Casamento de Rachel, O

By Vinícius Silva. Filed in Cinema, Críticas  |  
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Dirigido por Jonathan Demme. Com: Anne Hathaway, Rosemarie DeWitt, Mather Zickel, Bill Irwin, Anisa George, Debra Winger e Jerome Le Page. (Rachel Getting Married, 2008)

Qualquer família enfrenta problemas, por isso existem tantas separações, tantos divórcios e tantos desencontros. A estabilidade é algo que sempre se almeja quando se está construindo o seio familiar, mas nem sempre é isso que acontece. Assim que O Casamento de Rachel começa, ainda não deparamos com estes problemas, mas sabemos que eles serão explorados e desenvolvidos ao longo do filme, uma vez que a sua idéia principal é de utilizar o casamento como uma espécie de antagonista da felicidade criada pela cerimônia em meio às crises e ao passado de uma família desestruturada e disfuncional.

Kym (Hathaway) é uma ex-viciada que está há oito meses sóbria, mas sempre tem alguma recaída e, para evitar isso, ela continua internada em um Centro de Reabilitação. Porém, ela sai por alguns dias para ir até o casamento da sua irmã, Rachel (DeWitt), que ela mesma não a vê por muito tempo. Esta trama, que parece até meio simplória, é o suficiente para provocar um estopim de vários dramas familiares que estavam guardados, ou adormecidos, mas que com o retorno de Kym eles retomam e começam a assombrar novamente uma família que se desestabilizou a partir dos problemas criados por Kym e a sua dependência com as drogas.

A câmera do diretor Jonathan Demme (O Silêncio dos Inocentes, Filadélfia), sempre dando a impressão das imagens estarem sendo feitas com ela na mão, percorrendo a casa onde a família reside para criar um clima ainda mais intimista com o seu espectador sugere que, a qualquer momento, poderemos ver uma daquelas discussões fervorosas. E não demora muito tempo para isso acontecer. Kym e Rachel, no primeiro instante, parecem se adorar logo quando se vêem depois de tanto tempo. Mas basta Kym saber que não será a dama de honra para as duas discutirem sobre as suas diferenças, o que expõe também as personalidades de cada uma. Enquanto Rachel sempre foi a garota mais certinha, a sua irmã Kym com toda a sua ebulição e disposta a explodir em qualquer momento, parece que sempre foi a mais querida, por mais que o passado a condene.

E ele começa a retomar no seio da família ao estarem organizando os preparativos da festa. Em uma determinada sessão de reabilitação, passamos conhecer um pouco da estória de Kym, que vive se culpando pela morte do seu irmão menor. Mesmo tendo problemas com as drogas e sofrendo recaídas, a sua mãe sempre confio para que ela cuidasse do seu irmão menor, uma vez que eles se davam muito bem. Porém, em um determinado dia quando Kym o levou para o parque e ela estava, como sempre, bastante chapada e sem a plena consciência do que estava fazendo, no retorno para casa ela perdeu o controle do veículo, que caiu em uma lagoa. O seu irmão morreu afogado e ela conseguiu sobreviver. Foi o estopim para que a família se separasse e Kym viver com o fantasma da culpa assombrando a sua mente tão sensível.

O Casamento de Rachel possui cenas emblemáticas neste sentido, principalmente na maneira pela qual as outras pessoas enxergam Kym por saber de tudo aquilo que ela enfrentou. O olhar ‘julgador’ dos convidados para o casamento da sua irmã, deixa claro que ninguém confia nela, ou que acham que ela não é capaz e não tem plena sanidade mental para ter saído do Centro de Reabilitação e estar ali, em meio a toda aquela festa. Na cena em que os familiares prestam as homenagens para Rachel e seu esposo, a roteirista Jenny Lumet cria uma excelente cena, colocando todos os elementos que nos fazem perceber as turbulências que o filme procura passar. Enquanto Kym divaga sobre as suas homenagens, relembrando algumas estórias com a sua irmã, todos na mesa a olham de maneira desconfiada. A tensão criada neste momento também é vista pela câmera de Jonathan Demme ao mostrar de maneira tão intensa e verdadeira o sentimento de todos que estavam na mesa.

A todo momento, Kym se sente como uma estrangeira em sua própria casa, tentando conhecer ou lembrar de todas aquelas pessoas que ali estavam, se sentindo cada vez mais fora do que estava acontecendo. Mas um dos dramas que o filme mais se prepara para discorrer é a relação de Kym com a sua mãe. Ao mesmo tempo em que as duas parecem se dar bem, os sentimentos à flor da pele entram em erupção e, em uma discussão explosiva, as duas falam verdades que provocam a dor na outra, seja pelos tapas dados ou pelas sinceridades faladas. A mãe de Kym não esconde a culpa que ela deposita na filha por ter perdido o seu filho. E O Casamento de Rachel é belo nesse sentido, uma vez que ele não procura traças um final feliz para o drama vivido pela família.

A excelente atuação da atriz Anne Hathaway ajuda na construção da personalidade do seu próprio personagem e também na edificação das tramas. Ela revela uma atuação delicada, verdadeira pelos sentimentos vividos, sincera pela culpa que sente e, ao mesmo tempo em que ela deixa transparecer tudo isso, ela também se mostra uma pessoa forte para combater a sua mãe e não se deixar cair no erro de voltar às drogas. O roteiro de Jenny Lumet também ajuda nesse sentido, já que ela consegue desenvolver o sentimento de estranheza por parte de Kym em contraposição ao que sente a sua irmã, Rachel, vivendo a alegria do casamento. É este mesmo contraste o ponto principal desta obra já que, enquanto todos estão vivendo os preparativos do casamento, uma família tenta esconder as feridas que nunca foram fechadas, mesmo após Kym ter ficado dois anos na reabilitação.

O Casamento de Rachel é um desses filmes reais que nos encantam pela maneira simples com é feito. Os dramas familiares por ele exposto pode ser enxergado por qualquer pessoa que esteja assistindo. Afinal, qualquer família já pode ter passado por isso, por estes mesmos problemas e por estas mesmas feridas. Os conflitos pessoais também são encarados de maneira conjunta com os conflitos familiares que acabam atingindo a todos que estão na casa. O medo de Kym, a apreensão de Rachel em se casar, a tentativa de superação da mãe que não se consolida e, por outro lado, o sentimento de um pai em fazer com que as suas filhas estejam bem. São tantos sentimentos e todos eles indescritíveis por serem relativos demais, ao mesmo ponto em que eles se transformam em pessoais e viscerais. E são eles próprios que criam toda a tensão dramática deste excelente filme.

Cotação: ★★★★☆

One Comment

  1. Comment by Larissa:

    Esse filme é muito bom e rico em análises dos personagens. O filme me deixou interpretar que a principal culpa pela morte do irmão de Kym é da mãe, pois ela sabia da condição em que a filha se encontrava. Acho que na cena delas duas discutindo, o diretor me remeteu a pensar dessa forma, e consequentemente, ver Kym como a grande vítima do drama familiar.

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