Entrevista com Heitor Dhalia
Cinema 11 de janeiro de 2008O “Sob a Minha Lente” começa o ano com o pé direito e conseguiu uma entrevista com Heitor Dhalia, diretor e roteirista do filme “O Cheiro do Ralo”, o grande vencedor da 30ª Mostra de São Paulo. Nesse bate-papo, Dhalia fala um pouco do escasso orçamento para produzir o seu filme, do seu medo que sempre alcança quando está prestes a dirigir um filme e já adianta algo do seu novo projeto. Gostaria muito de agradecer ao Heitor, que cedeu parte do seu tempo para responder essas perguntas. E, além disso, ele estava em fase de pré-produção para o seu novo filme, intitulado “À Deriva”, o que mais uma vez mostra a grande pessoa que é, por ter encontrado tempo para conversar um pouco comigo. Muito obrigado, Heitor. Isso só aumenta o profundo carinho e respeito que tenho por você.
Heitor Dhalia: Tive dois grande desafios: o primeiro deles foi adpatar um livro de difícil transposição para a tela. O filme se passava basicamente numa locação. Como tornar isso interessante do ponto de vista cinematográfico? O segundo desafio foi a falta de recursos. O filme foi filmado sem o uso de leis de incentivos. Filmamos com 300 mil reais. Este foi o grande desafio.
SML: “Nina”, assim como “O Cheiro do Ralo”, são dois filmes aclamados pelos críticos e que ganharam muitos prêmios em festivais de cinema. Qual dos dois foi mais difícil de fazer?
Heitor Dhalia: Acho que o “Nina”. Era o primeiro filme. O primeiro sempre é mais difícil. Mas fazer cinema é sempre um desafio impossível. É sempre difícil, sempre acho que não vou conseguir.
SML: É a 2° vez que você trabalha com Selton Mello. O ator já era nome certo no filme “O Cheiro do Ralo” ou você chegou a pensar em algum outro nome?
Heitor Dhalia: O Selton se escalou para o papel. Ele me ligava seguidas vezes e não desistiu até conseguir. Ainda bem. O Selton já ganhou um monte de prêmios pelo filme. Ele fez uma atuação impressionante. Foi um grande companheiro nesta aventura que foi fazer “O Cheiro do Ralo”.
SML: Teve alguma coisa que você gostaria de ter feito em “O Cheiro do Ralo” e que não foi possível fazer devido ao baixo orçamento? Você mudaria alguma coisa no filme se tivesse um capital maior disponível?
Heitor Dhalia: Não, para cada filme tem uma história. A deste foi esta. E foi uma história bacana. De como é possível realizar um idéia mesmo contra todas as oposições e dificuldades.
SML: Como você vê a vida do protagonista Lourenço? Acha que existem muitos “Lourenços” pelo Brasil?
Heitor Dhalia: Acha que existem muitos Lourenços no mundo inteiro. Acho que na verdade há um Lourenço dentro de cada um de nós. A questão é se deixar ser tomado por ele ou não. A Loucura, a solidão e maldade existem. Nos resta lutar ou nos rebelar contra isto. O ser humano tem o bem e o mal. No caso do personagem, o mal vence. O Lourenço é um cara fracassado emocinalmente.
SML: Nos seus dois longas, você tanto dirige quanto escreve. Na verdade, você tem uma preferência? O que, na sua opinião, é mais fácil de fazer?
Heitor Dhalia: Gosto do que o Mamet fala. Ele diz que o diretor é a extensão dionísiaca do roteirista. Acho que gosto das coisas, igualmente. Ambas nos oferecem muito prazer e muito sofrimento.
SML: “O Cheiro do Ralo” foi considerado um dos melhores filmes nacionais do ano e chegou a vencer a 30ª Mostra de Cinema de São Paulo. Além dele, qual(is) outro(s) filme(s) nacional(is) você destacaria no ano e por que?
Heitor Dhalia: Gostei de “O ano em que meus pais saíram de férias”, do Cao e do “Céu de Suely” do Karim. São filmes de arte que conseguem, de alguma maneira, dialogar com uma audiência maior. Acho que Brasil está se aprimorando e a produção tem melhorado nos últimos anos.
SML: Com “Tropa de Elite” o Brasil viveu uma época em que vimos como a pirataria cresceu de forma assustadora. Como você vê todo esse processo e esse novo momento em que se fala muito na “democratização da cultura?” Você acredita nisso?
Heitor Dhalia: Não acho que a piratira é a democratizacão da cultura. Acho que democratizar é aumentar os números de salas, viabilizar a distribuição em todos os meios possível. A pirataria é outra coisa. É sonegação de imposto, concorrência desleal, grupos crimisosos que ganham dinheiro com o trabalho de autores, produtores e diretores. Isso não é difusão cultural. É roubo mesmo.
SML: O Oscar 2008 está chegando e o Brasil estará sendo representado pelo “O Ano em que meus pais saíram de férias”. Você acredita que foi a escolha certa para tentar ficar entre os indicados?
Heitor Dhalia: Acho que é um filme com chances de conseguir uma indicação. É filme delicado e que aborda a cultura judaica. Uma grande parcela da academia é formada por pessoas de origem judaica. Isso pode ajudar o filme. O Tropa de Elite também seria outra indicação possível.
SML: “O Cheiro do Ralo” é um projeto ambicioso da sua parte, na minha opinião. Mesmo com um baixo orçamento. O que te motivou pra levar o projeto adiante, ainda com todo esse problema girando em torno do dinheiro?
Heitor Dhalia: Eu gostava muito do livro, da dramaturgia enviesada que ele propunha. Acho que com “O Cheiro” e com “Nina”, eu encerrei uma fase da minha carreira. Agora quero ir para outros lugares. Estou buscando uma dramaturgia diferente agora.
E também eu gosto de bunda. (risos)
SML: Lembro que em Salvador, “O Cheiro do Ralo” ficou apenas uma semana na rede UCI, talvez mais, e depois apenas no circuito saladearte. O fato é que o cinema americano domina todo o circuito oficial. Na sua opinião, o que deveria ser feito pra mudar esse cenário e fazer com que os filmes nacionais pudessem ser mais vistos e reconhecidos?
Heitor Dhalia: “O Cheiro” teve uma boa carreira comercial. O filme ficou quase um ano em cartaz aqui em SP. É uma guerra mesmo. Um guerra desigual. A única maneira possível é tentarmos fazer filmes cada vez melhores. Sem isso, não há chance alguma. As pessoas tem que querer ver os nossos filmes. Este é o grande desafio.
SML: Para finalizar, gostaria de agradecê-lo imensamente por ceder parte do seu tempo para responder estas perguntas. Tem algum projeto pro ano de 2008? Algum longa novo? O que o público pode esperar?
Heitor Dhalia: Hoje é o primeiro dia de pré-produção do meu longa novo. Chama-se “À Deriva”. As filmagens começam em Março. É um drama familiar, que fala sobre separação, filhos e crescimento. É um filme forte e delicado ao mesmo tempo. O ator principal é o francês Vincent Cassel. E como todo filme, acho que não vou conseguir. Já estou em pânico.











12 de janeiro de 2008 as 10:00
Quando soube da entrevista vim correndo ver Vinicius, tá excelente, tb sou fã do Dhalia e já estou a espera do A Deriva, com o marido da Monica Bellucci.
Parabéns!
12 de janeiro de 2008 as 17:40
Excelente a sua entrevista com Heitor Dhalia. Você soube lhe perguntar coisas essencial e o resultado está acima da média. Linkei seu blog na minha página. Um abraço
12 de janeiro de 2008 as 17:41
Errata: desculpe pelo erro grosseiro. Onde se lê: você lhe soube perguntar coisa essencial, leia-se você soube lhe perguntar coisas ESSENCIAIS
13 de janeiro de 2008 as 8:23
Interessante… Gosto do trabalho do Dhalia. E não sabia desse projeto com o Cassel. Vai ser um filme bilíngue ou internacional mesmo? Em todo caso, asperemos… =D
15 de janeiro de 2008 as 18:13
Olá…
Eu gosto muito do trabalho do Heitor…
Queria fazer uma entrevista com ele para o jornal do colégio…
Não teria como você me fornecer algum contato dele Vinicius…
Grato
15 de janeiro de 2008 as 20:43
Opa Wagner, tenho sim.
Entre em contato comigo pelo email diorama@tvicio.com que passo pra voce.
Abraços!
3 de abril de 2008 as 5:36
Yes, I do think your opinion is righteous. (So do lots of people). Luckily majority of people are intelligent :).
26 de maio de 2008 as 15:20
[...] quem quiser saber um pouco mais sobre o filme, basta ler a entrevista que fiz com o próprio neste link. Então, segue abaixo, algumas imagens das gravações que aconteceram em [...]
28 de agosto de 2008 as 4:45
Sou videomaker e escrevo roteiros. EM 2004 tive o roteiro OS SALTIMBANCOS NO FIM DO MUNDO selecionado no edital do MINC.
Terminei um novo roteiro para longa AS INCRÍVEIS E TENEBROSAS VIAGENS DE LUCI. E estou buscando uma parceria.
Os dois roteiros se encontram no site http://www.roteirodecinema.com.br.
Gostaria de sbaer da possibidade de vc me passar o email do diretor Heitor Dhalia, pois gostaria de passar meus roteiros para ele.
Atenciosamente
Almir Correia
29 de agosto de 2008 as 0:20
Almir, vou lhe responder por email. Abraços.
29 de agosto de 2008 as 17:42
[...] história, que soa até um pouco autobiográfica, foi discutida quando fiz uma entrevista com ele (leia aqui) que me explicou a maneira como gostaria de filmar este seu novo filme, além do seu medo ao [...]