Longe Dela
Cinema, Críticas 10 de julho de 2008Dirigido por Sarah Polley. Com: Julie Christie, Gordon Pinsent, Stacey LaBerge, Olympia Dukakis, Deanna Dezmari. (Away From Her, 2006)
Como deve ser imaginar a pessoa que você ama morrendo aos poucos? Mas também como será que deve ser para alguém ter que tomar uma decisão de se internar em um abrigo ao perceber que a sua mente já não funciona mais? Imaginar o que é pior em uma dessas ocasiões seria até mesmo um erro e falar sobre isso sem ter nenhuma experiência, seria um outro erro muito grave. Longe Dela conta a história de Grant (Gordon Pinsent) e Fiona Anderson (Julie Christie, atriz indicado ao prêmio do Oscar 2008 na categoria de Melhor Atriz), tomando decisões complicadas em suas vidas e entendendo que a vida é uma caixinha de surpresas e que não temos o controle sobre ela.
Fiona está com o Mal de Alzheimer e aos poucos vai perdendo a sua consciência, não se lembrando mais de absolutamente nada. A própria doença, por ser degenerativa, vai aos poucos se manifestando até chegar em um estado em que a mente da pessoa parece parar no tempo. Percebendo o seu estado, Fiona decide juntamente com o seu marido Grant, se internar em um asilo. Grant já não tinha muitas escolhas e teria que acatar o pedido da sua mulher, casados há quarenta anos. Grant vai percebendo a degradação de Fiona e em como ela vai se esquecendo das coisas, até dele mesmo. Mesmo assim, o amor que ele sente por ela é muito maior do que o Alzheimer sofrido por sua mulher.
Deve ser terrível sentir a sua memória apagar. O Mal de Alzheimer, para mim, é uma das piores doenças. Digo isso porque é como se você não tivesse vivido, como se tudo aquilo que aconteceu no passado, não acontecesse. As lembranças, os momentos felizes e tristes, os amores, enfim, uma série de coisas que vivemos enquanto estamos crescendo e mesmo depois de velhos, ficam guardados em nossa memória. Pelo menos, deveriam ficar. O Mal de Alzheimer quebra tudo isso, dissipa tudo aquilo que já viveu, se remetendo apenas para o que acontece no presente. Não sei como o paciente vai se sentindo ao perceber que isso está acontecendo, mas também deve ser terrível para quem vê de fora. Neste caso, imagina como Grant não estava se sentindo, vendo toda as memórias da sua mulher sendo apagadas por uma doença, vendo o amor sentido pelos dois simplesmente desaparecendo, de uma hora para outra?
E vai acontecendo exatamente isso. Conforme o tempo passa, Fiona não se recordava de mais nada. A única coisa que ela não conseguia esquecer, era a amizade que ela fez no asilo com Aubrey. Os dois estavam vivendo momentos felizes e se apaixonaram. Grant ainda tentou ter a sua mulher de volta, mas ele foi percebendo que não adiantava mais ficar incomodando-a com o passado. Ela merecia um pouco de espaço. Apesar daquilo corroer o seu coração, ele sabia que o amor que ambos viveram no passado era mais importante do que aqueles breves momentos que Fiona estava tendo. E o filme trata do tema com seriedade, mas de uma maneira muito real. Grant também estava dando a chance de conhecer novas pessoas e foi assim que surgiu uma aproximação dele com Marian (Olympia Dukakis), esposa de Aubrey.
A montagem circular imposto pelo roteiro de Sarah Polley é uma peça-chave para se compreender os fatos. O filme se utiliza de alguns flashbacks, assim como de outras cenas que não possuem os seus arcos fechados no primeiro instante, mas logo depois tudo é perfeitamente encaixado, se transformando em uma obra sensível e cativante. Não apenas a história cativa o espectador, mas a interpretação de Julie Christie é marcante e impressiona, assim como a simples direção de Sarah Polley, que cria quadros simples que dão o toque de simplicidade que a sua obra tem. Dessa forma, a trilha idealizada por Jonathan Goldsmith segue nesse mesmo embalo, mantendo o tom dramático e poético das cenas.
Enquanto o filme se passava, mais eu me lembrava do Diário de uma Paixão. Isso porque eu me remetia à cena final, em que o casal morre juntos e abraçados, como uma espécie de que o amor entre eles ainda estaria forte mesmo depois da morte. E o momento que fecha Longe Dela tem características parecidas, porque os dois ainda deixavam transparecer o amor que sentiam, mesmo ela não lembrando das coisas que viveram juntos. Longe Dela é uma das obras mais sinceras envolvendo o Mal de Alzheimer. Porém, remando contra a doença, é um filme que nunca deve ser esquecido.











10 de julho de 2008 as 18:28
Vinícius, concordo quando você diz que o Mal de Alzheimer é uma das piores doenças. Perder a consciência, o senso de quem você é deve ser terrivel!
Apesar de compreender o paralelo que você faz entre “Longe Dela” e “Diário de uma Paixão”, acho que os dois filmes são bem diferentes, já que “Longe Dela” fala mais sobre a jornada do personagem do Gordon Pinsent para aprender a conviver sem a sua esposa. A jornada é de aceitação dele sobre esse caminho. Ao contrário do que acontece com o personagem de James Garner, em “Diário”, que não aceita viver longe da esposa e nem cogita, na realidade, essa possibilidade.
10 de julho de 2008 as 19:59
Exato, Kamila. E o paralelo que tentei traçar é mais pela cena final, não pelo filme em si, já que ambos são bem diferentes, até mesmo no quesito de narrativa. Mas a última cena deixa claro que ambos clamam pelo amor, mas são realmente obras bem diferentes como você mesma pontuou.
14 de julho de 2008 as 12:01
Vinícius, sou um dos fãs de “Longe Dela”. Convivo com o mal de alzheimer, então sei como são todos aqueles dramas representados na atuação do Gordon Pinsent. A Julia Christie está excelente, mas ela é apenas um dos ótimos pontos do filme. A Sarah Polley começou sua carreira como diretora com o pé direito =)