» Sob a Minha Lente entrevista Luiz Filipe Rocha

O filme A Outra Margem, do diretor português Luiz Filipe Rocha, será um dos longa-metragens que serão exibidos nas noites do Seminário Internacional de Cinema de Salvador, que acontecem entre os dias 21 e 26 de Julho. Com uma temática polêmica ao contar a história de seres humanos que vivem em pólos opostos dentro da sociedade, Luiz Filipe explica, nessa entrevista, essas questões que ele propõe discutir com este filme assim como as suas influências, além de explicar a crise que o cinema português vem passando. No dia 24 de Julho, a partir das 15h, o diretor participará da mesa “Conversa com o Diretor” dentro da programação do SemCine, que tem o intuito de aproximar o público do realizador, além da oportunidade que este tem para divulgar o seu trabalho. A Outra Margem será exibido no dia 21 às 20h, na sala principal do Teatro Castro Alves.

Sob a Minha Lente: Quando estava conferindo a programação de filmes para o IV SEMCINE, confesso que logo me interessei pela temática do seu longa, “A Outra Margem”. É sempre difícil relacionar dois temas polêmicos, como a questão de um travesti que perdeu a vontade de viver confrontado com a alegria de viver de um adolecente com síndrome de down, em um único filme. Como você conseguiu moldar tudo isso e como surgiu a idéia de narrar uma história tão profunda como esta?

Luiz Filipe Rocha: A morte de um ser muito querido confronta-nos com uma perda irreparável e causa-nos um desgosto arrasador e depressivo. Perante o infortúnio, a tristeza e a dor, devemos teimar em procurar e reencontrar dentro de nós a alegria de viver. É essa busca e essa alegria que este filme também pretende cantar, porque só a alegria de viver nos permite ultrapassar a dor e aceitar a morte dos entes mais queridos. A história de “A Outra Margem” nasceu da vivência dessa dor e da busca dessa alegria.

SL: Como você vê a relação dessas pessoas que você explora no seu filme com a sociedade? Além disso, como você acha que a sociedade vê essas pessoas? Como você, particularmente, enxerga essas pessoas?

Luiz Filipe: Os meus filmes partem sempre de questões para as quais não encontro resposta clara, de interrogações e inquietações que, sendo pessoais e sinceras, me colocam perante mim próprio e perante os outros num processo de exposição humana de imperfeições e incertezas, de dúvidas e preconceitos. A Arte diferencia-se da Ideologia e da Religião por ser o território próprio da incerteza permanente, da dúvida irrespondível, do questionamento infindo. Faço minhas as palavras de Camus e tentei cumpri-las com humildade neste filme: “Sei-o, de ciência certa, que a obra de um homem não é outra coisa senão este longo caminhar para encontrar, através dos desvios da arte, as duas ou três imagens simples e grandes para as quais o coração, ao princípio, se abriu.” Quanto às Personagens do filme, à sua relação entre si, com a sociedade e comigo, não me compete a mim “analisar” o que quer que seja: eu fiz o filme, e tudo o que eu tinha e tenho para dizer sobre essas questões disse-o no próprio filme.

“Sinceridade, honestidade e mãos limpas são as virtudes que se exigem do artista. São essas tais virtudes que o público poderá encontrar neste meu filme”

SL: Como surgiu o interesse por parte do SEMCINE para que o seu longa pudesse ser exibido em um dos dias do evento e como você pensa que isso será importante para que a sua produção seja conhecida aqui no Brasil?

Luiz Filipe: A informação que tenho é que foi um membro do júri do Festival de Cinema de Guadalajara, onde o filme recebeu dois prémios - Prémio de Melhor Actriz e Prémio Especial do Júri -, que recomendou o filme ao SEMCINE. Espero que a passagem deste meu filme no SEMCINE facilite a sua divulgação no Brasil. E chame a atenção para o cinema português, que não é conhecido no vosso país.

SL: Aqui no Brasil se ouve falar pouco do Cinema Português. A indústria cinematográfica portuguesa começou nos anos 20, após a reestruturação da produtora Invicta Film. De lá pra cá penso, obviamente, que houveram muitas mudanças, visto que no início o Cinema Português se formou apenas na transposição de clássicos da literatura para as imagens em movimento. Como você vê, nos dias atuais, a indústria cinemtográfica de Portugal? O que você acha que mudou e o que precisa ser melhorado?

Luiz Filipe: O cinema português atravessa uma da suas piores crises de sempre, como atravessou recentemente o cinema brasileiro. Portugal é um pobre e pequeno país que faz figura de “rico” por se sentar à mesa com os “ricos”: a União Europeia. Infelizmente, e ao contrário do que acontece nesses países que partilham com Portugal a U.E., a Cultura não tem qualquer importância estratégica ou clientelar para os nossos governantes. Por outro lado, como não há procura culturalmente significativa num país iletrado e inculto como o meu, o mercado também não resolve com a iniciativa privada o bloqueio e o fundo desinteresse público. Só quando se entender que a Cultura é um sector decisivo para o futuro do país, para a sua vida social e econômica, é que se poderá fazer tudo o que tem de ser feito: aposta na Educação pela e com a Arte, aposta no Mercado Cultural com incentivos e apoios, etc.

SL: No seu longa, “A Outra Margem”, percebe-se que você utilizou uma linha com uma intensidade dramática necessária para criar uma história que se caracteriza pela sensibilidade, tanto dos seus personagens quanto da própria narrativa. Pensando nisso, quais foram as influências que você utilizou para contar essa história?

Luiz Filipe: Todos os autores, sem excepção, sofrem influências, conscientes ou inconscientes. E eu de certeza que também as recebi durante a feitura deste filme. Mas a verdade é que o seu processo criativo foi tão delicado, íntimo e absorvente que eu não sou capaz de procurar e identificar as minhas influências.

SL: Quando estava vendo o trailler do seu longa, a primeira coisa que me veio à cabeça foi a filosofia empregada na obra A Insustentável Leveza do Ser: “a busca pela felicidade” ou “a felicidade pela busca?” Você acredita que esta é a questão do ser humano, dessa busca incessante para ser feliz, dessa realização do devir?

Luiz Filipe: Como pessoa e como cineasta interessam-me mais as questões morais e éticas do que as filosóficas. Além de que conceitos como “feliz” e “felicidade” carecem hoje, como quase todo o idealismo filosófico, de revisão. O mundo em que vivemos permanece tão injusto e tão desigual que a busca da felicidade pode levar-nos a esquecer o Outro, o que socialmente é tão brutal como não aceitar e excluir o Outro. Sobretudo quando o Outro é Diferente.