Cães de Aluguel
terça-feira, agosto 31st, 2010![]()
Dirigido por Quentin Tarantino. Com: Michael Madsen, Steve Buscemi, Quentin Tarantino, Tim Roth, Harvey Keitel, Lawrence Tierney, Chris Penn e Edward Bunker. (Reservoir Dogs, 1992)
O cinema americano na década de 90 passava por uma crise existencial e também criativa. A indústria tinha problemas em lançar novos diretores, assim como filmes que poderiam surpreender um público cada vez mais exigente em querer assistir novas histórias. Quem surgiu para dar um fim nesta crise foi Quentin Tarantino, um cara desconhecido e ex atendente de locadora que, com Cães de Aluguel e Pulp Fiction, mudaria completamente a forma de se fazer cinema naquela época e passando a ser um dos diretores mais cultuados até o presente momento.
A primeira cena de Cães de Aluguel possui a marca do cinema de Quentin Tarantino. Seis caras começam a conversar sobre o significado da música “Like a Virgin”, da cantora Madonna. Enquanto isso, um outro mais velho fica repetindo nomes da sua agenda. Todos bem vestidos, de terno e gravata, passam a discutir diversas músicas da cantora Madonna e cada um apresenta teorias diversificadas sobre o que cada letra poderia dizer. Aparentemente, a cena pode não significar absolutamente nada, mas ela se torna um marco por definir o cinema que o Quentin Tarantino começaria a fazer a partir deste filme (e daquela cena).
Assim surge Cães de Aluguel, um filme que conta a história sobre um grupo de assaltantes contratado para roubar uma joalheria. O plano todo daria certo se não fosse por conta de um informante que estaria infiltrado no grupo, responsável por fazer com que o roubo não desse certo e se tornasse uma verdadeira bagunça. Tarantino inova por construir o seu longa-metragem a partir de uma narrativa completamente diferente, não seguindo a linearidade dos fatos. Ao contrário do óbvio que poderia ser, ele não mostra o roubo na joalheria, mas sim o que acontece dentro do galpão que seria o ponto de encontro para eles.
Quanto mais o filme avança, ele vai se tornando extremamente perturbador. E isso acontece, principalmente, pela presença do Sr. Pink (Buscemi, em belíssima interpretação), pois ele vive se questionando quem poderia ser o traidor do grupo. E a narrativa de Tarantino vai ganhando força com o uso do flashback para apresentar a forma como os personagens embarcaram naquela aventura. O recurso narrativo, aliás, é muito bem utilizado e organizado pelo diretor porque ele demonstra uma tranquilidade absurda em saber definir o tempo de apresentar os personagens, com o clímax e o desfecho que viria logo a seguir.
No entanto, Cães de Aluguel tem um problema que às vezes é muito comum nos roteiros de Tarantino: a repetição. Em uma cena, por exemplo, “quando aquele que seria conhecido como o traidor” começa a contar uma piada que permanece em quatro quadros diferentes. A cena é bem construída, mas se torna repetitiva e, por mais que Tarantino queira demonstrar o quanto a história era bem-humorada, a verdade é que a piada não é exatamente engraçada como o diretor poderia imaginar. Mas nem mesmo isso tira o brilho do roteiro escrito por Tarantino e, principalmente, pela sua criatividade em transformar histórias (ou diálogos) aparentemente banais em algo interessante e inventivo.
Os cenários também criados em Cães de Aluguel funcionam para o filme. O galpão, que é onde toda a ação acontece, tem exatamente as características de um esconderijo. E é nele que o elenco de Cães de Aluguel demonstra que estava realmente em sintonia. Aos poucos, cada um daqueles que estavam envolvidos no assalto vão aparecendo. A narrativa vai se tornando mais ágil, tomada por um suspense em relação ao que seria feito a partir do momento em que eles descobrissem quem seria o traidor. Tarantino preserva a sua forma intrigante de contar esta história até o último minuto do filme literalmente. Os seus planos de câmeras, a sua montagem em sintonia com uma edição muito bem arquitetada, ajudam a transformar a sua história em algo bem armado e que prendem o espectador a ficar atento a cada detalhe que é colocado na tela.
Dá para dizer que, desde 1992 (ano em que Cães de Aluguel foi lançado), Quentin Tarantino vem fazendo o que se chama de “cinema de autor”. Cada obra que ele realiza é possível reconhecer as características que fazem parte da sua narrativa. A montagem que muitas vezes não segue a linearidade da narrativa, a violência explícita das cenas, o roteiro com diálogos cujas referências estão ligadas à cultura pop americana. As banais discussões também ganham momentos de tensão em seus filmes como, por exemplo, no mesmo Cães de Aluguel quando Steve Buscemi reclama de ter recebido o nome de “Sr. Pink” ou, ainda, quando ele também fala sobre o porquê de não dar gorjetas.
Assim como os filmes que Quentin Tarantino iria dirigir posteriormente, Cães de Aluguel segue a tendência de ser trágico e violento, inovador e original, engraçado e dramático. A violência exagerada que pode ser vista nas cenas de tortura de um policial dentro do galpão onde os assaltantes se encontrariam, também faz parte do cinema idealizado por Tarantino. Além disso, o diretor analisa, de maneira indireta, a psicologia de cada personagem que ele construiu, principalmente em relação às ações que eles tomam ao saberem que o assalto não teria dado certo. Por mais que o filme se torne repetitivo e até prolongue a história do Sr. Orange, Cães de Aluguel, para mim, não é um marco do cinema, mas foi ele o responsável por lançar um diretor que veio a se tornar um marco para a cinematografia mundial.





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