Dirigido por Julian Schnabel. Com: Mathieu Amalric, Emmanuelle Seigner, Marie-Josée Croze, Max von Sydow. (Le Scaphandre et le Papillon, 2007)

É impossível não se sentir chocado ao término de O Escafandro e a Borboleta, filme dirigido pelo artista plástico norte-americano Julian Schnabel. A incursão proposta por ele nos remete a um estado de pura agonia, não pela possível identificação com o personagem principal, mas pelo sentimento de impotência que ele acaba causando ao transportar o seu espectador para uma cama de hospital e para uma vida que estaria começando de novo e que não seria mais a mesma.

Jean-Dominique Bauby (Mathieu Amalric) é um renomado jornalista e editor da revista Elle. Segue uma vida normal, de um pai divorciado que está sempre dando atenção aos seus filhos e também de um filho atencioso com o seu pai, que encontra-se em enfermo até por conta dos seus 92 anos. Porém, Jean-Do acaba sofrendo de um AVC e todo aquele mundo que ele vivia desmorona e a sua casa passa a ser um hospital, ou melhor, a sua cama de hospital. O derrame acabou deixando seqüelas absurdas no seu corpo, fazendo com que ele perdesse todos os movimentos do seu corpo. A única exceção é o seu olho esquerdo, que ele acaba utilizando para se comunicar com as pessoas e para enxergar o novo mundo que se formou para ele.

Na primeira metade do filme, a narrativa utilizada do roteiro de Julian Schnabel baseado no livro de mesmo nome, é feita completamente em primeira pessoa. Dessa forma, a lente do seu diretor são os olhos de Bauby e é por eles que somos guiados. O olho esquerdo de Jean-Dominique é a maneira como ele encara o mundo e acaba sendo também a nossa maneira de ver o que ele está vendo. E assim surge a perfeita combinação entre os elementos do cinema e as funcionalidades estéticas que envolvem as artes plásticas. A direção de Schnabel é competente neste aspecto, porque ele traduz todos os movimentos oculares do seu personagem por meio da sua câmera. Assim sabemos para onde ele está olhando, a maneira de se comunicar com o piscar dos olhos e até mesmo quando ele se teletransporta para o irreal, imaginando como deveria ser a sua vida, vivendo a base de um sonho que não se consumiu e que, agora, ficará apenas na sua imaginação e na sua vontade.

Quando Jean-Do é perguntado sobre o que ele queria, ele não pensou duas vezes e disse: “morrer”. E esse parece ser a primeira coisa que vem a cabeça de uma pessoa que se encontra em um estado como este. E é uma história que lembra muito a de Christy Brown, contada no filme Meu Pé Esquerdo. O mais interessante é que ambos os personagens conseguem achar uma maneira possível para viverem e para contar a sua história de vida. Christy Brown, por exemplo, se envolvia com a pintura e escreveu até uma biografia apenas com o seu pé esquerdo. Jean-Dominique também escreveu um livro sobre o tempo em que ele passou no hospital sobre os passeios da sua imaginação. É daí também que vem o título da obra. “Escafandro” seria o lugar onde ele permaneceu preso, sendo uma metáfora para a sua cama no hospital. “Borboleta” vem da possibilidade de poder sair em peregrinação, de não se importar com nada e de apenas imaginar aquilo que quisesse.

E Julian Schnabel se mostrou um diretor extremamente ousado e provocativo, principalmente na primeira parte da sua obra, que é quando a sua câmera se torna os olhos de Jean-Dominique. Os muitos flashes brancos, o uso estético das artes plásticas só ajudaram a causar a estesia de solidão e a conviver com o isolamento do seu persongem. A Síndrome de Encarceramento, seqüela deixada pelo AVC, possibilita apenas a Jean-Dominique ouvir o que as pessoas falam, mas sem conseguir expressar nenhum tipo de reação. É comovente quando se chega no Dia dos Pais e os seus filhos o visitam no Hospital e ele sem poder abraçar as suas crianças e ainda vendo o seu filho mais velho limpar uma baba que havia saído da sua boca. E a única coisa que ele poderia fazer era continuar sentado na sua cadeira-de-rodas e guardar aquele momento para jamais esquecer depois.

Mesmo na primeira parte, quando o filme é narrado em primeira pessoa, nos deparamos com a personalidade de Jean-Do, que se mostra uma pessoa sarcástica e irônica, mesmo se encontrando em um estado tão grave. E também nos momentos entre ele e o seu pai, ou ainda quando este barbeia o seu velho para que ele se sentisse revigorado, o filme chega à sua segunda parte que é feita em terceira pessoa, agora com a câmera de Julian Schnabel em harmonia com os quadros cinematográficos e não com as estesias do seu personagem. Não existe, portanto, um sentimento de pena no filme. Talvez os espectadores possam se sentir isso, mas não é esta a proposta da obra. Schnabel propõe aquilo que estava incomodando Jean-Do, que eram os arrependimentos por ele não ter aproveitado os momentos felizes que teve, ou os possíveis amores e as chances que ele não aproveitou e que foram dadas.

Porém, O Escafandro e a Borboleta vai muito mais longe que apenas falar de arrependimentos. Seria muito comum fazer um filme tão profundo como este e definí-lo de uma maneira tão simplória. O filme, na verdade, nos faz pensar sobre as fragilidades do corpo humano e sobre aquilo que nós imaginamos, até onde é sonho e realidade dentro dos nossos próprios conceitos. Indicado em quatro categorias no Oscar e vencedor do prêmio de direção em Cannes, O Escafandro e a Borboleta é uma incursão pela vida de um ser humano que tentou encontrar forças para superar a fisioterapia, as aulas de fonoaudiologia e a impotência de não poder ser mais um pai, um marido ou um filho. Com uma direção ousado e competente de Julian Schnabel, é impossível não se sentir como parte daquilo sofrido por Jean-Dominique, sejam as suas frustrações, os seus arrependimentos e as viagens por dentro da sua imaginação.