Dirigido por Nora Ephron. Com: Merly Streep, Amy Adams, Stanley Tucci, Chris Messina, Linda Emond e Mary Lynn Rajskub. (Julie & Julia, 2009).

Ao sair da sessão de Julie e Julia, fiquei com vontade de comer todas aquelas receitas que foram preparadas Julia Child (Streep) e executadas por Julie Powell (Adams). Mas é claro que o filme, dirigido e adaptado por Nora Ephron com base nos projetos lançados por ambas, tem o intuito de mostrar a trajetória de cada uma para cumprir as suas metas.

Julie, por exemplo, é uma funcionária do governo que atende as vítimas do 11 de setembro e se vê frustrada por ter largado os seus projetos de se tornar uma escritora. Tentando estabelecer algo de interessante e novo em sua vida, ela lança um blog no qual pretende relatar o cotidiano de uma mulher que pretende preparar todas as 524 receitas presentes no livro de Julia. Paralelamente a isso, Nora Ephron volta o seu olhar para o final da década de 40, quando Julia Child chega à Paris e, encantada com o lugar, decide aprender mais sobre a culinária local.

Com isso, Julie e Julia se parece muito com o filme As Horas. No longa, Stephen Daldry intercala três épocas: 1921, 1941 e 2001. Três histórias vivenciadas em três lugares diferentes e contadas a partir de apenas um ponto em comum: a influência de uma obra literária. Apesar de Nora Ephron ter tentando criar algo similiar, a sua equipe não consegue criar a mesma naturalidade com que As Horas fora concebido. No filme de Daldry, fica claro que o tempo é um elemento que representa uma importância muito grande para a estória, principalmente pelo cuidado com a fotografia nas diferentes épocas em que ele se passa. Julie e Julia não tem essa preocupação. Nitidamente, poucos são os valores estéticos que o filme consegue alcançar.

Se por esse lado Julie e Julia não consegue ser eficiente, ele se segura mesmo na atuação de Meryl Streep e na trajetória que ela tem em Paris com o seu marido, que é um representante da embaixada americana no país. Antes de vermos ela fazendo aulas de culinária e se empenhando em construir um livro de receitas sobre a comida francesa para donas-de-casa americanas, percebemos que ela tenta fazer diversos cursos enquanto o seu marido trabalha. E a relação entre os dois é algo que se torna muito bonito e apaixonante de se ver. A maneira como eles são cúmplices de um amor incondicional e o jeito pelo qual ambos se sustentam um no outro, mesmo em tempos difíceis.

Querendo ou não, esta mesma situação acontece com Julie. Cada vez mais empenhada em cumprir as suas metas (principalmente porque ela  nunca conseguiu terminar um projeto antes), ela passa a ter cada vez menos para o seu casamento. Em uma das cenas em que ela surta por não ter conseguido fazer uma das receitas, a discussão com o seu marido também gera mais um problema na sua vida. Os dois se separam, mas logo voltam a ficar juntos. O mais importante é que Nora Ephron tenta mesmo criar um paralelo entre as duas melhores, mostrando a personalidade de cada uma e a maneira como elas, de alguma forma, se completam.

A maior característica de Julie e Julia é pela leveza da sua estória. Mas isso não é o suficiente para que ele se torna um bom filme. Na metade pro final, a obra perde um pouco de força. A partir desse instante também, vemos Powell questionando a “perfeição idealizada” que ela tinha de Julia. E isso passa a acontecer quando ela supostamente recebe algumas críticas da própria por ter criado o blog. De qualquer maneira, Julie continua achando que a sua “amiga” Julia é uma pessoa perfeita, que sempre esteve presente para o seu marido e que sempre soube buscar a felicidade nas pequenas coisas que fazia, não desistindo nunca dos seus sonhos e enfrentando os desafios que a vida lhe obrigava a passar. E isso é uma realidade porque acontece quando temos alguma pessoa como fã, sempre imaginando que este alguém é um ser superior a todos os outros que existem.

Eu estava entusiasmado pela trilha musical de Alexandre Desplat, que já havia desempenhado um bom trabalho em O Curioso Caso de Benjamin Button e também no recente Coco antes de Chanel. Mas neste filme, a sua música não consegue acompanhar a estória. A sua trilha pouco consegue nos fazer admirar os sons que são emitidos. Mas, mesmo assim, Julie e Julia vale por ter mais uma atuação impecável de Meryl Streep. É impressionante a maneira como ela consegue encarnar personagens diferentes a cada filme. Andando de maneira atrapalhada, respiração ofegante e sempre aparentando uma felicidade no olhar e na voz contagiantes, a atriz segura o filme do início ao fim.

E mesmo com os erros, Julie e Julia é um filme adorável. Com algumas cenas realmente engraçadas, a combinação entre as duas mulheres surge de maneira engraçada em algumas cenas e dramática em outras. Apesar da rapidez com a qual Nora Ephron passa por cenas importantes (como o interrogatório pelo qual o marido de Julia passa nos Estados Unidos), o filme é delicioso (literalmente).

Cotação: ★★★☆☆