Dirigido por Nicolas Winding Refn. Com: Ryan Gosling, Carey Mulligan, Bryan Cranston, Albert Brooks, Ron Perlmann, Christina Hendricks e Oscar Isaac. (idem, 2011)

Às vezes fico bastante tempo sem postar aqui no blog, deixando ele meio esquecido e fora dos “holofotes”. É bem verdade que, neste período, precisei cuidar do meu outro espaço (o Louco por Séries). Isso tomou praticamente todo o meu tempo, já que eu não conseguia manter os dois blogs funcionando perfeitamente. Acredito que isso seja impossível nos dias de hoje, com tantas coisas para serem feitas ao mesmo tempo e tendo “apenas” 24 horas para resolvê-las. Só mesmo Jack Bauer consegue.

Em alguns outros momentos deste blog, o Sob a Minha Lente ficou bastante tempo sem uma postagem sequer. Ele passou por repaginações ao longo dos anos para que, entre outros motivos, pudesse me dar novamente vontade de postar nele. Dentre os motivos principais estão os filmes, logicamente, que eu assisto. Há tempos que não me empolgo com nenhuma produção, um problema que foi resolvido ao assistir Drive, filme que deu ao diretor Nicolas Winding Refn o prêmio de Melhor Direção no Festival de Cannes deste ano.

Na tevê, tem sido comum os canais fechados apostarem em anti-heróis. Veja, por exemplo, o caso de Dexter ou  de Walter na série Breaking Bad. São personagens tidos como heróis e protagonistas em suas respectivas histórias, mas guardam dentro de si ações que, dentro da convenção social, não são dignos de heróis. Que tipo de herói mata uma pessoa para apenas saciar o seu desejo de matar? Que tipo de pessoa trafica cocaína porque está com um câncer terminal e tem poucos meses de vida, colocando a família em risco?

Drive se encaixa neste panorama ao apresentar o Motorista (Gosling) que ganha a vida como dublê, mas que tem um outro trabalho que consiste em ser o motorista de ladrões que desejam fugir dos locais que roubam. O Motorista não quer saber o que vai ser roubado ou quem está contratando os serviços. Ele quer apenas fazer a sua parte e voltar para casa.

Sob a tutela do personagem não ter um nome, rememorando os filmes de Sergio Leone da década de 70, o diretor Nicolas Winding Refn faz um trabalho de direção interessante com o ator Ryan Gosling. Este pouco fala durante toda a película. Enquanto isso, o diretor mantém um mistério em torno do seu personagem, que nem mesmo o seu mentor Shannon (Cranston) sabe exatamente quem é. As coisas ficam realmente difíceis quando o Motorista se apaixona por Irene (Mulligan) e se envolve, além disso, com mafiosos liderados por Bernie Rose (Brooks) e Nino (Perlman).

Baseado no livro do americano James Sallis, o argumento de Drive poderia dar errado ao contar uma história que, aparentemente, não levaria a lugar nenhum. O interessante é que o roteiro oferece reviravoltas que prendem a atenção do espectador. A começar pela interpretação de Ryan Gosling, cuja mudanças de comportamento representam um importante estudo do filme. Perceba como o seu olhar muda quando ele está na companhia de Irene, sendo um homem mais solto, mais falante e dando mais risadas. Ao contrário disso, na cena do hotel e do elevador, ele mostra a sua outra face, de um homem frio, calculista e selvagem.

O diretor Nicolas Winding Refn, aliás, cria um bom ambiente para o seu filme ao perceber que o seu protagonista não tem nome. Ao invés de entregar uma roupagem atual, ele parece ambientar a sua película na década de 80 ao contar com o importante trabalho do compositor Cliff Martinez. Ele entrega uma trilha sonora oitentista, cheio de hits e que dá um tom antigo ao filme (ainda que ele seja extremamente contemporâneo). A fotografia de Newton Thomas Sigel também ampara esta ambientação com cores frias que remetem ao personagem.

E se a direção acerta na maneira como conduz e enquadra o seu personagem motorista, ela também sustenta um clima de claustrofobia ao trazer algumas cenas em stop-motion – ou outras em close-up. Esteticamente, Drive é um filme cheio de artimanhas interessantes que estão a serviço da história. A violência, que até lembra os filmes de Quentin Tarantino, dão um toque grotesco a um roteiro que não tem vergonha alguma de mostrar o lado sombrio do seu personagem.

Rating: 4 estrelas


Dirigido por Rupert Wyatt. Com: James Franco, Freida Pinto, Andy Serkis, John Lithgow, Brian Cox, Tom Felton, David Oyelowo, Tyler Labine e Jamie Harris. (The rise of Planet of the Apes, 2011).

Durante grande parte do filme, fiquei também prestando muita atenção às manifestações da plateia. Entre gritos e suspiros de espantos, pude perceber que eles, assim como eu, estavam torcendo para a revolução dos macacos. E olha que somos seres humanos. Esta manifestação não é tão difícil de explicar, mesmo porque, é comum ficarmos do lado oprimido. Mas o nosso fascínio por isso vem mesmo dos nossos ideiais, do que entendemos como certo e errado. Ainda assim, ao mesmo tempo em que vemos os macacos sendo testados, são por causa deles que a humanidade parece estar bem próxima de uma cura para o Mal de Alzheimer.

Will Rodman (Franco) é um biológo de destaque dentro da empresa onde trabalha. Nos seus experimentos, ele tenta achar uma cura para o Mal de Alzheimer enquanto é financiado por Steven Jacobs (Oyelowo), o homem que detém o dinheiro e que só pensa em se tornar ainda mais poderoso nem que pra isso macacos sejam sacrificados para que o seu experimento possa dar certo. Os testes começam em uma chimpanzé fêmea que, grávida, tenta proteger o seu filho com medo de que ele seja tomado dela. No entanto, o código genético que vinha sendo implantado nela é passado para o filhote que possui uma inteligência fora do comum. Para protegê-lo, Will o leva para sua casa e o cria como um animal de estimação.

O chimpanzé Cesar (Serkis) vai crescendo aos poucos e Will começa a testar o seu experimento em seu pai Charles (Lithgow) usando a droga que estava criando. Os testes dão certo e ele vê que está muito próximo da cura.  Planeta dos Macacos: A Origem começa a sua bela história com este conto, mostrando a evolução de Cesar ao passar dos anos.

E em uma determinada passagem, para expressar isso, o diretor Rupert Wyatt realiza uma “elipse” interessante para mostrar a passagem do tempo à medida em que vemos as expressões de Cesar também mudarem.

Durante todo o filme, aliás, Wyatt sempre está à procura do olhar de Cesar, das suas expressões, dos seus sentimentos. E é isso que faz com que o personagem criado por Andy Serkis seja tão fascinante. Não adianta apenas colocá-lo como um ser evoluído dentro da sua própria espécie. E Cesar percebe isso quando é “abandonado” por Will, pois ele não conseguia mais deixá-lo vivendo na sua casa. Ao mesmo tempo em que ele desejava voltar para casa novamente, Cesar também compreendia que ele tinha finalmente encontrado o seu lar na companhia de outros macacos.

É contra o fato de estarem presos que ele organiza uma revolução e passa a ser o líder. E é importante a incursão que o roteiro escrito por Rick Jaffa e Amanda Silver fazem para mostrar realmente a “origem” daquilo, como eles chegaram naquele ponto.

Os humanos estavam tão preocupados em desenvolver a cura para uma doença terrível, que desmereceram a inteligência e os danos que a droga estava causando nos animais. Will percebe isso tarde demais, quando o dinheiro de Jacobs já não tinha mais como impedir o que seria inevitável em seguida: uma invasão de chimpanzés nervosos na cidade de São Francisco em busca da paz e da sua casa.

Ao contrário do filme dirigido por Tim Burton e lançado em 2001, Wyatt dão mais humanidade aos macacos ao mostrar os seus sentimentos, os seus rituais de liderança na tribo, etc. E o talento de Andy Serkis ajuda neste sentido, uma vez que o filme é totalmente calcado nas suas expressões até o momento em que ele fala pela primeira vez. E também pela primeira vez, Wyatt o filme de uma maneira que o torna grande perante os outros, mostrando a sua importância dentro do bando a partir de algo que o diferencia dos demais: ele fala.

Além de filmar com competência estas manifestações de sentimento, o diretor também se mostra competente e seguro nas cenas de ação. Sem apelar para grandes explosões, ele realiza sequências ágeis ao mostrar, por exemplo, os macacos pulando de galho em galho e, em contrapartida, ele mostra também o desespero dos seres humanos ao sentirem o seu mundo sendo invadido por eles.

A trilha sonora assinada por Patrick Doyle (Harry Potter – E o Cálice de Fogo) é um outro elemento que se destaca no filme, entregando momentos de suspense, outros com teor mais dramático e orquestrando as cenas de ação com a mesma agilidade e intensidade das suas filmagens.

Enquanto isso, um dos componentes da equipe de Will é infectado com a droga e passa a sofrer efeitos que vão destruindo o seu corpo. Sem ter uma cura, ele ainda passa a infecção para o vizinho de Will e isso pode desencadear em um vírus desenfreado “andando” no meio dos humanos.

No ano em que X-Men: A Origem rompeu todas as expectativas – e até preconceitos – do público ao apresentar o início da história de maneira em que se é possível até mesmo esquecer os três primeiros filmes sobre os mutantes, Planeta dos Macacos: A Origem é outra surpresa que Hollywood entrega neste ano. E ele também nos faz esquecer aquele péssimo filme dirigido por Tim Burton e lançado em 2001.

Dez anos depois, os macacos voltam às telas do cinema com uma história humana e fascinante.  E a indústria cinematográficia se pergunta se a Academia deveria reconhecer o trabalho de Andy Serkis indicando ao Oscar.

“A Revolução dos Bichos”, de George Orwell, é uma interessante fábula sobre o poder. No livro ele diz que “na luta contra o Homem não devemos ser como ele. Animal nenhum deve morar em casas, dormir em camas, nem usar roupas, etc. Todos os animais são iguais”. A história narra a insurreição dos animais de uma granja contra os seus donos. E nesta fábula, Orwell declara os pensamentos dos animais em sentirem a necessidade de terem o controle das suas vidas, acabando contra a tirania dos homens, lutando contra o egoísmo e a falta de liberdade.

O texto de “A Revolução dos Bichos”, lançado em 1945 no meio da Segunda Guerra Mundial, pode parecer visionário. Mas ele pode ter sido uma das influências para a fascinante história de composição da personalidade dos personagens neste Planeta dos Macacos: A Origem.

[rating: 5/5]

Dirigido por Glen Ficarra e John Requa. Com: Steve Carell, Ryan Gosling, Julianne Moore, Emma Stone, Marisa Tomei e Kevin Bacon. (Crazy Stupid Love, 2011).

Amor à Toda Prova é um filme no qual você torce para que ele acabe logo. E o pior é que, quanto mais você torce, a sua sensação de que ele nunca termina vai aumentando. E, acredite, isso dá uma agonia horrível enquanto se está sentado na poltrona do cinema. Com um elenco recheado de grandes estrelas, e dirigido pela dupla Glen Ficarra e John Requa, Amor à Toda Prova faz de tudo para desconstruir os relacionamentos amorosos. E, ao mesmo tempo em que faz isso, ele também consegue fazer de tudo para que seus personagens possam ficar juntos e viver para sempre.

Cal (Carell) está casado há 25 anos com Emily (Moore) e constituiu uma família com ela ao longo de sua vida. Mas ele é pego de surpresa com a decisão da esposa de pedir o divórcio depois dela contar que teve um rápido e, talvez, passageiro caso com o seu colega de trabalho David Lindhagen (Bacon), que ainda acredita na possibilidade deles ficarem juntos. Para afogar as mágoas, Cal vive indo em um bar e contando que virou “corno”. Os seus devaneios chamam a atenção de Jacob (Gosling), um rapaz conquistador que pretende ensinar a Cal como desenvolver (ou retomar) a sua virilidade para parar de sofrer.

Com uma história dessas, tudo que o roteiro escrito por Dan Fogelman faz é cair nos velhos clichês destes melodramas e nas obviedades dos aprendizados dos seus personagens. Jacob, por exemplo, vive uma vida que, para ele, é incrível: cada noite uma mulher diferente e, o melhor de tudo, ele tem dinheiro para fazer qualquer coisa. Mas quando Hannah (Stone) o despreza no bar, ele parece que fica apaixonado. E é mesmo ela quem vai mudar a sua visão de mundo, a sua concepção sobre o amor e, principalmente, tirá-lo da solidão em que estava. No caso de Cal, as mudanças começam com o estilo de roupa que veste e, além disso, Jacob o ensina a como “chegar” em uma mulher.

O maior problema de Amor à toda Prova é que tudo soa muito forçado. Por que realmente Jacob decide, “do nada”, simplesmente ensinar um desconhecido a galantear as mulheres? Qual o objetivo disso? Dizem que as pessoas fazem loucuras quando um relacionamento acaba, não é? Isso porque cada um quer mostrar para o seu antigo companheiro que eles estão bem sem o outro, que eles não estão sofrendo. E Fogelman realiza estas imersões em seu filme, mas ele desfaz completamente tudo para unir novamente a família que havia se dissipado no início da história.

Se a história fosse o único problema de Amor à Toda Prova seria até bom. O elenco do filme, apesar de tentar e se esforçar bastante, não consegue equilibrar o tom. Ora ele se caracteriza por aquela comédia boba (típica do recente Quero Matar o Meu Chefe), e ora ele parte para o drama. Mas em nenhum dos casos, os atores conseguem encontrar o tom perfeito dos seus personagens na história. No entanto, Jacob e Hannah propiciam boas cenas pois eles se mostram muito mais interessantes como personagens do que os outros que são apresentados.

E mais uma vez não consigo entender os elogios que tanto fazem para Steve Carrel. Ele não é um comediante (ou ator) empolgante, que consegue se sobressair nos filmes com o seu talento ou com o seu humor. Pelo contrário, apesar de ser o protagonista, ele por muitas vezes se comporta como coadjuvante enquanto que Ryan Gosling rouba a cena. Já Julianne Moore, em suas incursões na comédia, dificilmente consegue fugir daquela personagem que dá o tom dramático e exagerado para a história.

Talvez por isso Quero Matar o Meu Chefe, em comparação com o nível de bobagem e de cenas absurdas, consegue ser muito mais engraçado do que este Amor à Toda Prova. O filme passa a impressão de que está faltando alguma coisa para empolgar, para nos fazer mergulhar e rir com a história.

[rating: 1/5]

 

A Árvore da Vida

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ago 222011

Dirigido por Terrence Malick. Com: Brad Pitt, Sean Penn, Jessica Chastain, Hunter McCracken, Laramie Eppler, Tye Sheridan e Fiona Shaw. (The Tree of Life, 2011).

A Árvore da Vida, escrito e dirigido por Terrence Malick, é um desses filmes que, ao sair do cinema, você está cheio de questionamentos e tentando entender aquilo que o diretor quis dizer. A discussão em torno das imagens do filme surgem desta forma, já que elas suscitam que o espectador queira respostas para os porquês que ele está vendo. Malick toca em um ponto complexo que é a vida. E possui uma visão que é sustentada por questões filosóficas que giram em torno de dois elementos principais: o estado de graça e o estado de natureza. Terrence Malick, então, desdobra estas complexidades desde a vida como ela é concebida até a questão que envolve a sua finitude que se dá quando morremos.

O Sr. O’Brien (Brad Pitt) e a sua mulher (Jessica Chastain) moram em uma cidadezinha do Texas – onde Malick fora criado quando criança. Aos poucos eles constituem uma família com a chegada dos dois filhos. Ele é um pai durão, conservador, exigente, arrogante e que o corte de cabelo militar já transmite uma aura mais durona. Para Malick, ele é o estado da Natureza que pensa somente em si mesmo, querendo com que todas as coisas ao seu redor funcionem da forma como ele quer. A mãe, Sra. O’Brien, já apresenta como um outro contraste para a história. Ela representa o estado de graça, sendo uma pessoa muito mais leve e que sabe educar os seus filhos deixando-os de maneira livre e com responsabilidade. Ela é o oposto do marido, uma mulher carinhosa e que brinca com as crianças na grama da sua casa de maneira muito mais alegre.

E isso fica claro na cena em que vemos a maneira como cada um dos pais acordam os seus filhos. A mãe é sempre mais carinhosa e brincalhona ao jogar gelo dentro da roupa de um dos meninos, ou ao abrir a cortina para deixar o sol entrar. Enquanto isso, o pai tem um jeito muito mais rigoroso. O negócio dele é acordar os meninos com tapas e fazê-los levantar da cama o mais rápido possível. Por isso que quando o pai deles viaja, os três (os dois filhos e a mãe) se sentem muito mais à vontade e correm e brincam pela casa, coisas que eles nunca fariam se o pai estivesse por perto.

Sobre estas questões envolvendo o pai, o garoto Jack vive se questionando para Deus. Ele se pergunta se Deus não pode fazer o seu pai ir embora ou se Ele não o mata. E também se questiona sobre a questão que envolve o fato de Deus criar vidas. Jack se pergunta como é possível alguém ter o poder de  dar a vida, mas também  possuir o poder de tirá-la. Que tipo de Deus é esse, pergunta ele. Neste caso, por que então ele deve lutar para ser bom e justo se isso não vai adiantar? Porque Jack sabe, ao ver um amigo morrer afogado, que vai existir uma hora em que Deus (ou alguma outra força) vai tirar a sua vida e ele vai morrer.

Terrence Malick concentra a sua narração em determinados momentos na figura de Jack, o filho mais velho e que aparece adulto na figura de Sean Penn. Ele luta para não ser como o pai e, principalmente, tentar fazer tudo aquiloque ele manda. Por outro lado, Jack sente ciúmes do irmão mais novo por ele conseguir agradar muito mais o seu pai e ter nascido com as mesmas raízes artísticas que ele. O’Brien gosta de tocar piano e ouvir música clássica, enquanto que o filho mais novo vive tocando violão e fazendo desenhos. Jack não tem esses dotes e, por isso, ele tenta encontrar segurança e resguardo na figura da sua mãe, que lhe dá o suporte que é renegado pelo seu pai.

Para filmar toda esta questão familiar que envolve a construção da vida, Terrence Malick transforma o seu filme em um verdadeiro espetáculo visual. Por vezes, este mesmo espetáculo no qual ele imerge a sua narrativa por entre belas imagens acaba sendo desnecessário. Mesmo porque, a mesma complexidade que torna o seu filme incrível quando vemos a vida da família O’Brien, as cenas entoadas pela trilha sonora de Alexandre Desplat quebram o ritmo da história e acendem uma discusão que, apesar de ser importante ao tratar dos estudos de Aristóteles sobre a natureza e a Biologia das coisas, se torna assim mais um assunto a ser tratado em um roteiro que já é extremamente complexo.

Até porque, além da questão envolvendo os pensamentos de Aristóteles, o filme ainda traça em seu início uma citação muito importante do Livro de Jó que norteia a narrativa. Jó foi um homem que sofreu bastante e vivia se questionando para Deus. Será que existe alguma possibilidade de Jó ter alguma relação com Jack? Esta, aliás, é uma pergunta que me fiz bastante depois que assisti o filme, principalmente porque quando Jack aparece adulto ele aparenta ser um homem melancólico e que não conseguiu superar o seu passado e a infância que teve.

Ao construir esta narrativa no começo com a citação de Jó, Malick também guarda em seu roteiro determinadas passagens que lembram os pensamentos filosóficos de Santo Agostinho, que leva em consideração a psicologia e o conhecimento da natureza. Por outro lado, para ele nada era mais importante que a Fé em Jesus e em Deus. E Malick me parece ser como Santo Agostinho, já que ele dá uma visão cristã para o que significa a vida. Ainda assim, ele também apresenta questões que constituíram o darwinismo, que podem ser vistas nas cenas em que vemos o aparecimento dos dinossauros.

O diretor Terrence Malick é um homem calcado nestas questões filosóficas. O seu filme, “Além da Linha Vermelha” (1998), traz uma reflexão dentro da guerra, no conflito armado com o inimigo em um campo de batalha. Já ali, o olhar de Malick não estava voltando para entender a guerra e os seus motivos, mas compreender a Natureza humana estando em um conflito como aquele. De maneira metafísica, é como se Malick estivesse tentando inserir o Homem na Natureza, fazendo-o se relacionar com todas as coisas que ela tem pra oferecer. A Árvore da Vida e Além da Linha Vermelha dialogam por serem filmes que se preocupam em mostrar a condição existencial dos seus personagens, e o peso das suas decisões.

Saindo do relato de indíviduos que estão inseridos na guerra, como é o caso de Além da Linha Vermelha, e passando para compreender o significado da vida, Malick ora se mostra experimental em A Árvore da Vida com uma câmera que parece ter tendências a ser antropológica, como se estivesse ali para registrar a experiência de uma família aprendendo a ser uma família. Por outro lado, o diretor se mostra bastante competente ao fazer o espectador mergulhar naquilo que os seus personagens estão vivendo. É por isso que quando ele mostra um dos meninos aprendendo a subir as escadas, a sua câmera também vai subindo os degraus – o que aproxima o espectador das experiências vividas por eles.

O fato de terem sido lançados tão próximos um do outro, fazem de Melancholia e A Árvore da Vida filmes que possuem algum diálogo entre eles mesmos. Alguns podem achar que pensam como Lars Von Trier, outros podem acreditar mais nas ideias de Terrence Malick. Enquanto Lars Von Trier traça um constraste sobre a finitude da vida e o medo de morrer da irmã de Justine por conta do planeta “Melancholia”, Justine aceita a sua morte como algo normal que em algum momento deveria acontecer. Em A Árvore da Vida, Malick tem uma visão muito mais religiosa ao explicar que, sendo justo ou não, Deus tem o poder de dar e de tirar a vida das pessoas.

Dificilmente a discusão em torno deste filme vai terminar por aqui. Ao longo dos anos e dos tempos, teorias e discussões filosóficas acerca da história serão retomadas. A Árvore da Vida, que possui fantásticas imagens, contempla em seu roteiro duas questão inerentes a todos nós, seres humanos: a vida e a morte. Na escola, sempre aprendemos que nascemos, vivemos e morremos. Malick pensa exatamente desta forma, mas coloca os seus personagens para questionar sobre isso. E nem sempre eles entendem os seus porquês, sabendo apenas que isto faz parte da natureza. Assim como é possível achar lindo e magnífico a maneira como as pessoas são concebidas, também achamos terrível e trágico como elas também deixam este mundo e passam para outro lugar.

A Árvore da Vida trata destas questões e, depois de tê-lo visto, nos faz questionar também assim como os seus próprios personagens, que começa com a inocência de uma criança e termina com a desilusão da vida adulta.

[rating: 5/5]


Dirigido por J.J Abrams. Com: Joel Courtney, Kyle Chandler, Elle Fanning, Riley Griffiths, Ryan Lee, Gabriel Basso, Zach Mills e Noah Emmerich. (idem, 2011).

Em um determinado momento enquanto assistia Super 8, novo filme dirigido e escrito por J.J Abrams (Lost, Star Trek e Missão: Impossível 3), me deu uma certa nostalgia ao lembrar da minha infância. Naquele tempo, me recordo de ter visto filmes como Os Goonies (1985), E.T (1982), entre outros. Era o espírito nostálgico de ver adolescentes se reunindo para viverem a aventura de suas vidas e se tornarem heróis. Quantas vezes eu, adolescente, não desejei ter algum grupo de amigos como em Os Goonies? Quantas vezes não sonhei em ter walkie-talkie para comunicar com os meus amigos e “fazer de conta” que estávamos em algum desses filmes vivendo aquela aventura? J.J Abrams parece ter sonhado tanto com isso em sua infância, que resolveu colocar na tela a sua versão daquela aventura.

Super 8 conta a história de quatros amigos que se juntam para fazer um curta-metragem filmado com uma câmera “super 8″. Joe (Courtney) é o filho do delegado Jack (Chandler), que, após quatro meses da morte da sua mãe, os dois tentam seguir adiante com a vida. Charles (Griffiths) é o idealizador de toda a história do curta que é centrada em eventos sobrenaturais envolvendo zumbis, tendo um detetive que tenta solucionar o caso. Cary (Martin) e Martin (Basso) são os outros amigos que também fazem parte do grupo e contribuem no filme. Alice (Fanning) entra no curta porque Charles é apaixonado por ele mas, na realidade, Alice gosta mesmo é de Joe (assim como ele).

Em uma maravilhosa sequência, com efeitos especiais incríveis, J.J Abrams começa realmente a história de Super 8 ao mostrar o acidente com o trem desgovernado que acaba desencadeando uma série de ocorrências sobrenaturais na pequena cidade Lillian. Pessoas começam a desaparecer, cachorros começam a sumir e outras coisas estranham deixam todos apavorados. Os garotos que estavam filmando o curta-metragem presenciam o acidente que, desde o início, é bastante misterioso. Assim, eles tentam desvendar uma trama secreta que envolve agentes do governo americano e uma criatura sobrenatural desconhecida.

Aquele ar nostálgico que é possível sentir logo nos minutos inciais do filme não são por mero acaso. J.J Abrams já confessou por diversas vezes ser fã de Steven Spielberg (que atua como produtor de Super 8). Sem deixar de soar como uma piada por conta do aspecto sobrenatural do filme, mas Spielberg até parece um fantasma neste sentido. Pra começar, Super 8 tem todas as características de Os Goonies, outra produção de Steven Spielberg. O filme mostra a união de garotos em uma missão heróica e, simplesmente, marcou aquela geração das décadas  de 80 e 90 (por passar tanto na “Sessão da Tarde”). Além disso, Super 8 também procurou referências em E.T – O Extraterrestre, ao mostrar a vida alienígena sob o olhar dos adolescentes.

Recursos de filmagem e narração utilizados por Steven Spielberg em algumas das suas produções também foram reaproveitados aqui por J. J Abrams. Como é o caso de Tubarão, quando Spielberg nunca mostra realmente o tubarão. Naquela ocasião, ele precisou criar este efeito pois a máquina havia dado defeito. E o resultado foi um dos melhores filmes do diretor, que soube criar uma tensão durante todo o filme com este recurso. O monstro sobrenatural de Super 8 também é pouco mostrado, mas existe uma certa pressa no roteiro escrito por J.J Abrams para solucionar logo os mistérios criados por ele mesmo. Esta pressa, assim como as referências usadas por ele, quebram a inventividade da sua história, pois acaba frustrando qualquer expectador que espere algo mais deste misterioso filme.

Se J.J Abrams peca por rapidez e por utilizar tantas influências (fazendo quase que uma homenagem à Steven Spielberg), não dá pra desconsiderar o quanto ele é um bom diretor. Sem utilizar aquela câmera frenética que ele deixou se caracterizar em Missão: Impossível 3, aqui em Super 8 ele filma com planos mais estáticos e, em alguns momentos, com a câmera colocada exatamente da mesma altura dos adolescentes (um recurso utilizado por Spielberg em E.T – O Extraterrestre). Ainda que esta técnica não seja repetida em muitas cenas, Abrams não realiza uma edição mais ágil e frenética, o que é uma decisão acertada da sua parte ao trabalhar dentro da ficção científica de uma maneira mais contemplativa em determinados momentos.

O mistério do filme pode soar superficial e não muito instigante, mas a verdade é que a magia de Super 8 não está em seus mistérios. Na realidade, talvez J.J Abrams quisesse que estivesse. Assim, ele poderia se vangloriar dizendo que havia criado uma outra história misteriosa e os seus fãs já estariam por aí dizendo que ele era o “mestre do mistério”. O que realmente Super 8 tem de bom está no grupo de amigos e, principalmente, na aventura que eles vivem para, além de filmarem o curta-metragem que tanto desejam, também salvarem o condado de onde vivem e finalmente libertarem a criatura sobrenatural que só tem um desejo: voltar pra casa.

Apesar de J.J Abrams tentar apelar para um romantismo desnecessário ao final do filme, a trilha sonora de Michael Giachinno mais uma vez é um elemento de incrível destaque. Impressionante a sua capacidade de transitar em diversos gêneros, desde a animação até o suspense. Mesmo que a sua trilha não ocasionalmente crie o suspense que talvez Super 8 merecesse (e a culpa não é só dele neste sentido), Giachinno compõe uma trilha que conduz de maneira equilibrada as sequências de ação, como também os momentos que necessitam de maior apelo dramático.

Super 8 pode ser um filme frustrante, principalmente sobre o seu mistério. Mas a nostalgia que este filme de J.J Abrams causou conseguiu compensar qualquer frustração. Aqueles elementos que lembro-me de ter visto em filmes que passavam na Sessão da Tarde, ou no Cinema em Casa, me levou diretamente para a minha adolescência, quando eu chegava do colégio e, logo em seguida, já deitava no sofá para ver alguns desses filmes. E Super 8 tem esse poder de nostalgia para o próprio J.J Abrams, que deve ter crescido assistindo estas histórias e venerando Steven Spielberg.

[rating: 3/5]

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