Nesta segunda edição do Podcast ‘Sob a Minha Lente’, trato um pouco sobre a ”Trilogia do Amor’ caracterizada pelo diretor francês Christophe Honoré nos filmes ‘Em Paris’, ‘Canções de Amor’ e ‘A Bela Junie’. Com duração de 20 minutos, procuro falar sobre as diversas maneiras enxergadas pelo cineasta para um tema tão complexo. Entre idas e vindas nas narrativas, entre um personagem e outro e, principalmente, entre os relacionamentos vivenciados pelos espectadores, a ideia deste podcast é tecer breves comentários sobre o Amor contemplado de maneiras diferentes nos três filmes.
Sem mais delongas, o podcast pode ser ouvido logo abaixo:
Dirigido por Daniel Filho. Com: Tony Ramos, Dan Stulbach, Daniel Filho, Ailton Graça e Louise Cardoso. (idem, 2009)
Quando comecei a pensar na crítica para este filme, logo após ter saído da sessão, eu sabia que teria que escrever, não relatando aquilo que ele tem de ruim, mas o que ele nos proporciona ao fazer o espectador mergulhar no maravilhoso texto de Bosco Brasil, já que o filme é baseado na peça ‘Novas diretrizes para os Tempos de Paz, que ele próprio escreveu. Diferentemente do que costumo fazer quando penso nos meus textos, Tempos de Paz é uma experiência onde podemos ver dois atores brilhantes, com interpretações intensas e magníficas, contracenando como se tudo fosse uma grande peça teatral, isto é, um espetáculo.
O filme de Daniel Filho se passa no ano de 1945, no fim do regime nazi-fascista. Clausewistz (Stulbach) é um imigrante polonês que está tentando entrar no Brasil, fugindo das consequências que a II Guerra Mundial deixou por toda a Europa. Segismundo (Ramos) faz a representação de uma pessoa ligada ao regime, usando o bigodinho característico de Adolf Hitler e aparecendo como alguém sem sentimentos, que está ali apenas para cumprir ordens. Assim começa a incursão natural entre o cara que está tentando convencer o outro de que ele pode viver no país. Mais do que isso, a troca de experiência entre eles possibilita que os dois possam refletir sobre o que viram e, principalmente, sobre o que fizeram nestes tempos de guerra, que, agora, dão lugar aos tempos de paz.
Segismundo se presta a ouvir a história de Clausewistz, dizendo que tinha vindo para o Brasil para ser agricultor. Duvidando da história, os dois começam a sustentar um diálogo de memórias em que o espectador pode adentrar na intimidade de cada um. Mas tudo isso é feito de uma maneira diferente e, até mesmo, interessante. Como o texto foi adaptado de uma peça, o filme de Daniel Filho segue a tendência de manter a naturalidade do Teatro. Com isso, vemos apenas Dan Stulbach e Tony Ramos em cena, com alguns figurantes atuando mas que não atrapalham a trama principal. E os dois atores seguram a obra, como tinha que ser. Dan Stulbach interpreta o polonês Clausewistz de maneira espetacular, se esforçando no seu tom de voz e, principalmente, na comunicação por meio dos gestos, tão importante para a peça teatral.
Tony Ramos também não fica atrás da interpretação de Dan Stulbach. Ao mesmo tempo em que ele se mostra um cara inatingível por todas as ordens de torturas que ele cumpriu, a encenação de um texto espanhol de Clausewistz para convencê-lo sobre a sua permanência no país, mostra um ser humano que, por muito tempo, viveu atormentado pelas barbáries que cometeu. Dessa maneira, o filme começa a se utilizar do mecanismo de uma fábula que representa o arrependimento de Segismundo ao cortar mãos do Dr. Penna (Filho), o mesmo médico que salvou a sua irmã da morte. E isso nos leva a um outro questionamento sobre as ordens cumpridas e também sobre o que foi feito no Brasil durante o regime, uma vez que o país em um determinado momento se manteve em favor dos Aliados e depois até contra, chegando a mandar homens do exército para lutar no front de batalha.
A fotografia, a direção de arte e a montagem podem apresentar aspectos tortuosos do filme, mas constrói cenas até interessantes, esteticamente falando. É assim quando percebemos o estilo fotográfico nas cenas em que vemos o personagem de Dan Stulbach, agora admitindo ser um ator de teatro, encenando alguns textos. A fotografia cria um clarão em seu corpo, como se fosse uma espécie de luz que é comumente usada nos espetáculos teatrais e em shows para facilitar o público no momento de visualizar o artista. E isso gera uma experiência bonita para o filme, uma vez que intuito do diretor não é mostrar as novas diretrizes para os novos Tempos de Paz, mas sim, fazer uma homenagem ao teatro e a contribuição que muitos imigrantes tiveram para a construção do Brasil como um país que aprendeu a fomentar a cultura.
E, para isso, Tempos de Paz funciona muito bem. As excelentes interpretações ajudam a dar ainda mais força para os diálogos, já que o filme envolve basicamente eles. Mesmo assim, o grave problema de Daniel Filho é o mesmo dos seus outros longas-metragens. Por ser um diretor de novela, ele se prende muito a enquadramentos que fazem parte deste gênero. Por mais que ele tente em algumas cenas até boas imagens ao focar bastante nos gestos dos personagens e nas feições faciais, a maneira como ele controla os quadros não soa agradável. E o filme também tem certos pontos em que passa a sensação de estar se tornando uma obra entediante para o seu espectador.
De qualquer maneira, Tempos de Paz consegue ser um bom filme dentro da sua proposta inicial, que é de misturar as técnicas de uma obra cinematográfica com as características de encenação do teatro. Mas o que encanta mesmo no longa-metragem é a interpretação dos dois atores. Eles conseguem, de fato, segurar Tempos de Paz de uma maneira que, se eles não estivessem em perfeita sintonia, o filme não teria sentido algum porque todas as cenas dependem do melhor que eles podem dar para os seus personagens. E o nível que Tony Ramos e Dan Stulbach conseguem alcançar no filme, apesar de não ser exatamente surpreendente, é algo empolgante e que nos faz querer acompanhar todos aqueles diálogos, todas aquelas memórias e toda a contribuição que estes artistas imigrantes deram para o nosso país. Fora isso, Tempos de Paz dá a impressão de ser uma obra incompleta com um texto primoroso, mas com uma direção “capenga” e sem muito brilho.
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Dirigido por Larry Charles. Com: Sacha Baron Cohen, Gustaf, Hammarsten e Clifford Bañagale. (idem, 2009)
‘Para eu ser uma celebridade, tenho que me tornar uma pessoa hétera como o Tom Cruise, John Travolta e Kevin Spacey’. É seguindo por este tom de ironia e sarcasmo que somos conduzidos a uma estória cômica, engraçada e ao mesmo tempo crítica. Sacha Baron Cohen se livra de Borat para fazer Brüno, um repórter gay fashionista, e austríaco, que deseja se tornar tão famoso quanto Adolf Hitler. Ele já consegue ser visto por todos os países de línguas germânicas, menos a Alemanha. E o seu objetivo é fazer com que todos possam conhecer o seu programa (lê-se: ele mesmo).
Depois que ele é despedido do seu programa sobre moda, Brüno começa a cruzar o mundo e parte para Los Angeles, o lugar perfeito para se falar sobre o mundo das celebridades. Bruno é viagem do personagem-título para conseguir se tornar famoso, não importando o que deve ser feito para que isso aconteça. Dividido de forma episódica (ou em esquetes, como foi Borat), o longa-metragem nos conduz entre as atrapalhadas e bem boladas piadas e histórias do seu personagem, assim como os seus momentos de queda, reflexão e ressurgimento. Com um humor escrachado que não tem a mínima noção de se tornar pretensioso (mesmo com uma estória que possa fazer o espectador pensar em algo além da comédia), Brüno vende uma coisa mas acaba contando outra.
Quando o filme começa, temos a clara noção de que ele fará uma crítica pesada ao mundo da moda. No entanto, o que vemos não é exatamente isso. A crítica existe, mas ela é para as celebridades e o que as pessoas estão dispostas a fazer para alcançar o estrelato. Dessa forma, Brüno tenta diversas artimanhas para conseguir isso. Já em Los Angeles, ele procura montar um programa parecido com o que ele fazia na Áustria, que não dá muito certo. Depois ele parte para o âmbito dos filmes pornográficos (pensando apenas no quanto ele poderia ficar famoso). Passando por estas coisas mais bobas, o vemos se reunindo com líderes do Oriente Médio para encerrar os conflitos, uma vez que ele poderia ser reconhecido como ‘a pessoa que conseguiu interromper anos de guerra naquela região’.
Mas nada disso dá certo. E Brüno entra em depressão. Mesmo sendo amparado pelo seu companheiro Lutz (Hammarsten), ele não sabe mais o que fazer para se tornar famoso. Aqui, surge grande parte das críticas que o filme faz indiretamente para determinados assuntos que são polêmicos e que causam, obviamente, muita discussão. Nesta viagem pelo Oriente Médio, ele passa na África (porque toda pessoa famosa tem que ir lá visitar as criancinhas e os povos carentes), e depois retorna à América adivinha com o que: uma criança africana, mas escondida em uma caixa de papelão.
É uma cena extremamente engraçada pela maneira como foi feita, mas também pode nos chamar a atenção sobre o porquê que todos precisam fazer isso para se tornar reconhecidos (não exatamente esconder a criança em uma caixa). A Madonna adota, a Angelina Jolie e tantas outras estrelas também. Não convencido sobre isso, ele envolve ainda questões políticas que mexem com o preconceito do norte-americano. Quer dizer, eles podem ser chamados de ‘afro-americanos‘, mas porque os negros da África são conhecidos como ‘africanos’? São pontos mínimos como esses, que surgem na tela sem nenhum compromisso, que podem fazer o espectador se questionar e pensar em determinadas coisas que o filme incita.
Além disso, existe uma crítica muito maior à homofobia. Em uma das últimas tentativas para se tornar famoso, Brüno viaja até a cidade de Arkansas (uma das mais conservadoras e preconceituosas regiões dos Estados Unidos) e se passa por um heterossexual que deseja exterminar os homossexuais, criando até um dia de orgulho para os héteros. No entanto, seu grande amor Lutz surge na platéia. Os dois parecem que vão começar a brigar no meio do ringue, mas acontece é que ambos se beijam loucamente ao som de ‘My Heart Will Go On’, de Celine Dion e tema do filme ‘Titanic’. Em represália, as pessoas começam a querer espancá-los, jogando cadeiras e outros objetos mais. Passando por este lado preconceituoso e conservador, ele também critica o fato dos gays não poderem se casar, ou até mesmo de adotar uma criança.
E é exatamente com esta cena no ringue na cidade de Arkansas, a partir de um vídeo gravado e colocado no YouTube, que Brüno consegue aquilo que ele queria: se tornar uma celebridade. Se esta cena parecia ser a melhor do filme, é porque seríamos surpreendidos ainda com as presenças de Bono, Sting, Chris Martin e Snoop Dog, interpretando uma canção escrita pelo próprio personagem. E mesmo não sendo uma obra brilhante (acredito que o formato perdeu um pouco o impacto que o Borat conseguiu quando foi lançado), ‘Bruno’ é um filme engraçado, hilário, cômico, escrachado e totalmente crítico. Tudo isso feito de maneira despretensiosa.
Existem certos momentos que nos fazem questionar a maneira como as cenas foram filmadas como, por exemplo, quando Brüno entra para o Exército (em uma leve lembrança que pode nos remeter a uma crítica aos primeiros trinta minutos de Nascido para Matar, de Stanley Kubrick, ou até mesmo pelo método que é utilizado), parar testar a sua masculinidade. Porém, as cenas soaram forçadas. Primeiro porque seria impossível ele entrar com o cabelo daquele tamanho, e segundo que é muito difícil alguém conseguir gravar cenas reais em meio ao Exército norte-americano.
De qualquer forma, outros momentos como a sequência em que ele se consulta com um médium e, em seguida, com um pastor, pode fazer qualquer um chorar de rir. E este é o propósito da comédia, mesmo quando ela consegue ser tão descabida. É difícil fazer uma comparação entre os dois filmes lançados pelo Sacha Baron Cohen, mas tenho a certeza de que ambos conseguem divertir o seu público da maneira que eles esperam: com piadas e situações que nos fazer duvidar se existe realmente um limite para tudo que deve ser feito.
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