Archive for the 'Cinema' Category

Mercenários, Os

terça-feira, agosto 17th, 2010

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Dirigido por Sylvester Stallone. Com: Sylvester Stallone, Jason Statham, Jet Li, Dolph Lundgren, Eric Roberts, David Zayas, Giselle Itié, Gary Daniels e Mickey Rourke. (The Expendables, 2010)

O primeiro passo importante para assistir Os Mercenários é que o próprio filme não se leva a sério. Dirigido por Sylvester Stallone, o ator dos clássicos de ação como Rambo, Cobra, dentre outros, aproveitou esta produção para reunir os maiores astros deste gênero da última década. A história é o que menos importa. Stallone se propõe a fazer um resgate da construção de um gênero que, em sua forma mais pura, pode até ter andado meio perdido (o que, para muitos, pode não ser uma verdade). Em meio a esta reunião da “trupe da pancadaria”, a proposta de Stallone para quem está assistindo é apenas de fazer uma homenagem aos filmes de ação das décadas de 80 e 90. Com os clichês de sempre e as pirotecnias criadas por Hollywood, Os Mercenários causou burburinho apenas pelas declarações do seu diretor sobre a experiência de ter filmado no Brasil.

A história pode não ser importante, mas ela é necessária como pretexto para as explosões e perseguições que se vê no filme. Barney Ross (Stallone) ganha a vida matando pessoas e monta uma equipe para aceitar uma oferta de trabalho do agente do governo americano (aqui interpretado por Bruce Willis, que faz pequenas aparições ao longo do filme). Assim, Barney reúne o que de melhor se poderia existir em termos de pancadaria. Cada um dos componentes tem uma determinada característica. Gunner (Lundgren) é o descontrolado da turma; Jet Li surge como o interesseiro; Lee (Strathaim) é o especialista em facas, enquanto que Mickey Rourke interpreta ele mesmo.

Toda esta equipe parte em uma missão para tentar derrubar um ditador em um país fictício da América Latina. Assim, eles conhecem Sandra (a brasileira Itié), que faz o tipo de mulher sul-americana enxergada pelos americanos. Ela é uma revolucionária e surge como uma guerrilheira que tem o objetivo de defender o seu povo das mazelas do ditador (interpretado por David Zayas, da série Dexter). No entanto, Stallone não demonstra controle em relação às cenas que dirige. Com todo este elenco que, claramente, desfalcado de outros que preferiram não participar do projeto, o filme se torna vago. Mesmo assim, não é o seu objetivo apresentar um grande roteiro, inteligente e perspicaz. A produção é de puro entretenimento, divertido e até provoca algumas gargalhadas em quem assiste.

E o pretexto utilizado por Stallone é o fio condutor para começar a se explodir coisas, realizar pirotecnias com as cenas de ação que, de alguma forma, marcaram as décadas de 80 e 90. Quem não assistiu aos clássicos Cobra, Rambo, e mesmo Assassinos (no qual ele atuou ao lado de Antonio Banderas)? Aos seus parceiros, Jason Statham se caracterizou pelos filmes frenéticos de ação como Caos, Adrenalina, Carga Explosiva e outros que o definiram como um ator deste gênero. Jet Li com o seu Beijo do Dragão, O Confronto, dentre outros, também dá a sua contribuição para o filme de Stallone, que nada mais é do que uma mistura de todos estes filmes citados (e também de outros que não foram).

Ainda que o roteiro de Stallone não deva ser levado a sério, é impossível não criticar o fato das ações de Barney serem motivadas pela sua paixão por Sandra. Os dois não apresentam nenhum tipo de química no filme, fazendo aquele típico “casal sem graça”. Stallone já teve companhias melhores em suas produções explosivas (não desmerecendo a beleza de Giselle Itié). Porém, a maior das críticas é feita pelo próprio Stallone. Ao resgatar este gênero que ele ajudou, de alguma forma, a construir nos anos 80 e 90, ele parece dizer que as produções que são feitas atualmente não possuem a mesma qualidade daquelas do passado (sem contar dos atores aqui reunidos por ele sendo eles, na cabeça do Stallone, os verdadeiros responsáveis pelo gênero e pelo seu sucesso).

Não importa se o roteiro tem brechas, ou se Stallone conduz mal a direção do seu filme, ou se alguns diálogos surgem forçados, ou se o casal não tem química alguma. Nada disso vai fazer diferença para o espectador que deseja ver explosões, pancadarias, perseguições e muita zuada. Nesta proposta a que Os Mercenários tem como objetivo, Stallone consegue entregar um filme que cumpre esta promessa. Com as pontas de Arnold Schwarzenegger e Bruce Willis, o elenco cheio de estrelas parece ali todo reunido. Mas a sensível falta de Jean-Claude Van Damme é sentida, com certeza. Ele, que preferiu não participar do projeto, também faria estragos em meio às explosões programadas por Stallone.

Os Mercenários é engraçado em alguns momentos (até por ver toda esta trupe reunida para salvar o mundo, mesmo tendo que destruí-lo aqui e ali). Além disso, o filme também é uma homenagem para estes atores e, principalmente, para as produções de ação encabeçadas por eles. Dessa forma, não há muito o que se pedir ou analisar de um filme como este. Só resta assistir e se divertir.

Cotação: ★★☆☆☆

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Coração Louco

quarta-feira, agosto 11th, 2010

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Dirigido por Scott Cooper. Com: Jeff Bridges, Maggie Gyllenhaal, Robert Duvall James Keane, Paul Herman, Ryan Bingham, Colin Farrell, Tom Bower e Beth Grant. (Crazy Heart, 2009).

Crazy Heart é como uma canção. Sabe aquelas músicas folks em que se é cantada como sagas de heróis ou aventuras românticas? Pois bem, Crazy Heart se enquadra nesta categoria do folk, ou do country. Artistas como Bruce Springsteen, Elliott Smith, Bob Dylan, Peter Seeger, entre outros, criaram verdadeiras canções em que se pudesse retratar qualquer tipo de sentimento. As letras eram grandes, é verdade. Mas eles não perdiam tempo com repetições. Era quase um roteiro de cinema, orquestrado de tal maneira que fazia com que qualquer um se apaixonasse pelas canções. Tomando por esse lado, Crazy Heart é um filme suave e doce. Ainda que ele possa pecar por alguns erros de roteiro, o retrato do homem chamado Bad Blake (Bridges) é de se admirar, assim como a sua trajetória.

Bad Blake é um cantor de country que já teve dias melhores. Agora, ele vive tocando em bares para um público muito pequeno. Sem compôr músicas há muito tempo, ele continua cantando os clássicos. Porém, ele vive sendo pressionado pela gravadora (que chega a retirar os seus CDs das lojas) para gravar algo novo, gravar novas canções. Aparentemente, Bad segue a vida como ele gostaria. De bar em bar, de cidade em cidade, uma mulher aqui, outra ali. Entre garrafas de whisky, ele segue levando a sua música country. As coisas mudam quando ele conhece Jean (Gyllenhaal), uma jornalista da cidade de Santa Fé que aproveita a passagem de Bad Blake pelo local para realizar uma entrevista. Previsivelmente, os dois se apaixonam. A distãncia impõe dúvidas ao amor e, como se pode esperar, Blake estraga tudo.

O filme dirigido por Scott Cooper, baseado no romance escrito por Thomas Cobb, aponta exatamente para a linearidade. Todas as situações que vemos e são orquestradas por ele são previsíveis. Talvez este seja o maior dos erros que podem ser apontados em Crazy Heart. O vício na bebida iriam trazer mais do que consequências médicas ruins para Blake. Logicamente, ele só iria perceber isso quando algo realmente ruim acontecesse. Algo que pudesse mudar para sempre a sua vida. O filme mostra isso, depois segue com a sua redenção de querer se tornar sóbrio e, dando um salto no tempo, coloca o seu grande desafeto e pupilo Tommy Sweet (Farrell) cantando o seu mais novo sucesso, dando uma completa repagina e transformada em sua vasta carreira.

Não acredito que Crazy Heart esteve preocupado necessariamente com o lado estético do cinema. O filme prioriza a trajetória de Bad Blake, ou seja, a maneira como ele sai do limbo até chegar no ponto em que ele supera as suas desilusões amorosas, assim como o fato de não ter conhecido o seu único filho e participado do seu crescimento. Todas estas questões, dentro da cabeça de Bad, servem de bloqueio para que ele não conseguisse compôr. De certa forma, o filme traduz isso de maneira relativamente simples, mas ele começa a escrever novas músicas enquanto tenta recolocar a sua vida nos eixos. A trilha de Crazy Heart segue esta tendência, de letras que falam sobre o amor e sobre as inquietações de um “coração louco” (perdão pelo trocadilho).

O grande trunfo do filme é Jeff Bridges, como se poderia imaginar até mesmo pela estatueta e os prêmios que colecionou neste ano. Mas isso é verdade. A Academia fez justiça à sua intepretação. Ele é poético em alguns momentos, em outros ele se mostra completamente devastado. Não é uma interpretação de grande apelo dramático, mas Bridges compõe o seu personagem de uma maneira que deixa o espectador completamente envolvido pelos momentos ruins que ele passa no filme. O mesmo acontece com Maggie Gyllenhaal. Acho que ela tem potencial para se tornar ainda uma boa atriz, mas aqui ela está diferente das suas outras personagens, isto é, menos caricata e mais verdadeira nas suas atuações, inclusive em seus diálogos.

Crazy Heart é um filme feito para os amantes da música. É impossível esquecer as brechas do roteiro, com certeza. Um exemplo poderia ser o porquê do filme não ter explorado mais as desavenças que Bad tinha com o seu pupilo. De qualquer forma, as canções praticamente surgem como um elemento narrativo. Elas vão narrando o caminho de Bad, os desencontros que ele tem no caminho, a superação dos seus problemas até chegar em seu clímax. Interpretações marcantes e um filme que mostra a cultura da música country no estado do Texas, principalmente. Sou amante desse gênero, principalmente do folk. E, talvez por isso, sempre quando vejo Crazy Heart a vontade é de sair ouvindo estas músicas e não parar mais.

Cotação: ★★★☆☆

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O Mesmo Amor, a Mesma Chuva

segunda-feira, agosto 9th, 2010

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Dirigido por Juan José Campanella. Com: Ricardo Darín, Sollledad Villamil, Ulisses Dumont, Eduardo Blanco e Graciela Tennenbaum. (El Mismo Amor, La Misma Lluvia, 1999).

O Mesmo Amor, a Mesma Chuva pode ser considerado como um conto desses que se escreve relatando os momentos que a gente vive. Também poderia ser uma crônica, por que não? Afinal de contas, o filme dirigido pelo argentino Juan José Campanella contempla uma passagem de tempo importante na história da Argentina, além de ter um romance delicioso como trama principal. O conto e a crônica são dois estilos que se aproximam de uma novela chamada vida. E é sobre isso que se trata O Mesmo Amor, a Mesma Chuva. uma vez que o filme é o retrato de encontros e desencontros, dos medos e das oportunidades de se arriscar para conseguir chegar em um determinado lugar. O filme abriga duas décadas de história em que vemos a evolução dos seus personagens e, principalmente, o registro de grandes transformações políticas pelas quais a Argentina estava passando.

Jorge Pellegrine (Darín) é o fio condutor das idas e vindas que vemos no filme. Ele é um escritor de talento que publica contos em uma revista argentina. Por acaso, em um congestionamento, acaba conhecendo Laura (Villamil), que estava em um outro carro enquanto sentia a chuva cair em seu rosto de maneira tão delicada que fez com que Jorge se apaixonasse e ficasse maravilhado com aquele momento. Ela é uma jovem entusiasta e sensível, enquanto que ele não consegue mergulhar e vive amedrontado pelos receios de não ter dado certo no mercado literário. Tempos depois, os dois acabam se encontrando porque Laura é a atriz principal de uma peça teatral cujo roteiro é baseado em um dos contos escritos por Jorge. E, assim, surge um intenso relacionamento amoroso que dura pouco mais de um ano.

Neste período em que eles estiveram juntos, Jorge e Laura conviveram com o desgaste do namoro, com os problemas que surgem em qualquer relação amorosa e um caso de infidelidade causa o rompimento por completo. A partir disso, vemos a genialidade de Ricardo Darín em conseguir construir um personagem de maneira tão humana. Juan José Campanella acompanha Jorge em outros relacionamentos e em outras empreitadas na sua vida, mas a sua vida profissional frustrante e a morte do jornalista Mastornardi fazem com que ele não se sinta em paz consigo mesmo. Enquanto isso, Campanella segue a sua linha cronológica e mostra a guerra das Malvinas (o confronto da Argentina com a Inglaterra), a redemocratização do país, a chegada dos anos 90, o fracasso da presidência de Jorge Videla e a eleição de Raul Afonsín.

Juan José Campanella mostra um talento incrível porque, além de conseguir mostrar com inteligência a relação do tempo com o aspecto político e os desencontros e encontros de uma relação amorosa, ele consegue relacionar cada filme que dirige. O Mesmo Amor, a Mesma Chuva mostra estes conflitos políticos e chega até a eleição de Raul Alfonsín com os argentinos acreditando que finalmente tinham conseguido superar os problemas econômicos que causaram todos os problemas políticos que vieram com a ditadura militar. No entanto, a Argentina embarca nesta aventura que não dá certo. Em seguida, o país elege Carlos Menem e a frustração é tão grande que, em O Filho da Noiva, ela se torna um verdadeiro pesadelo. Dessa forma, fica claro o quanto o cinema argentino está ligado aos aspectos literários, mas também às transformações políticas vivenciadas pelo seu povo.

O diretor argentino ainda mistura o seu filme, recheado de ótimos diálogos, com um tom de amargura e esperança. O primeiro sentimento está presente em Jorge, que tenta uma carreira de crítico de cinema e teatro, mas sem sucesso. Cinco anos se passam e ele não tem sequer um encontro com Laura. Mesmo vivendo outros relacionamentos, ele percebe que foi com ela que ele realmente conseguiu ser feliz por algum momento. O seu medo de viver aquilo lhe custou caro. A esperança está no aspecto político do filme. Tendo uns insights interessantes dentro da história principal, é possível perceber a comemoração dos jornalistas dentro da revista quando o processo de redemocratização é iniciado. E esse é um marco do quanto eles estavam esperançosos de que as mudanças, finalmente, poderiam melhorar o país.

O romance entre Jorge e Laura é real e sem grandes conflitos fantasiosos. É o amor e a relação amorosa como ela exatamente é: cheia de idas e vindas, términos, recaídas, altos e baixos, acertos e erros. Além de ser um diretor excelente, Campanella sabe abordar as relações humanas como poucos. Ele traz a sinceridade para dentro das suas histórias e consegue fazer com que este sentimento possa ser transmitido para quem está assistindo. Os aspectos políticos e históricos servem como uma válvula para inserir o momento em que a trama passa e, mais do que isso, serve também como uma crítica que é feita de maneira tão inteligente que, em determinados momentos, pode passar até despercebido. Dono de uma sensibilidade impressionante, os atores Ricardo Darín e Solledad Villamil fazem um excelente trabalho de interpretação, conseguindo transformar os seus personagens conforme as mudanças políticas sofridas pelo tempo e pela história do filme.

Cotação: ★★★★☆

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A Origem

quinta-feira, agosto 5th, 2010

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Dirigido por Christopher Nolan. Com: Leonardo DiCaprio, Ellen Page, Marion Cotillard, Tom Hardy, Ken Watanabe, Cillian Murphy, Joseph Gordon-Levitt, Tom Berenger e Michael Caine. (Inception, 2010)

A Origem parece um projeto particular do diretor e roteirista Christopher Nolan. É como se ele tivesse se preparado durante dez anos para dirigir esta história. E tudo começa com Following, depois passa por Amnésia e chega em Insônia. A trinca contempla um assunto que inquieta o diretor: a mente humana. O sonho, para ele, é o momento mais inofensivo do ser humano. E talvez seja. Como controlar o sono e lembrar daquilo que sonhou? Por que acordamos assustados de alguns sonhos e radiantes em outros? Nolan propõe uma história baseada em um grupo de ladrões que utilizam um outro mecanismo para a espionagem industrial, invadindo os sonhos das pessoas para arrancar informações importantes. No roteiro de Nolan, não importa se o espectador acredita ou não na sua história. Para ele, basta apenas que cada um se sinta mergulhado em uma trama que funciona de maneira impressionante.

Dom Cobb (DiCaprio) é o melhor nesta nova amostragem da espionagem industrial. Ele sabe como nenhum outro arrancar as informações que qualquer pessoa precise do sonho de cada um. Porém, isso faz dele também um fugitivo da polícia e uma pessoa amargurada pelo passado por não ter conseguido cumprir com os seus objetivos. O roteiro de Nolan é inteligente em mostrar este drama do protagonista como algo que realmente faz parte da história. Os sonhos criados por Cobb e sua equipe poderiam ter perfeitos cenários se não fosse por esta amargura e culpa sentidas por ele. E quando a chance de se redimir por isso aparece bem na sua frente, ele não pensa duas vezes em aceitar um trabalho completamente arriscado: ao invés de invadir o sonho de alguém, a sua equipe teria agora que plantar uma ideia no subconsciente da pessoa. E, assim, a trama começa a ser planejada com uma inteligência capaz de levar o espectador a um estado de catarse e de completa euforia por aquilo que se vê na tela.

Em um sentido, o roteiro de Nolan é bem claro. A partir do momento em que Cobb aceita o trabalho, ele parte para formar a sua equipe. Assim, cada um dentro deste grupo possui funções bem definidas e o diretor faz questão de mostrar como os personagens cumprem estas funcionalidades dentro da história. Essa é a parte mais prática do roteiro, que se torna complexo conforme o tempo passa. Para plantar um sonho, era preciso construir uma outra realidade e passar por diversas camadas (se possível, até chegar no limbo) para que a missão fosse cumprida. Mesmo com uma trama extremamente complexa e que não obedece uma montagem narrativa linear – já que ela se caracteriza por idas e vindas o tempo inteiro, além de inserções de outros fatos –, Christopher Nolan não afunda apenas os seus personagens neste mundo “imaginário”, mas também o seu espectador.

O diretor não desafia a inteligência de quem assiste e não julga o entendimento deles. Ele não tem um personagem que está ali para desconstruir o universo que fora criado, muito menos um final que explique tudo o que aconteceu. Neste estado do subconsciente onde os segredos são roubados no estado mais vulnerável da mente humana, A Origem começa a ir cada vez mais fundo, passando por diversas camadas e criando universos paralelos que são divididos por intervalos de tempos diferentes. Em uma dada realidade, os minutos passam mais rápido. Se você estiver em uma camada abaixo, a sensação é de que os minutos se transformaram em horas, e assim sucessivamente. E o maior mérito do roteiro escrito por Christopher Nolan é o equilíbrio de conseguir fazer com que o seu filme funcione em diversos aspectos da trama, incluindo os dramas pessoais do personagem principal.

Em outras palavras, poderia dizer que A Origem é um thriller de ação muito bem construído. Mas também se encaixa perfeitamente em uma ficção científica ao trazer referências ao que foi feito em Matrix pelos irmãos Wachowski. Por outro lado, a jornada emocional de Cobb movimenta também o filme e a sua narrativa. Enquanto o seu grupo se prepara para o maior assalto de suas vidas e com sequências de ação que realmente são feitas de maneira fantástica, Cobb vive problemas interiores que ele não consegue lidar e que acabam atrapalhando o andamento das suas missões. Se existe um sonho que teria que ser inserido (daí o nome inception), existem outros sonhos (ou mundos) que são personificados e criados dentro da cabeça de Cobb. Em algum momento, eles entram em conflito e tudo começa a desmoronar (por isso a metáfora dos prédios desabando soa de maneira perfeita para o que  se vê durante o filme). Com isso, Nolan cria um visual intimista e cheio de experimentações em que as realidades esboçadas e criadas por ele parecem não ter limites.

Além disso, os elementos de A Origem possuem uma forte ligação com a história. A trilha sonora de Hans Zimmer, por exemplo, está completamente inserida na trama. A relação que foi feita entre a música criada pelo compositor alemão, e uma canção da francesa Edith Piaf está lá presente como um elemento significativo. A música de Piaf representa uma das formas de alerta para que seja possível despertar do sonho. Enquanto ela toca, a trilha de Hans Zimmer vai surgindo aos poucos e ganhando toques viscerais que podem ser comparados também à própria narrativa do filme. A Origem é pulsante, faz com que o espectador se torne também um personagem desta história ao trazer uma trama tangível. Acreditando ou não, todos nós sonhamos. É nesta máxima que o roteiro de Nolan está entrelaçado, partindo de um jogo investigativo para se chegar em um desfecho emocionante e, acima de tudo, surpreendente.

O resultado final de A Origem é o fato dele ser um filme empolgante. Assistir um longa-metragem no cinema envolve passar por uma experiência. E a obra de Christopher Nolan propõe exatamente isso: “deixa a sua mente se levar por aquilo que tá sendo mostrado porque iremos lhe conduzir a uma fantástica experiência”, parece ele dizendo a quem assiste. Excelentes efeitos visuais, um roteiro inteligente e a mistura perfeita entre a ação, que não para em nenhum momento, com trajetórias emocionais de personagens que possuem sentimentos e não são caricatos. A Origem é uma verdadeira experiência cinematográfica, desafiando a inteligência de quem assiste para também se deixar levar pela história que ele propõe contar. Acreditando ou não, o que vale é como as tramas são equilibradas e, principalmente, a maneira como elas realmente funcionam. A Origem é arrebatador, um thriller com uma jornada psicológica através dos sonhos criados pelo subconsciente do ser humano.

Cotação: ★★★★★

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Vincere

terça-feira, agosto 3rd, 2010

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Dirigido por Marco Bellochio. Com: Giovanna Mezzogiorno, Filippo Timi, Corrado Invernizzi, Fausto Russo Alesi, Michela Cescon, Paolo Pierobon e Fabrizio Costella. (idem, 2009).

Nestas biografias dos líderes mundiais e ditadores, existem muitas histórias que a própria História não chegou a relatar. Foi dessa forma que nasceu Vincere, novo filme do diretor italiano Marco Bellocchio, narrando fatos dos bastidores da vida de Benito Mussolini. Ida (Mezzogiorno) se apaixona por Benito (Timi) quando este ainda estava começando a sua carreira política. As cenas entre os dois são intensas, provocativas e relatam a força do amor dos dois. Aparentemente, parecia que ela seria a grande incentivadora de Benito porque, como o próprio filme deixa claro, ela chegou a vender tudo o que tinha para financiar o projeto de um jornal que Benito tinha naquela época. Contudo, Ida engravida, depois é abandonada e é enterrada em um hospício como louca para que a História nunca relate aquilo que ela queria que todo mundo soubesse: ela era mulher de Mussolini, líder do Fascismo, e foi abandonada juntamente com o seu filho.

Vincere, título de uma canção fascista, mostra o jovem Mussolini como um manifestante socilaista mas já com grande talento para convocar as massas. Os relatos da guerra vistos do filme de Bellocchio são todos traduzidos através do olhar de Ida Dalser enquanto ela lutava por sua liberdade, liberandosuas cartas nas ruas de Trento para que as pessoas conhecessem a sua história. Apesar disso, considero Vincere um filme supervalorizado no meio cinematográfico. Primeiro que a narrativa do cineasta italiano é extremamente arrastada em alguns momentos. Logo no início do filme, ele usa um estilo de narração que não leva em conta a ordem cronológica dos fatos (e isso é utilizado durante todo o filme). Nesta passagem inicial, a trama fica bastante confusa. Marco Bellocchio não deixa claro como o relacionamento dos dois começou e, neste ponto, o início do romance é completamente vago. Nos outros momentos, o fato de não seguir a cronologia não atrapalha como no começo.

Entretanto, Bellocchio acaba traduzindo o seu filme como uma grande Ópera. Praticamente todas as cenas são recheadas de muita trilha sonora. O visual da fotografia também é importante e faz com que o filme tenha cenas belíssimas. Em uma delas, quando Ida joga as cartas em meio à nevem que cai na cidade italiano de Trento, a fotografia mistura o preto do sanatório onde ela estava, com a resplandecência branca que se vê do lado de fora da prisão. O visual é bonito, arrebatador e representa muito bem como a “loucura” tinha realmente tomado conta de Ida. Em uma conversa com o psicológo, ele diz que todos naquela época do Fascismo precisavam ser mais atores do que seres humanos. Mas ela acabou renegando tudo isso, inclusive de ver o seu filho, para lutar pelo reconhecimento do líder italiano. Se foi uma decisão correta? Não há como julgar.

Vincere é bonito na sua fotografia e extraordinário na sua trilha sonora, mas o filme só funciona porque a atriz Giovanna Mezzogiorno e também do ator Fillipo Timi. Como casal, eles apresentam uma química impressionante e capazes de nos mostrar o tamanho da intensidade e do impacto que aquela paixão tinha na vida de cada um. No caso da italiano Mezzogiorno, sua atuação é de extrema melancolia. Para Timi, a sua figura é apenas expressiva enquanto interpreta o Benito jovem. Quando ele se torna um líder Fascista e aliado de Hitler na Segunda Guerra Mundial, o diretor italiano acaba preferindo (acertadamente) utilizar inserções de arquivos no meio do seu filme com os discursos que ele dava para o povo italiano. Além disso, Vincere também dá valor aos filmes fascistas que eram feitos na época em imagens que ajudavam a construir o mito que Mussolini se tornara.

O que fica claro em Vincere é o quanto a história que ele procura contar vai se tornando trágica. Também não poderia ser diferente: uma mulher trancada em um hospício, sendo “diagnosticada” como louca e longe do seu filho. Como isso não poderia se tornar trágico? A morte por fuzilamento de Mussolini em 1945, depois também a morte precoce do filho de Ida e a sua própria, só ilustram o quanto Vincere é movido pela tragicidade de uma Ópera, das mais tristes e injustas que se poderia existir. Mais uma vez, Marco Bellocchio caracteriza Vincere como, talvez, uma extensão do visual que é visto em Bom Dia, Noite (2003), seu filme anterior. Com uma narrativa com grande intensidade política e com caprichadas cenas artísticas em que a Direção de Arte se sobrepõe aos outros elementos, Vincere pode ter sido um filme supervalorizado pela crítica, mas não há como negar a sua beleza técnica.

Cotação: ★★★☆☆

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