quanto a história amadureceu. Ainda não havia escrito uma linha sequer sobre este quarto ano (muito por conta do meu computador, que esteve quebrado nas últimas semanas), mas estou realmente ansioso pelo que está por vir.

E digo isso porque, em primeiro plano, temos agora o envolvimento da “magia negra” na história. E isso já despertou preocupação em Bill Compton, o recém-nomeado Rei da Louisiana. E não poderia ser diferente. Se os vampiros conseguiram eliminar a preocupação que tinham quanto ao fato de terem que se alimentar de humanos, o surgimento do Tru Blood os ajudou neste quesito. Mas a magia negra representa uma outra preocupação porque ela tem a capacidade de controlá-los. E nenhum vampiro deseja ser controlado por alguma bruxa, não é mesmo?

Os episódios estão realmente lentos e não têm mostrado muita evolução, mas quem vem se destacando é o ator Alexander Skaarsgard. O intérprete de Eric Northman tentou cumprir a missão de Bill quanto ao fato de estarem praticando magia negra na região, mas o feitiço acabou fazendo com que ele se esquecesse quem ele realmente é. Eric sabe que é um vampiro mas, como todo lacaio, ainda não consegue entender o que é isso. Tem sido interessante e divertido acompanhar os desdobramentos desta história, principalmente pelo envolvimento de outros personagens (não pretendo soltar spoilers).

Por outro lado, “True Blood” também tem conseguido aproveitar o “show” televisivo provocado pelo vampiro Russell Edgington na última temporada. Os humanos reinvidicam e protestam a decisão de terem que conviver na mesma sociedade que os vampiros. E isso é óbvio. Afinal de contas, eles estão com medo e apavorados pelo descontrole provocado por um vampiro. Na realidade, os humanos talvez nunca quisessem que isto acontecesse. Quem deseja conviver com criaturas tão sombrias e famintas?

Mas não podemos nos esquecer da personagem principal desta história, isto é, o fio condutor de todas as tramas que são abordadas pela série. Ao entrar naquele mundo espiritual ao final do terceiro ano, Sookie achou que tinha passado apenas um dia na convivência de outros seres que são como ela (ao que parece, eles também estão em conflito). No entanto, no plano real, se passou um ano e todos de Bon Temps pensavam que ela estava morta – o que resulta nas mudanças bruscas e drásticas na cidade e na vida de alguns personagens.

Poucos episódios e, por conseguinte, pouca coisa foi mostrada. Mas ainda tenho boas expectativas de que “True Blood” possa realizar uma boa quarta temporada. A série está recheada de sub-tramas (como a trama de Jason Stackhouse e também os aprendizados de Jessica, agora que está vivendo com Hoyt, além destes três pretendentes que Sookie tem). Quatro episódios exibidos e, por enquanto, é esperar para saber o que Alan Ball está reservando para esta temporada.

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