Dirigido por Darreen Aronofsky. Com: Mickey Rourke, Marisa Tomei e Evan Rachel Wood. (The Wrestler, 2009)

O Lutador marca o retorno de Darreen Aronofsky à direção de um longa-metragem, já que desde Requiem Para um Sonho ele andava sumido. Mais importante que isso, é a volta de Mickey Rourke interpretando um personagem que não poderia lhe cair melhor, já que tanto ele quanto Randy “Ram”, são pessoas que viveram no limite, que fracassaram e se reergueram. Este é, pra mim, o maior mérito do filme. Muitos diálogos parecem que foram feitos para a carreira conturbada que Mickey Rourke teve, como uma espécie de ligação (ou ele) entre o personagem e o ator.

Randy (Rourke) é um lutador de luta-livre que já teve os seus dias de glória nos anos 80. Vinte anos se passaram, mas ele não conseguiu se desvencilhar daquilo que ele sabe fazer de melhor que é lutar, sentir a pressão do público e dos seus companheiros de combate. E Randy, vivendo no limite da sobrevivência, abusa excessivamente do uso de drogas para continuar na sua melhor forma. Com o tempo, o seu corpo foi se desgastando e lhe obrigando a usar doses cada vez mais pesadas. Essa sua força de vontade resultou em um colapso e os problemas cardíacos já era um anúncio que ele teria que abandonar os ringues e toda aquela energia que ele tanto sentia quando estava ali.

O mais importante em O Lutador é que vemos com é o mundo destes lutadores. Logo na primeira luta, o espectador percebe que eles combinam os seus movimentos para que nenhum saia totalmente machucado, ou para que não haja injustiça na luta. É interessante observar que, por trás de toda aquela guerra, eles se tratam como uma verdadeira família e o filme sabe explorar isso, sabe explorar o sentimento de respeito que cada lutador possui com o seu próximo, ou melhor, com o seu rival. Mas, na verdade, é como se não existisse tal rivalidade. Tudo faz parte do show que é feito apenas para o público se divertir.

Se temos um exemplo dos lutadores vivendo no limite, Aronofsky explora,a partir de Cassidy (Tomei) um outro mundo: clubes de stripper. Perceba como os dois personagens, Randy e Cassidy, possuem um elo muito grande dentro do roteiro. Ambos estão tentando sobreviver. Cassidy, já velha mas tendo que cuidar do seu filho de 9 anos, ganha a vida entregando o seu corpo para qualquer pessoa, enquanto que Randy, longe da sua filha Stephanie (Wood), tenta viver a sua vida conforme aquilo que ele gosta de fazer. E por isso, é claro, que “Ram” e Cassidy se gostam bastante e se enxergam como duas pessoas que sobrevivem a uma realidade miserável e injusta. E não tem como julgar o trabalho de Cassidy, ela apenas está fazendo algo que é necessário para si mas, principalmente, para o seu filho.

E mesmo quando Randy, depois de ter tido o ataque cardíaco e declarado a sua aposentadoria provisória, tenta se aproximar de Stephanie, ele percebe o quanto foi ausente. Mesmo assim, ele ainda luta para recuperar a confiança da filha e aé pensamos que, por um momento, ele conseguiria. No entanto, logo em seguida vemos que Randy é o tipíco cara que consegue estragar tudo que de bom poderia acontecer na sua vida. A oportumidade que ele tinha de estar próximo à sua filha novamente ele, simplesmente, joga em alguns copos de whisky. E a intensidade da cena em que Stephanie diz que não quer mais vê-lo é um exemplo claro da sua ingenuidade em tentar se aproximar do pai, que logo a comprova de que isso seria impossível.

Vivendo de alguns trabalhos aqui e ali, Randy não consegue se desvencilhar dos ringues. E, por isso, mesmo sabendo que correria risco de morrer, ele aceita o convite de reviver um dos clássicos dos anos 80. Era a oportunidade de lutar novamente, nem que fosse pela última vez. No entanto, o que acabou me chamando a atenção foi o díálogo final entre ele e Cassidy, quando “Ram” justifica a sua volta por ele acreditar “que o mundo não estaria dando a mínima pra ele”. Eu acredito que este é o mesmo sentimento do Mickey Rourke quando este abandonou a carreira, retomando agora com este excelente filme e, principalmente, com uma atuação primorosa, por mais que ele esteja interpretando um personagem tão próximo da sua realidade.

O Lutador emociona em grandes momentos, principalmente pela trilha sonora dos anos 80 que toma conta do filme. Mais do que isso, acredito que este é um longa-metragem sobre superação, força de vontade e sobrevivência. Cada um faz o que é preciso para sobreviver a este mundo. Cada um faz o que é necessário para continuar vivendo. Por mais que eu tente julgar Cassidy, e até mesmo o egoísmo de Randy, é impossível não entender as suas ações desesperadas que, aparentemente, não possuem um determinado objetivo mas, por outro lado, representam um grande significado nas suas vidas. Porque cada um também precisa morrer sem arrependimentos por algo que não teve a oportunidade de fazer.

Cotação: ★★★★½