
Dirigido por Jim Sheridan. Com: Tobey Maguire, Jake Gylenhaal, Natalie Portman, Bailee Madison, Taylor Geare, Sam Shepard e Mare Winningham. (Brothers, 2009).
O diretor Jim Sheridan sempre se consolidou ao retratar em seus filmes os problemas familiares enfrentados pelos seus personagens. Além disso, ele tem por característica mostrar a superação destas dificuldades apresentadas. Foi assim em Meu Pé Esquerdo, quando vemos a incrível história de Christy Brown (interpretado por Daniel Day-Lewis, lhe rendendo uma estatueta de Melhor Ator em 1990) ou, ainda, no longa-metragem Em Nome do Pai em que, mais uma vez, Jim Sheridan coloca a família na frente de tudo aquilo que está sendo contado, mostrando a real importância e os verdadeiros valores familiares que eles seguem. Em Entre Irmãos, mais uma vez esta temática fica clara ao retratar a família Cahill, que enfrenta diversos problemas ao longo da sua jornada.
Sam (Maguire) é o Capitão de uma tropa Marine e que está prestes a voltar para lutar no Afeganistão. Enquanto isso, o seu irmão Tommy (Gylenhaal) acabou de sair da prisão e vai tentar reconquistar a confiança da sua família novamente. O pai de ambos, Hank (Shepard, de Falcão Negro em Perigo), que também é do Exército, tem o seu filho favorito e isso sempre gerou uma incrível confusão na família. No meio de toda esta trama, está Grace (Portman), esposa de Sam, e as suas duas filhas Isabelle (Madison) e Maggie (Geare). E toda a história começa de verdade quando Sam volta para o Afeganistão, dando espaço para que o seu irmão pudesse se aproximar da sua família. O maior erro de Entre Irmãos já começa exatamente neste momento. Falta naturalidade na atuação de Gylenhaal, uma vez que fica nitído a maneira como ele já estava esperando se aproximar das filhas do seu irmão e, principalmente, da sua mulher. As coisas ficam ainda mais claras quando Sam é dado como morto na guerra, mudando completamente a vida da família Cahill durante meses até que ele finalmente aparece vivo.
Por algum período, Jim Sheridan tenta consolidar o seu filme entre duas narrativas: aquela que se passa no Afeganistão, mostrando Sam se tornando um refém do regime talibã, e também a vida que Grace vai levando com as suas filhas (sempre na companhia de Tommy). Neste aspecto, a montagem acaba errando em não conseguir encontrar sustentação naquilo que está sendo contado. Tudo vira uma série de repetições de grande parte do que já foi dito. Mesmo quando Sam retorna ao seu lar, era esperado que ele se tornasse uma pessoa mais violenta e diferente. A guerra o transformou, como já foi mostrado em outros filmes do gênero. A Volta dos Bravos, por exemplo, se preocupou em apenas relatar como estes conflitos conseguem mudar para sempre a vida dos soldados americanos, não mais conseguindo ser aqueles seres humanos de antes. Entre Irmãos chega a ter um pouco deste filme citado, principalmente pela forma irreconhecível e a falta de paciência que Sam começa a ter depois de ter sobrevivido ao Afeganistão (além de estar impregnado na sua mente o que ele precisou fazer para tal coisa).
Entretanto, o que Entre Irmãos tem de melhor não está nos seus personagens centrais (ou que, pelo menos, deveriam ser o centro da trama). As filhas de Grace começam a roubar a cena com o tempo. Jim Sheridan mostra, mesmo que por muito pouco tempo, o olhar delas sobre tudo isso que está acontecendo, seja pela guerra, seja pela volta do pai, seja pela aproximação entre Grace e Tommy. Elas não são meras coadjuvantes das histórias. Na realidade, elas se tornam parte integrante daquilo que está sendo mostrado na tela. Uma trama parecida com a de Terra de Sonhos, outro filme do Jim Sheridan, que ele também se utiliza dos dramas de uma família que havia ido tentar a sorte na vida na cidade de Nova York vindos da Irlanda, para mostrar a maneira como eles conseguiram se adaptar ao lugar em meio às dificuldades de recomeçar uma vida. É exatamente o que acontece quando Sam volta, o recomeço (ou a tentativa) para reconstruir os laços familiares que haviam sido esquecidos com a sua morte, e também com o fato de se acostumar a este fato.
A trilha de Thomas Newman se encarrega de chamar atenção para os fatos dramáticos, mas pouco consegue se sobressair. Se utilizando muito mais de canções parecidas com aquelas que vemos na série americana Friday Night Lights, Newman faz o que pode para prender a atenção do seu espectador. Mesmo assim, quem se destaca é Tobey Maguire, que tem uma atuação marcante no filme. Nas principais cenas em que ele deixa transparecer o ódio que ele trouxe do Afeganistão, é possível perceber a sua capacidade de entrega a um personagem que não demonstra complexidades. Este talvez é o maior erro de Entre Irmãos. Por mais que ele tente se consolidar o quão trágica a guerra pode ser e a maneira como ela transforma o ser humano, o roteiro de David Benioff pouco se esforça para tornar a sua trama complexa, o que considero um erro dada as circunstância e as tramas que o filme procura abordar.
Por fim, Entre Irmãos é uma mistura de tudo aquilo que já foi visto em outros filmes (e até mesmo em algumas séries de televisão). A relação da mulher com o fato de ver o marido partindo para o combate, por exemplo, virou tema de programas como Army Wives e The Unit, ambas que se preocuparam em mostrar o lado feminino de uma questão difícil. Este está longe de ser aquele Jim Sheridan que consegue se impôr com a sua câmera em contemplar momentos de intensa dramaticidade. Pelo contrário, aqui o seu filme resulta em uma equação que não possui sentimentos, se prendendo a mostrar o convencional. O final é um exemplo claro disso, deixando o espectador com o questionamento na cabeça de que poderia ser melhor, de que algo mais poderia ser feito. Entre Irmãos representa mais um olhar sobre as consequências psicológicas que as gueras têm deixado nos soldados americanos. Mas por que não, então, acabar com elas? Segundo Obama, porque elas são um mal necessário. A cada dia, então, famílias daqueles que estão no Exército terão que conviver com estes problemas.
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