Foi Apenas um Sonho
Cinema, Críticas 30 de janeiro de 2009
Dirigido por Sam Mendes. Com: Kate Winslet, Leonardo Dicaprio, Michael Shannon, Kathy Bates, Richard Easton, David Harbour e Kathryn Hahn. (Revolutionary Road, 2008)
Os primeiros dez minutos de Foi Apenas um Sonho são muito bem construídos. Em pouco tempo o roteiro de Justin Haythe, baseado no romance de Richard Yates, nos apresenta o casal Frank e April Wheeler, a maneira como se conheceram e os problemas no relacionamento. E, para mim, este foi o único mérito do filme de Sam Mendes, uma vez que ele trata de um tema muito comum e com pouco brilhantismo, apesar das boas atuações da dupla Dicaprio e Winslet.
Frank (Dicaprio) e April (Winslet) formam um casal apaixonado, mas também bastante conturbado. É ele quem trabalha para sustentar a sua família, uma característica típica dos anos 50, época em que se passa o filme. Além dos problemas comuns que qualquer casal sofre, eles ainda precisam lidar com as desilusões dos seus respectivos empregos. April sempre sonhou ser atriz, mas nunca conseguiu emplacar na carreira. Não se sabe exatamente quem ela culpa, mas fica claro que o seu romance com Frank e os dois filhos que tiveram não ajudaram muito. Enquanto que ele também trabalha em um emprego que detesta, na mesma empresa que o seu pai trabalhou um dia.
Como característica típica dos anos 50, a edição de Tariq Anwar também exerce uma função importante ao mostrar, nos primeiros minutos de projeção, a responsabilidade de cada um. Enquanto que April limpa a sua casa, faz a comida e toma conta dos filhos, Frank está tomando martini com a nova assistente e, logo em seguida, o vemos transando com ela. Querendo ou não, isso era algo bastante comum. A série Mad Men tem explorado bastante este aspecto com o Donald Draper, um publicitário que mantém outros relacionamentos fora do seu casamento. Ao contrário dele, Frank não faz o tipo galanteador e o pequeno caso com a secretária foi apenas momento, uma prova de que o casal já não se amavam mais e que estavam entrando na rotina.
Isso é uma coisa que me irrita profundamente. Sempre quando um casal termina, a primeira desculpa é que “foi a rotina”. Se todos sabem que ela existe porque se casam, então? Enfim, para fugir deste problema, April sugere que a família se mude para a Europa, mais precisamente para Paris. Os dois finalmente se acertam quanto à ideia e por isso o vemos em harmonia, como da época em que se conheceram. No entanto, a felicidade dura pouco. Logo quando Frank é submetido a uma promoção no trabalho que tanto detestava e também a gravidez de April, a decisão tomada é que eles continuem morando em Revolutionary Road, apesar de April não estar mais suportando o lugar.
Afinal, o bairro é cheio daqueles vizinhos insuportáveis e que sempre estão querendo se meter na sua vida. Veja o caso do casal Shep (Harbour), com quem April teria um caso, e Milly (Hahn) ou, ainda, a família Givings, totalmente disfuncional e com um filho (Shannon) retardado. Aparentemente, para mim, ele é o único sincero no filme. Porque, numa das discussões fevorosas da projeção, ele fala tudo aquilo que April e Frank estão vivendo, assim como o momento conturbado que estão passando. A sinceridade, na verdade, sempre foi algo que faltou no relacionamento dos dois. Eles não estavam confortáveis com a situação, mas nunca tinham coragem de expressar o que sentiam, apenas nas discussões que ficavam, ao término, naquele “eu te amo” e no “eu preciso de um pouco de espaço.”
Além disso, o roteiro também dá pouca importância para os filhos do casal o que, pra mim, é um erro terrível. Com todas aquelas discussões, tenho certeza que a trama poderia se tornar muito mais interessante se as crianças também pudessem adentrar ao drama vivido por eles. É uma pena que elas estão sempre na casa do vizinho, traduzindo isso em poucos momentos em que podemos observar a família toda reunida. Por mais que seja uma trajetória dos dois, se eles constituíram um seio familiar, seria muito mais agradável que os filhos pudessem ter uma presença maior. Mas, talvez, isto fosse uma característica da época.
A situação entre April e Frank piora ainda mais quando ela decide abortar o filho que estava esperando. Eu acho muito complicado julgar um personagem, mas foi uma atitude completamente mesquinha. Primeiro, que sou contra o aborto e talvez eu até seja a favor em determinada circunstância. Mas aqui ela apenas o fez por não conseguir amar mais o seu marido e, principalmente, por não estar suportando a si mesma, acredito eu. A trilha de Thomas Newman, apesar de não ser genial como a de Wall-e, desempenha um elemento muito importante nesta cena, tomada pelo silêncio e por notas altas no piano.
Aliás, este é o único momento em que se pode ver o brilhantismo de Newman, porque durante boa parte da projeção a trilha é bastante repetitiva quanto à sua sonoridade o que, decerto, não chega a ser um problema. Para mim, Foi Apenas um Sonho se torna inferior devido a uma limitação própria da história. Apesar de se passar na década de 50 e de se tornar bastante atual (claro, as causas dos términos e das brigas num relacionamento não mudaram), o filme falha ao tentar emocionar demais, principalmente pelos excessos das discussões que vemos ao longo dele.
Ainda assim, Kate Winslet e Leonardo Dicaprio mostram o entrosamento que já era esperado, principalmente agora que ambos se tornaram atores mais experientes. Com algumas cenas desnecessárias como, por exemplo, o momento em que Frank corre desesperado em um dos últimos atos do filme - comprovando esta necessidade de querer emocionar o público - Foi Apenas um Sonho se trata da trajetória de um casal que viveu as incertezas do relacionamento e os problemas que se acumularam com o tempo que estão juntos.


















31 de janeiro de 2009 as 2:34
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31 de janeiro de 2009 as 3:07
Concordo com muito do que li aqui. “Foi Apenas um Sonho” é o tipo de filme que você espera algo a mais justamente por ser de um diretor tão bom quanto o Mendes e ter uma equipe fantástica de atores e profissionais da técnica. Infelizmente pouca coisa realmente funciona, como foi muito bem explicado aqui. Abraço!
31 de janeiro de 2009 as 3:09
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31 de janeiro de 2009 as 10:38
Nossa Vinicius, pra um filme que está sendo tão elogiado você não gostou muito não hein…
Bom, eu não vi o filme mas pelo que tenho lido e pelo talento de Kate Winslet certamente ele é bom.
31 de janeiro de 2009 as 23:31
Então Vinícius, o filme para mim fica no meio termo, contrapondo um ótimo texto a situações repetitivas e DRs intermináveis e até infantis. A quíumica entre os protagonistas é ótima, com um louvável trabalho por parte de Kate Winslet, mas os dois momentos em que Michael Shannon aparece são excelentes. Devo escrever mais sobre o filme para o blog. Valeu!!!
1 de fevereiro de 2009 as 4:04
@Vinicius P.
Exatamente. Eu concordei bastante com a sua crítica, já que percebemos basicamente os mesmos pontos, inclusive o rating. Filme bem fraquinho, realmente.
@Lara Aurich
Pois é, mas não achei o filme tão ruim. Somente algumas coisas que me incomodaram mesmo, que acabei citando no texto. No mais, eu gostei bastante da atuação do Dicaprio e da Winslet, eles seguram mesmo o filme.
@Rafael Carvalho
E ai cara, tudo bom? A repetição até é mostrada pela própria trilha do Thomas Newman. Mas é como eu disse, o filme se segura na química do seu casal e não poderia ser diferente.
Abração!
4 de dezembro de 2009 as 20:14
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