Entre Irmãos

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Dirigido por Jim Sheridan. Com: Tobey Maguire, Jake Gylenhaal, Natalie Portman, Bailee Madison, Taylor Geare, Sam Shepard e Mare Winningham. (Brothers, 2009).

O diretor Jim Sheridan sempre se consolidou ao retratar em seus filmes os problemas familiares enfrentados pelos seus personagens. Além disso, ele tem por característica mostrar a superação destas dificuldades apresentadas. Foi assim em Meu Pé Esquerdo, quando vemos a incrível história de Christy Brown (interpretado por Daniel Day-Lewis, lhe rendendo uma estatueta de Melhor Ator em 1990) ou, ainda, no longa-metragem Em Nome do Pai em que, mais uma vez, Jim Sheridan coloca a família na frente de tudo aquilo que está sendo contado, mostrando a real importância e os verdadeiros valores familiares que eles seguem. Em Entre Irmãos, mais uma vez esta temática fica clara ao retratar a família Cahill, que enfrenta diversos problemas ao longo da sua jornada.

Sam (Maguire) é o Capitão de uma tropa Marine e que está prestes a voltar para lutar no Afeganistão. Enquanto isso, o seu irmão Tommy (Gylenhaal) acabou de sair da prisão e vai tentar reconquistar a confiança da sua família novamente. O pai de ambos, Hank (Shepard, de Falcão Negro em Perigo), que também é do Exército, tem o seu filho favorito e isso sempre gerou uma incrível confusão na família. No meio de toda esta trama, está Grace (Portman), esposa de Sam, e as suas duas filhas Isabelle (Madison) e Maggie (Geare). E toda a história começa de verdade quando Sam volta para o Afeganistão, dando espaço para que o seu irmão pudesse se aproximar da sua família. O maior erro de Entre Irmãos já começa exatamente neste momento. Falta naturalidade na atuação de Gylenhaal, uma vez que fica nitído a maneira como ele já estava esperando se aproximar das filhas do seu irmão e, principalmente, da sua mulher. As coisas ficam ainda mais claras quando Sam é dado como morto na guerra, mudando completamente a vida da família Cahill durante meses até que ele finalmente aparece vivo.

Por algum período, Jim Sheridan tenta consolidar o seu filme entre duas narrativas: aquela que se passa no Afeganistão, mostrando Sam se tornando um refém do regime talibã, e também a vida que Grace vai levando com as suas filhas (sempre na companhia de Tommy). Neste aspecto, a montagem acaba errando em não conseguir encontrar sustentação naquilo que está sendo contado. Tudo vira uma série de repetições de grande parte do que já foi dito. Mesmo quando Sam retorna ao seu lar, era esperado que ele se tornasse uma pessoa mais violenta e diferente. A guerra o transformou, como já foi mostrado em outros filmes do gênero. A Volta dos Bravos, por exemplo, se preocupou em apenas relatar como estes conflitos conseguem mudar para sempre a vida dos soldados americanos, não mais conseguindo ser aqueles seres humanos de antes. Entre Irmãos chega a ter um pouco deste filme citado, principalmente pela forma irreconhecível e a falta de paciência que Sam começa a ter depois de ter sobrevivido ao Afeganistão (além de estar impregnado na sua mente o que ele precisou fazer para tal coisa).

Entretanto, o que Entre Irmãos tem de melhor não está nos seus personagens centrais (ou que, pelo menos, deveriam ser o centro da trama). As filhas de Grace começam a roubar a cena com o tempo. Jim Sheridan mostra, mesmo que por muito pouco tempo, o olhar delas sobre tudo isso que está acontecendo, seja pela guerra, seja pela volta do pai, seja pela aproximação entre Grace e Tommy. Elas não são meras coadjuvantes das histórias. Na realidade, elas se tornam parte integrante daquilo que está sendo mostrado na tela. Uma trama parecida com a de Terra de Sonhos, outro filme do Jim Sheridan, que ele também se utiliza dos dramas de uma família que havia ido tentar a sorte na vida na cidade de Nova York vindos da Irlanda, para mostrar a maneira como eles conseguiram se adaptar ao lugar em meio às dificuldades de recomeçar uma vida. É exatamente o que acontece quando Sam volta, o recomeço (ou a tentativa) para reconstruir os laços familiares que haviam sido esquecidos com a sua morte, e também com o fato de se acostumar a este fato.

A trilha de Thomas Newman se encarrega de chamar atenção para os fatos dramáticos, mas pouco consegue se sobressair. Se utilizando muito mais de canções parecidas com aquelas que vemos na série americana Friday Night Lights, Newman faz o que pode para prender a atenção do seu espectador. Mesmo assim, quem se destaca é Tobey Maguire, que tem uma atuação marcante no filme. Nas principais cenas em que ele deixa transparecer o ódio que ele trouxe do Afeganistão, é possível perceber a sua capacidade de entrega a um personagem que não demonstra complexidades. Este talvez é o maior erro de Entre Irmãos. Por mais que ele tente se consolidar o quão trágica a guerra pode ser e a maneira como ela transforma o ser humano, o roteiro de David Benioff pouco se esforça para tornar a sua trama complexa, o que considero um erro dada as circunstância e as tramas que o filme procura abordar.

Por fim, Entre Irmãos é uma mistura de tudo aquilo que já foi visto em outros filmes (e até mesmo em algumas séries de televisão). A relação da mulher com o fato de ver o marido partindo para o combate, por exemplo, virou tema de programas como Army Wives e The Unit, ambas que se preocuparam em mostrar o lado feminino de uma questão difícil. Este está longe de ser aquele Jim Sheridan que consegue se impôr com a sua câmera em contemplar momentos de intensa dramaticidade. Pelo contrário, aqui o seu filme resulta em uma equação que não possui sentimentos, se prendendo a mostrar o convencional. O final é um exemplo claro disso, deixando o espectador com o questionamento na cabeça de que poderia ser melhor, de que algo mais poderia ser feito. Entre Irmãos representa mais um olhar sobre as consequências psicológicas que as gueras têm deixado nos soldados americanos. Mas por que não, então, acabar com elas? Segundo Obama, porque elas são um mal necessário. A cada dia, então, famílias daqueles que estão no Exército terão que conviver com estes problemas.

Cotação: ★★★☆☆

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Aquário

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Dirigido por Andrea Arnold. Com: Katie Jarvis, Rebecca Griffiths, Michael Fassbender, Grant Wild, Sarah Bayes, Charlotte Collins e Carrie-Ann Savill. (Fish Tank, 2009)

A juventude é uma fase difícil. É o momento de descobertas e, principalmente, é aquela hora em que se passa a querer queationar tudo e a lutar contra determinadas regras. Com isso, é impossível não citar Salinger e o seu “Apanhador nos campos de centeio”. Ele talvez tenha sido a maior voz dessa juventude anisosa por respostas e querendo fugir para o mundo, lutando contra a proteção dos pais e se rebelando contra aquilo que eles achavam errados. Aquário se encaixa nestas premissas, ao retratar o cotidiano complicado de uma adolescente de 15 anos que precisa conviver com o fato da mãe trazer para dentro de casa o seu namorado e, mais do que isso, lidar com a ideia de ter se apaixonado por ele.

Mia (Jarvis) é essa adolescente inquieta, movida pela dança de rua e por novas aventuras. Dentro de casa, precisa conviver com o desgosto da mãe e com a competitividade dela, além de ter uma irmã que também não se importa com a sua presença. As coisas mudam com a chegada de Connor (Fassbender) que, não chega a desestruturar um lar já desestruturado, mas acaba mexendo com os hormônios de Mia. De certa forma, Aquário começa a tocar em um ponto-chave neste momento, quando coloca em pauta o fato dos pais não prestarem atenção no desenvolvimento dos seus filhos. A relação entre mãe e filha, retratada pela diretora e roteirista Andrea Arnold, é inexistente. E isso é feito de maneira proposital, já que justifica uma grande parte dos atos cometidos por Mia que, claramente, não teve a educação necessária para enfrentar esta fase da vida.

Com esses problemas em casa e prestes a ser mandada para um tipo de colégio interno, ele passa a viver os seus sonhos na dança de rua, criando coreografias e buscando algum objetivo. Assim, somos conduzidos ao seu cotidiano de brigas com outras meninas, de aventuras e de novas experiências. A câmera de Andrea Arnoldo persegue, literalmente, Mia pelo subúrbio londrino. De alguma forma, ela cria visuais estéticos que são interessantes para a sua obra. A maneira de filmagem com a câmera na mão, um recurso usado com o objetivo de criar e dar realidade às cenas, aqui ganha um aspecto comum muito forte, já que o seu intuito é ter um intimismo maior entre o espectador e a personagem. Por outro lado, o jeito como Mia permanece sempre, ou quase sempre,  de costas para a câmera, também é uma representação que justifica o fato da câmera estar ali apenas para observar as suas ações, não fazendo julgamentos prévios sobre o que é certo ou errado.

Mesmo assim, Andrea Arnold peca em outros momentos quando resolve utilizar o slow motion em algumas cenas, além de abusar com muitos movimentos de câmera. Ora, se o seu objetivo era criar este estilo intimista, tal técnica se mostra completamente fora do contexto do filme. Em um momento, por exemplo, quando Mia e Connor estão mais próximos, ela faz questão de utilizar o slow motion, talvez para deixar claro que existia alguma atração entre os dois mas, na realidade, ela cria um visual romancista que não está de acordo com a narrativa do filme, fugindo dos quadros anteriores onde ela buscava apenas perseguir a sua personagem principal e mostrar o seu cotidiano nas ruas do subúrbio de Londres, aprendendo a ser uma adolescente e a conviver com os seus problemas.

Se Arnold peca por este lado, Katie Jarvis faz um excelente trabalho interpretando uma adolescente frustrada e que procura dar sentido à sua vida. Com intensa dramaticidade, é possível perceber as mudanças nela. Ao viver o primeiro amor, sentido por Connor, percebe-se a sua insegurança em se entregar totalmente e, em seguida, o seu desespero em tentar seguir com este “amor proibido”. Por outro lado, o filme também procura desenhar o quanto os jovens são formados e influenciados pela mídia e pela música. Tendo como trilha sonora a canção “Califórnia Dreaming”, esta é a única trilha em toda a narrativa, que trabalha apenas com o som ambiente e cria, assim de maneira acertada, uma maior realidade ao que está sendo assistido. Jarvis sabe transmitir o amadurecimento da sua Mia, mas também sabe mostrar o quanto ela é fraca e imatura.

Aquário é um excelente drama independente, mas que ainda apresenta irregularidades ao tratar determinadas situações. As consequências de alguns atos de Mia são claramente esquecidos quando, na realidade, deveriam ter sido mostrados. E mesmo quando ela foge daquele lugar rumo ao País de Gales para se aventurar, se percebe pela despedida que poderia existir harmonia dentro de casa. O maior problema é que tanto a sua mãe quanto ela, não sabiam lidar com estas transformações vivenciadas pela adolescência. Além disso, Andrea Arnold termina o filme de maneira muito romântica, o que não caracteriza que o seu filme seja um julgamento de uma realidade que pode ser comum a estas pessoas. Por outro lado, ela e Katie fazem um trabalho de direção e interpretação bastante interessante, entregando uma estética própria de um filme com um tema tão comum.

Cotação: ★★★☆☆

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O Mensageiro

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Dirigido por Oren Moverman. Com: Ben Foster, Woody Harrelson, Jena Malone, Steve Buscemi, Samantha Morton, Lisa Joyce, Yaya DaCosta e Eamonn Walker (The Messenger, 2009)

A cada ano, uma série de filmes sobre a Guerra estreiam nos Estados Unidos. Por algum tempo, alguns tiveram a preocupação em mostrar como os soldados encontram dificuldades em se inserirem novamente na sociedade quando retornam do conflito. Neste período de 2009/2010, foram três longas-metragens sobre as guerras que enfrentam os Estados Unidos. No filme Entre Irmãos, do diretor Jim Sheridan, aquela velha fórmula de mostrar a dificuldade dos soldados na sociedade se esbarra nos clichês de outros filmes que já abordaram isso. Guerra ao Terror, de Kathryn Bigelow e com nove indicações ao Oscar, faz diferente e mostra (com imensa inteligência) o cotidiano de um grupamento responsável por desativar bombas no Iraque. O Mensageiro também faz diferente, e se preocupa em mostrar um soldado no Grupo de Notificação e a maneira como ele encara tudo isso.

Dirigido por Oren Moverman, que também assina o roteiro juntamente com Alessandro Camon, o Sargento Will (Foster) ainda tem três meses para cumprir no Exército americano, mas não poderá mais estar no front do conflito por ordem médica. Com isso, ele é colocado no Grupo de Notificação, em companhia do Capitão Tony Stone (Harrelson). Ambos são responsáveis em avisar às famílias sobre a morte dos seus entes queridos no conflito. Com isso, eles precisam lidar com a dor e a maneira como cada um recebe esse tipo de notícia. Tony, que já está no ramo a mais tempo, explica diversas regras para Will na tentativa de fazer com que a tragédia não se torne algo ainda maior do que já é. O Grupo de Notificação ainda compete com os canais de televisão, os jornais e as rádios, pois eles precisam ser os primeiros a entregar as notícias às famílias.

O filme se torna extremamente dramático com diversas cenas dolorosas de famílias que perderam soldados na guerra. Logo na primeira casa que Will visita, a Sra. Burrell recebe a notícia de que perdeu o seu filho. Ela tenta abraçar Will que, pelas normas, não pode manter nenhum contato físico com essas pessoas. Para Tony, eles são do Exército e não devem demonstrar nenhum sentimento, por mais que a perda e a dor possam mexer com eles e, acima de tudo, por mais que pensemos que eles são seres humanos. Por isso, a cada vez que os dois visitam alguma família, é como se eles tivessem sendo testados a serem sempre fortes enquanto estão ali. Will não consegue entender muito bem isso. A maneira como ele se sente pode ser muito bem vista pela direção precisa de Moverman e a belíssima fotografia de Bobby Bukowski.

Oren Moverman, aliás, faz um excelente trabalho. Optando por trabalhar sempre com a câmera na mão em grande parte das cenas, ele alcança uma realidade impressionante nas filmagens. Filmando de maneira não convencional, ele deixa diversos espaços vazios na tela focando, em alguns momentos, apenas em uma parte dos rostos dos seus dois personagens principais. E quando ele não faz dessa forma, Bobby Bukowski trata de utilizar uma fotografia cada vez mais obscura, principalmente ao mostrar a casa onde os dois soldados moram, sendo esta uma maneira de representar o quanto eles são sozinhos e despreocupados com a vida. Moverman coloca a sua câmera cada vez mais próxima dos seus personagens, trazendo uma visão intimista para os espectadores capaz de colocar o sentimento de dor que o filme tem em sua narrativa. E tudo isso favorece bastante a montagem, já que o filme não se caracteriza por uma edição frenética e, sim, por cenas que demoram na tela para nos transmitir alguma coisa.

Enquanto isso, Woody Harrelson faz um excelente trabalho na pele do Capitão Tony. Se no primeiro momento o vemos como uma pessoa durona, falando alto, comendo de qualquer jeito e aparentando ser alguém forte e impossível de chorar, com o passar do filme já começamos a enxergá-lo de maneira completamente diferente. Ele nunca esteve no conflito e o seu maior sonho era tomar um tiro e ter histórias para contar. Harrelson faz um trabalho excepcional, principalmente quando ele se dá conta de que também é humano e chora ao perceber o quanto este trabalho é complicado e ruim. Não apenas por isso, ele finalmente se dá conta do sofrimento que estas famílias passaram e o jeito “não-humano” como estas notícias foram dadas. Ben Foster também faz um bom trabalho, seguro do personagem que está interpretando.

Se por um lado ele tinha que seguir as regras de não ter contato físico com ninguém, Will acaba se apaixonando por Olívia (Morton) e o filme se torna ainda mais interessante de ser visto, já que ele não fica preso em apenas narrar o cotidiano de dois soldados que estão neste Grupo de Notificação. Aliás, uma cena que chama atenção é na festa de noivado de uma garota que Will gostava e, ele e Tony, acabam indo mesmo sem convite. Engraçado a maneira como as pessoas olham para os dois soldados, não exibindo desconfiança, mas um certo desconforto por eles estarem ali. No entanto, O Mensageiro não tem por intenção falar sobre questões políticas, assim como foi em Guerra ao Terror. Ao não entrar no mérito de discutir se a guerra é boa ou não para os americanos, sobra tempo para O Mensageiro tratar de sentimentos mais complexos.

O Mensageiro te coloca em alguns momentos de pura reflexão, mas vale a pena assistí-lo pelo lindo jogo de cena do diretor Oren Moverman. Um filme que sabe tratar do amor e da dor, sentimentos que podem ser opostos mas que, no final, se completam. Com excelente atuação dos dois atores principais, somos conduzidos a uma jornada triste e a conhecer a tristeza de outros familiares que perderam alguém para a guerra. Aqui, não existem questões políticas a serem debatidas, mas sim, os dolorosos momentos de pessoas que procuram reestruturar as suas vidas e a se reerguerem após perderem alguém. E esse sentimento de perda é algo que acompanha o filme até o seu final que, apesar do romantismo retratado, finaliza com extrema inteligência uma narrativa com intensa atividade dramática. O Mensageiro é relativamente simples, mas que se torna complexo pelo misto de sentimentos expostos e por uma atuação intensa e verdadeiro de Woody Harrelson.

Cotação: ★★★★☆

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Brilho de uma Paixão

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Dirigido por Jane Campion. Com: Ben Whishaw, Abbie Cornish, Kerry Fox, Paul Schneider, Edie Martin, Thomas Sangster, Gerard Monaco e Samuel Roukin. (Bright Star, 2009)

John Keats é considerado um dos maiores poetas românticos da Inglaterra. Porém, todos só perceberam isso quando ele morreu (como costuma acontecer). Para Keats, ele nunca conseguiu falar do Amor como ele gostaria. Pelo menos, isso foi o que ele pensou. Para outros que leram os seus poemas e aprenderam admirá-lo com a sua capacidade de versos e estrofes concebidos para tratar do Amor, Keats foi um dos melhores do seu tempo. O maior problema: morreu muito cedo – com 25 anos - e deixou uma obra, por impressão, ainda inacabada. Assim como Álvares de Azevedo, poeta brasileiro que maior representa a Segunda Geração Romãntica da nossa poesia (também conhecida como Ultraromantismo), Keats teve problemas para viver o seu grande amor, teve uma vida interrompida pela doença e viveu crises de identidade em meios às palavras que escrevia.

Brilho de uma Paixão trata de tudo isso. Keats (aqui interpretado por Ben Whishaw), vive na companhia do seu amigo Sr. Brown (Schneider) e ambos passam o tempo todo pensando em versos para as suas poesias, meditando sobre diversos assuntos. Já aqui começa o erro do roteiro escrito por Jane Campion, que também assina a direção. Não acredito que os poetas daquela época (1818, para ser mais exato), precisavam fazer algum tipo de meditação para escrever. Muito pelo contrário, o grande êxito da poesia romântica estava concentrada exatamente na naturalidade dos versos. Por esta razão, grande parte das cenas em que vemos, no filme, os atores declamando alguns poemas, soa demasiadamente forçadas e, por conseguinte, não se consegue transmitir o sentimento que aquelas estrofes poderiam ter. Com isso, o filme se torna cansativo em alguns momentos, por não conseguir ajustar a sua narrativa em torno das poesias de John Keats.

Como todo poeta, ele se vê apaixonado por Fanny Brawne (Cornish). E, como todo amor dessa época, era impossível que os dois ficassem juntos tudo porque Keats não tinha dinheiro para o dote, o que era um grande problema. John vivia dos seus livros, mas as suas poesias eram sempre criticadas. Compion, então, deixa claro que o seu sucesso veio apenas depois da sua morte (como, de fato, aconteceu). Por essa razão, ele morre pensando não ter sido capaz de tocar no coração das pessoas. De alguma forma, talvez esta nem tenha sido a sua intensa preocupação, uma vez que ele se preocupou em tocar o coração de Fanny, por quem também se viu apaixonada. Para ela, uma garota que estava preocupada em costurar vestidos e ir para bailes, Fanny passar a estudar poesia, ler livros clássicos e a se entregar inteiramente ao amor de John, que começa a viver os problemas de uma doença crônica por conta do inverno rigoroso na Inglaterra.

Por um lado, Brilho de uma Paixão é um filme extremamente poderoso. Ele sabe mostrar a dor de viver um grande amor e uma paixão tão intensa. Por vezes, o espectador consegue ver Fanny sofrendo com este sentimento. Ainda assim, ambos conseguem experimentar momentos intensos de felicidade, onde cada carta representava um significado imenso para aquilo que os dois sentiam. O que falta, no entanto, é um maior companheirismo entre os atores Cornish e Whishaw. Em algumas cenas, vemos momentos tão superficiais de atuação dos dois, que mal conseguimos enxergar algo verdadeiro no que eles estavam sentindo. Eles tentam alcançar uma interpretação dramática capaz de mexer com o espectador, mas eles não conseguem transmitir algo que seja verdadeiro e genuíno, como deveria ser o amor.

De qualquer maneira, o maior mérito de Brilho de uma Paixão é a sua fotografia assinada por Greig Fraser. Se os atores por hora não conseguem se entender no amor, é com o seu aspecto cinematográfico que conseguimos vivenciar as paixões dos seus personagens. Mudando conforme as estações do ano, ela consegue ser viva na primavera em meio folhas azuis e, na outra extremidade, ser extremamente cinzenta no inverno. Já a música de Mark Bradshaw, apostando exclusivamente em violinos, se torna repetitiva demais e, até mesmo, cansativa como o próprio filme. A direção de Jane Campion, apesar de ser bela como a fotografia e tentar captar a beleza destas cenas,  não consegue o principal: mostrar os carinhos do casal de apaixonados. Em um filme como esse, não basta apenas utilizar quadros em que os atores lamentam e choram mas, acima de tudo, tratar do amor como algo que realmente possa ser transmitido para quem assiste. E ela, infelizmente, não consegue captar estas carícias como poderia. O que é uma pena, principalmente tendo uma fotografia tão bela como esta que foi empregada.

Tomando agora para o lado pessoal, sou uma dessas pessoas que acreditam no amor e na capacidade de transformação que ele tem, seja para o sofrimento ou para a felicidade. Brilho de uma Paixão é um filme morno e (desculpem o trocadilho), sem brilho algum. Os atores, por mais que tentem atuar no seu melhor, não conseguem captar a essência do que está sendo mostrado, algo que também pode ser sentido na direção de Jane Campion. Se tornando um filme em que a poesia está inserida em praticamente todas as cenas, Brilho de uma Paixão faz mais do que uma homenagem e dedicatória para John Keats. Claramente, este é um filme que dialoga com o Romantismo e com aqueles que acreditam ainda nisso, não apenas como gênero literário, mas como um sentimento puro capaz de mover os seus corações e os seus atos. De forma muito burocrática, e com uma montagem que não ajuda na concepção da narrativa fílmica, Brilho de uma Paixão trata com superficialidade um sentimento tão complexo e belo.

Cotação: ★★☆☆☆

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Um Homem Sério

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Dirigido por Joel Coel e Ethan Coen. Com: Michael Stuhlbarg, Richard Kind, Fred Melamed, Sari Lennick, Aaron Wolf, Jessica McManus e Adam Arkin. (A Serious Man, 2009)

Quando chega um determinado momento em Um Homem Sério, novo filme escrito e dirigido pelos irmãos Coen, começo a sentir pena de Larry Gopnik (Stuhlbarg), o protagonista deste novo filme. Pode ser uma mistura de pena com irritação, pois ele aceita tudo o que acontece com ele tão facilmente (e isso deve ser colocado na conta do ator Michael Stuhlbarg, que faz uma excelente atuação). Em nenhum momento, o espectador consegue sentir empatia pelo professor de Física que vê a sua vida desmoronando a partir do momento em que a sua esposa decide deixá-lo. De imaginar que tudo isso começou com o fato do seu irmão estar morando em sua casa, desestabilizando completamente o lar. Entretanto, se fosse somente isso era bem possível que Larry conseguisse sobreviver. O problema é que a sua vida começou a sofrer mudanças inesperadas.

Um Homem Sério trata destes problemas. Ambientado na década de 60, ele narra a vida de Larry e o seu esforço para manter a sua família, ou para manter-se. Com dois filhos adolescentes, que estão em uma fase de descobertas e de novas experiências, além de ter que se preparar para um divórcio doloroso, ele ainda precisa se preocupar com os problemas mentais sofridos pelo seu irmão. E tudo isso é contado tendo a religião judaica como pano-de-fundo, apenas para mostrar as ideologias e os príncipios dos seus personagens, definindo as suas ações e os seus atos. Larry, como ele próprio diz, queria ser apenas um homem que pudesse cuidar bem da sua família, dar uma boa educação para os seus filhos e ser um bom marido. Mas isso foi querer demais (e nem sempre o “querer” é “poder”).

Estas comédias de humor-negro dos irmãos Coen sempre buscam personagens complexos. Na realidade, toda a filmografia deles é baseada neste quesito ou na ambientação da trama no centro-oeste americano (região onde eles cresceram). Em Fargo, perceba as reviravoltas que a trama tem com as ações de Jerry, sendo o protagonista e o antagonista da história. O mesmo aconteceu depois com E aí, meu Irmão, Cadê Você?, O Amor Custa Caro e Queime Depois de Ler. Nem sempre eles conseguem obter êxito neste quesito, mas são filmes que possuem a marca registrado dos irmãos Coen, seja pela narrativa, seja pelo jeito de filmar e, mais ainda, pelo roteiro, os sotaques e pela construção da complexidade dos personagens. Mais do que narrar histórias que possam causar inquietação, como foi o caso em Onde os Fracos Não Têm Vez, Joel e Ethan procuram personas que possam deixar um efeito em seu espectador.

É exatamente o que eles alcançam com Larry Gopnik. Passando pelo divórcio, sendo judeu e tentando entender o que estava acontecendo com a sua vida, ele começa a pedir conselhos para diferentes rabinos. Em cada um, ele ouve uma história diferente. Talvez ensinamentos, mas que nunca conseguem lhe ajudar. Após isso, ele passa a ter pesadelos que parecem com a realidade em que ele está inserido, além de perceber que o seu dinheiro não está dando mais para continuar vivendo daquela forma. E todo o humor surge, de verdade, com as reviravoltas absurdas que os irmãos Coen vão inserindo no seu filme. A fotografia de Roger Deakins, que também trabalhou com eles no filme Onde os Fracos Não Têm Vez, atinge bons momentos em algumas cenas. Não apenas pela iluminação e estilo sessentista, mas por características estéticas que se tornaram autorais dos Coen.

Ainda assim, Um Homem Sério peca por não conseguir se segurar exatamentes nestes dramas enfrentados por Jerry, e também pelas situações cômicas que o roteiro acaba o colocando, juntamente com toda a sua família. O filme se torna cansativo em um determinado momento, faltando um determinado sentimentalismo capaz de mover todas estas ações. A verdade é que Um Homem Sério é uma obra regular, mas que não contagia o seu espectador. Ele não provoca grandes reviravoltas, se mantendo linear durante o todo o tempo. Isso talvez possa deixar o espectador desconfortável, por perceber que a narrativa (apesar de tentar mudar e moldando o filme com o tempo), simplesmente não sai do lugar e se torna repetitiva.

Por outro lado, é de se aplaudir a belíssima atuação de Michael Stuhlbarg. Criando um personagen cujas complexidades vão aparecendo conforme o passar da projeção, ele consegue expôr as suas dúvidas e a sua tristeza de maneira simples, sem apelar para uma atuação que alcance pontos de muita dramaticidade. Ao contrário da narrativa, ele não se mostra uma pessoa exatamente linear. Quanto mais o filme passa, mais vemos a maneira insuportável com que ele não consegue suportar tudo o que estava acontecendo. Isso pode ser percebido pelas vezes que ele chega em sua sala para trabalhar. Se no primeiro momento ele cumprimentava a sua secretária, com o tempo ele passa a entrar e não querer atender nenhuma ligação, perdendo a calma que tinha antes.

Os irmãos Coen são excelentes diretores e também roteiristas. Na realidade, eles são provocadores. Como em qualquer obra deles, até hoje, poucas são as que apresentam um final “fechado”. E esta não poderia ser diferente: apresentando um encerramento que coloca em dúvida o que poderia ter acontecido depois, os dois deixam o espectador curioso e pensativo sobre o que se vê na tela antes de subir os créditos. Mesmo assim, Um Homem Sério não é um dos grandes filmes dos Coen capaz de nos fazer entrar em grandes discussões acerca daquilo que foi mostrado. Pelo contrário, ainda contando com personagens complexos e boas cenas, Um Homem Sério parece apresentar uma história relativamente rasa, que não consegue se sustentar durante todo o tempo da projeção. Tirando os problemas, o filme apresenta marcas registradas dos irmãos Coen: direção cuidadosa, tiradas sarcásticas e irônicas e um humor refinado e sutil. Este é o cinema dos Coen, ainda que irregular.

Cotação: ★★☆☆☆

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