Dirigido por John Patrick Shanley. Com: Meryl Streep, Phillip Seymour Hoffman, Amy Adams, Viola Davis, Carrie Preston, Joseph Foster e Bridget Megan Clark. (Doubt, 2008)

O primeiro sermão dito pelo Padre Brendan Flynn (Hofffman) nos primeiros minutos da projeção é sobre a Dúvida. A história se passa um ano após o assassinato do Presidente Kennedy, talvez um dos mais importantes líderes políticos que o país e o mundo já viram. Em uma época de incertezas, a Dúvida referida pelo Padre era mais sobre a conjuntura que os Estados Unidos estariam tomando após aquele fatídico dia. Aqui, o roteiro escrito por John Patrick Shanley – que, na verdade, é uma peça de criada por ele mesmo – não precisa mencionar tal coisa, fica subtendido por ter sido um fato marcante e estava ainda muito recente.

Padre Flynn representa o progresso da Instituição Educacional onde é reitor. Enquanto isso, a Irmã Aloysius Beauvier (Streep) é exatamente o contrário. Lutando contra os progressistas, ela é uma pessoa conservadora e faz questão de mostrar isso para as outras Irmãs e, principalmente, para os alunos, uma vez que o respeito é muito importante. E, de imediato, esta personalidade fica em evidência quando a vemos dando ordens de comportamento ás crianças durante uma missa. Além disso, a sua expressão sempre séria é um contraponto com as outras Irmãs. O Progresso e o Conservadorismo se enfrentam neste filme, sendo a Dúvida algo muito mais forte.

A Instituição muda completamente quando acolhe o primeiro estudante negro, Donald Miller (Foster). Sendo coroinha do Padre Flynn, ele tem um desejo muito grande de um dia se tornar como ele. Por essa razão, os dois mantém um contato muito próximo que acaba despertando suspeitas por parte da Irmã James (Adams) e, principalmente, da Irmã Aloysius. Porém, as duas são bem diferentes. A personagem de Amy Adams confessou a desconfiar apenas por intermédio da Irmã Beauvier, haja vista que a sua desconfiança já vinha de longa data. O filme segue com essa dúvida durante todo o tempo e, na verdade, se trata de acreditar na verdade que cada um conta, ou melhor, no juízo de valor de cada um.

O espectador pode acreditar na Irmã Aloysius, mas desmerecê-la por não ter provas que comprovam que o Padre Flynn estaria tendo um relacionamento sexual com o estudante Donald Miller, sofrendo preconceitos da turma e do seu próprio pai, encontrando no Padre o “carinho” que lhe faltava. Por essa razão, que fica até mesmo difícil não acreditar na palavra do Padre Flynn, mesmo porque ele se utiliza de justificativas plausíveis para explicar a “amizade” que tinha com o garoto. E a fotografia do sempre competente Roger Deakins representa bastante isso porque, ao delimitar o espaço em que as coisas acontecem, temos a percepção desta falta de liberdade que persegue os alunos, principalmente porque a direção de John Patrick Shanley é também muito próxima dos seus personagens, causando até certa claustrofobia em determinados momentos.

No entanto, o que mais intrigou no filme – além da Dúvida, é claro – foi à metáfora inteligentíssima que o roteiro utilizou para o vento. Perceba o quanto este elemento narrativo é importante porque, a primeira que o vemos com detalhe é quando ele movimenta ferozmente o guardanapo da Irmã Aloysius, que olha com certa preocupação. O vento vai ficando mais forte, até causar um acidente com uma das Irmãs mais velhas da Paróquia. Mais pra frente, ele volta a ser utilizado quando a mãe de Donald Miller, aqui muito bem interpretada por Viola Davis, tem um longo e intrigante diálogo com Irmã Aloysius. O Vento representa a instabilidade, assim como a banda Los Hermanos traduz ao cantar: “o vento que entortou a flor / passou também por nosso lar…”

Como se não bastasse, este elemento foi utilizado ainda mais uma vez. Ao perceber que a situação estava insustentável, o Padre Flynn pede demissão. E isso pode ter dois entendimentos: o pedido de resignação por ser culpado ou, ainda, por querer apenas proteger o garoto. Mais uma vez ela, a Dúvida. No entanto, o que mais chama a atenção é o seu sermão num dos últimos atos do filme, quando ele cita o Vento para explicar o porquê de estar se desligando da Paróquia. É uma metáfora bastante intrigante, suscitando uma série de entendimentos para o que estava acontecendo, para as desconfianças que moviam a paróquia e aquele colégio.

Ainda que a Irmã Aloysius tenha conseguido o que realmente queria – expulsar o Padre Flynn – é perceptível que ela própria, apesar da aparente certeza, tinha dúvidas quanto à integridade do Padre, mas também quanto ao que ela pensava sobre ele. E não é por mero acaso que o filme se chama Dúvida. É ela quem move o filme, assim como o Vento, que se torna um elemento narrativo de fundamental importância. Mesmo tendo uma direção irregular em alguns momentos, o roteiro de John Patrick Shanley é primoroso ao saber retratar o julgamento humano, deixando que o público faça o seu, tendo a possibilidade de acreditar na história ou não.

Cotação: ★★★★☆

* Postado originalmente no dia 6 de Fevereiro e novamente publicado por conta do filme ter estreado no Brasil neste fim de semana.