Dirigido por Clint Eastwood. Com: Clint Eastwood, Christopher Carley, Bee Vang, Ahney Her, Brian Haley e Geraldine Hughes. (idem, 2009)

Depois de quatro anos sem atuar em nenhum filme (o último foi Menina de Ouro, que lhe rendeu uma indicação ao Oscar), Clint Eastwood está de volta como ator e também diretor, obviamente. Dessa vez, ele interpreta Walt Kowaski, um velho rabugento e um americano altamente conservador. A primeira sequência do longa-metragem cria um panorama do seu personagem. Na missa de enterro da sua mulher, já começamos a perceber o tipo de pessoa que ele é: primeiro, ele não dá muita importância aos seus dois filhos; segundo, ele é o único americano ainda remanescente em um bairro que foi tomado pelas gangues e invadido por coreanos. O seu patriotismo, logo expresso na bandeira norte-americana hasteada na frente da sua casa, está na coleção de medalhas que ganhou enquanto serviu o exército e também no invidualismo que ele tem consigo.

Por mais que ele seja um velho, Walt não tolera que ninguém o ajude ou muito menos ser incomodado pela vizinhaça. Na garagem, ele detém um sonho de consumo de todo o bairro: um Gran Torino 1972, que ele próprio ajudou a construir quando trabalhou na Ford. E é engraçado notar a aversão que ele tem com as pessoas, mas também pelo consumismo dela. Um dos filhos é um vendedor de carros japoneses e ele nunca entendeu como um americano pode se tornar uma pessoa que vende carros de uma outra marca. Tudo isso faz parte do seu conservadorismo, do seu patriotismo e dessa sua maneira em lidar sozinho com as coisas, até mesmo com a morte da própria mulher, sendo ela a única pessoa que ele amou e deu importância na vida. Além de ter lutado na guerra contra a Coréia, Walt não compreende (e nem tem vontade de compreender) os costumes e as tradições dos seus vizinhos coreanos.

Mas sempre existe alguma coisa para mudar alguém de opinião. E eu acredito que é nesta obviedade que o filme acaba pecando. Walt conhece um garoto chamado Thao (Vang) e, logo na primeira cena, sabemos que eles se tornarão pessoas próximas e Walt será o seu mentor. Não é tão difícil de perceber isso. A situação fica ainda mais clara quando, um dos primos de Thao, força-o a roubar o Gran Torino de Walt. Eis que o garoto tenta, mas dá “de cara” com um velho raivoso e pronto para defender a sua jóia rara. É apenas o começo de uma breve “amizade”, que começa a partir de um encontro casual entre Walt e Sue – irmã de Thao e que estava sendo atacada por outros marginais -, fazendo com que eles se tornassem pessoas próximas, a ponto de Walt ir em um churrasco na casa de Sue algo que, em outra época, ele com certeza não faria e ficaria apenas da varanda da sua casa resmugando sobre toda aquela gente.

Entretanto, Gran Torino não se trata basicamente do amor que Walt tem pelo o seu carro. O desejo do padre Janovich (Carley), por exemplo, em cumprir o desejo da esposa de Walt em fazê-lo confessar os seus pecados, se torna, talvez, a história mais interessante dentro do filme, haja vista que Walt, mesmo nunca tendo se confessado e de não ser ligado à Igreja ou a nenhuma religião, vive chamando o nome de “Jesus Cristo” para certas barbaridades que acontece. O que vira quase um “bordão” no filme, mesmo ele não tendo Fé. E podemos comparar esta sua jornada com a de Daniel Plainview, no filme Sangue Negro. Apesar das histórias se passarem em épocas diferentes, vale ressaltar que tanto Plainview quanto Kowalski, são dois americanos patriotas, que não desistem e, acima de tudo, são individualistas.

Apesar do filme ter esta aceitação por parte de Walt em se tornar uma pessoa sociável – principalmente a partir do momento em que Thao começa a trabalhar para ele, por motivos que não ficam explícitos no filme – não consigo entender a maneira rápida com que ele conseguiu se adequar a tudo isso. No mesmo momento em que ele odiava todos aqueles costumes, ele passou a entender que aquele família de “Hmongs” (como são chamados) tinham muito mais a ver com a sua vida do que a sua própria família. E ele realmente encontrava paz estando naquele círculo social, uma vez que tudo muda a partir do momento em que a gangue do primo de Thao, deixa Sue gravemente ferida e se faz iniciar uma guerra pessoal com Walt.

A batalha, aqui, era apenas uma questão de tempo. O velho não deixava passar nada e estava sempre se metendo em confusões. Com toda aquela autocofiança de ter servido o Exército Americano, ele não tinha medo de apontar o seu rifle e fazer ameaças. Para acabar com a Guerra – e cansado também de perceber que a única maneira de trazer paz para o bairro era acabar com as gangues – Walt se sacrifica em prol da sobrevivência das pessoas que ele, no início, detestava. Quando ele começa a rezar as ave-marias que foram pedidas na confissão no momento da sua entrega na batalha, o filme atinge o seu clímax e cria um quadro emocionante, principalmente pela aceitação de Walt e pela conduta dele para acabar com o conflito.

Mesmo assim, o que mais acho interessante em Gran Torino é a atuação e o vigor físico de Clint Eastwood. Ele está excelente no papel de Walt, com ótimas tiradas e um “humor” afiado, cheio de ironia e sarcasmo. O que rende boas risadas durante a projeção, com os seus burburinhos ao não aprovar uma coisa, ou a sua “cara-fechada” para menosprezar outra. Talvez não seja um filme excepcional, mas Gran Torino é uma obra que tem muitos elementos que a tornam agradável de assistir. E isso, às vezes, é o bastante para que o espectador possa gostar do filme, quando se tem uma narrativa mais equilibrada e inteligente e, ao mesmo tempo, agradável.

Cotação: ★★★½☆