
Dom Casmurro é uma das grandes obras de Machado de Assis. Autor sarcástico e de uma ironia que impressiona, ele sempre procurou manter em seus livros um forte diálogo com o seu leitor. Em Quincas Borba e Memórias Póstumas de Brás Cubas, duas obras que se completam em algum momento, estas características ficam claras quando ele questiona a inteligência do leitor ou, ainda, os motivos que o levaram a escrever um livro sobre a sua própria morte. Dom Casmurro é uma comprovação disso tudo e representa um importante momento da literatura brasileira.
Durante esta semana ainda falaremos bastante sobre o livro “Dom Casmurro”, mas neste primeiro episódio, Luis Fernando Carvalho apresenta o que será desta sua nova empreitada. Utilizando a mesma metalinguagem do diretor do filme Memórias Póstumas, André Klotzel, ele começa a traçar um perfil dos seus personagens neste primeiro momento. Assim, somos apresentados a Bentinho, que é um personagem-narrador, quando o vemos utilizando o seu pseudônimo, Dom Casmurro quando este interfere nas ações das personas que ele próprio construiu. Além de Bentinho, vemos também Capitu. Dois apaixonados, mas que estão prestes a se separar devido a uma promessa da mãe de Bentinho.
O roteiro escrito por Euclydes Marinho, com colaboração de Daniel Piza, Luís Alberto Abreu e Edna Palatnik, e redação final de Luís Fernando Carvalho, é totalmente fiel ao livro e à estrutura narrativa proposta por Machado de Assis como, por exemplo, as palavras, os diálogos e as divisões em pequenos capítulos, através de cartelas que anunciam as cenas que estão por vir – “O Agregado”, “Mil Pai Nossos e Mil Ave-Marias”. Além disso, as características desta “obra de autor” também foram preservadas: o sentido irônico e sarcásticos das palavras escritas por Dom Casmurro e o seu modo de observar toda aquela situação, assim como esta “tragicomédia” que está presente em sua narrativa: tragédia, porque os dois amantes se separam e tem um final incerto. Comédia, mais pela maneira com que tudo é tratado e, principalmente, pela maneira como Machado de Assis (Dom Casmurro) conduz a sua narrativa.
Toda esta estrutura narrativa que pode ser percebida neste início, também se comprova por uma direção de arte e de fotografia caprichadas. O livro, assim como esta microssérie, é dividido em duas partes - o amor adolescente de Bentinho e Capitu e, logo depois, o cíume que Bento Santiago passa a ter de sua esposa Capitu e de seu melhor amigo Escobar. Este amor juvenil dos dois é interrompido porque o destino de Bentinho já estava traçado antes mesmo do seu nascimento. Como o primeiro filho de Prima Glória nasceu morto, ela prometeu que o próximo iria para o seminário e estudar para se tornar padre. Bentinho, nesta primeira metade do livro, tenta fazer de tudo para que isso não aconteça, porque o seu amor por Capitu só cresce a cada momento em que eles estão juntos.
“A Vida é uma Ópera”, título deste primeiro episódio, apresenta a adaptação de uma obra-prima que foi o livro “Dom Casmurro” e também a mente criativa e perturbada de Machado de Assis, cheio de peripécias narrativas. No entanto, o que vemos realmente foi uma incrível ousadia de Luiz Fernando Carvalho em transportar aquelas linhas magníficas e esplêndidas para a televisão de uma maneira simples, bonita e criativa. O Autómovel Club do Brasil, palácio localizado no Rio de Janeiro e local onde tudo isso foi filmado, ajudou a representar e caracterizar o figurino e a fotografia amarelada que toma conta das cenas. Além disso, a trilha sonora que mistura elementos do Rock com a Ópera, trouxe uma modernidade em termos de composições, fazendo até mesmo com que as cenas ficassem mais leves.
Preservando a estética modernista do livro de Machado de Assis, Capitu, neste primeiro episódio, prova um diálogo intenso entre o teatro e a televisão. Não vemos, aqui, múltiplos ambientes, mas sim, um único local onde tudo isso acontece e toda a história se desenrola. Este Modernismo, que está naquela cena do giz ou nesta característica marcante da direção de arte e da construção narrativa que preserva aquela construída por Machado, faz com que possamos “caminhar” no tempo, tentando imaginar como poderia ser aquele momento em que o autor se propôs a escrever esta obra-prima da nossa literatura. Luis Fernando Carvalho também comprova a criatividade que ele já havia adiantado em Hoje é Dia de Maria e A Pedra do Reino o que, na verdade, não é uma necessidade de fazer algo diferente, mas sim, de inventar e criar novas perspectivas para as suas idéias estéticas.
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