À Deriva
Cinema, Críticas 3 de agosto de 2009
Dirigido por Heitor Dhalia. Com: Vincent Cassel, Débora Bloch, Camilla Belle, Cauã Reymond e Laura Neiva. (idem, 2009).
Deve existir um certo medo quando se faz um projeto autobiográfico. Expor a vida pessoal e os traumas de infância deve-se precisar de uma coragem muito grande para escrever e, até mesmo, para filmar e colocar isso na telona. Pois bem, o diretor Heitor Dhalia (O Cheiro do Ralo e Nina) se mostrou bastante corajoso neste aspecto ao retratar um pouco de si mesmo neste À Deriva, o qual ele considera bastante pessoal em relação aos seus dois trabalhos anteriores.
Aqui, deixando de lado um pouco das tramas de paranóia que se consolidou em Nina e também um pouco da loucura expressa em O Cheiro do Ralo, neste novo trabalho ele apresenta um argumento forte e simples, mas que nas suas mãos se vê transformado em algo grandioso, encantador e melancólico. Para uma adolescente de 14 anos, que ainda está começando a se descobrir, deve ser muito difícil ser a irmã mais velha e ter que lidar com a separação dos pais, com os problemas familiares e com a própria confusão que a idade transmite. Pois é assim que Filipa (Neiva) se sente, pois serão sob os seus olhos que veremos a maneira como uma família pode se romper.
Matias (Cassel) é um escritor que não está muito em paz com os seus escritos e precisou buscar um pouco de inspiração para escrever o seu novo livro. Pelo menos, esta foi a desculpa dada por ele e pela sua mulher, Clarice (Bloch), aos seus três filhos, que estavam ali apenas para curtir as férias em família, a praia e tudo que aquele visual maravilhoso poderia passar. Mas o simples começa a ficar muito mais complexo. As cenas que iniciam o filme, com a alegria de Filipa aproveitando os momentos com o seu pai, vira quase que um paradoxo quando vemos até onde a trama chega.
Filipa começa a descobrir que o seu pai está tendo um caso com Ângela (Belle), uma garota bastante bonita e que também está passando férias na região. A relação entre os dois começa a estremecer, principalmente porque Filipa vê o estado degradável no qual a sua mãe se encontra, completamente entregue ao whisky. Filipa, obviamente, começa a culpar o seu pai pelos problemas, pelas brigas e, de fato, Matias tem sim a sua parcela de culpa sobre o que está acontecendo. Enquanto tudo isso acontece, Filipa também está descobrindo novas experiências com o fato de ser jovem e ainda estar em fase de desenvolvimento.
Heitor Dhalia traça uma linha racional e lógica para o seu filme, que, mesmo dando a impressão de não estar acontecendo nada, é capaz de nos fazer imaginar que alguma estará por vir a qualquer momento. Quando Matias conta a estória do seu novo livro em um jantar, encaramos como se ele estivesse falando de si para fazer com que a sua mulher pudesse se tocar que ele estava ficando com a outra. E isso permanece guardado no filme, tornando-se um elemento narrativo quase que imperceptível se não fosse os fatos que iriam vir depois.
Ao mesmo tempo em que Filipa tenta procurar alguém para se culpar, Matias e Clarice estavam ali para tentarem salvar o que restou de uma família. Mas o fato é que eles não conseguiram. E em uma das melhores sequências do filme - e talvez até mesmo do ano -, descobrimos parte da verdade que os adultos esconderam das crianças. Clarice conta o porquê da separação, afirmando que ela se apaixonou por um cara dez anos mais novo do que ela, sendo esta a trama do livro que está sendo escrito por Matias: uma mulher que se apaixona por um homem mais jovem e que abandona os seus filhos para viver esta aventura.
E isto nos leva a entender o porquê de ter uma arma escondida no escritório de Matias, sendo um elemento totalmente ambíguo para a estória. Poderiam existir, sim, dois significados para este objeto: o primeiro é que Filipa poderia matar a amante do seu pai, ou ainda, que Matias estaria disposto a assassinar a sua esposa para não ter que perde-La. E uma pergunta que o espectador pode se fazer é a seguinte: por que os adultos sempre falam que as crianças são tão pequenas para entender certas coisas? Isso acontecia a todo instante que Filipa tentava se “intrometer” nesta relação, era isto que ela ouvia dos seus pais.
Na sequência em que Clarice conta esta verdade para a sua filha, é o momento em que À Deriva se torna uma obra quase que completa, porque a trilha sonora de Antonio Pinto, oscilando entre a melancolia e a tristeza, contempla estas cenas com tamanha intensidade que se torna impossível de descrever neste artigo. É preciso assistir para sentir um pouco da emoção e também da dor de Filipa, ao sair correndo por ter sido enganada e por saber que não existe nada do que ela pudesse fazer para as coisas voltarem ao normal. Ao jogar a arma na ‘deriva’, ela protege o seu pai do pior que poderia acontecer. A estória, que parecia simples no seu início ao falar sobre a separação de uma família sob os olhos de uma adolescente de 14 anos, aqui se torna complexa, dolorosa e emocionante.
O roteiro de Heitor Dhalia, assim como a sua direção muito mais conservadora do que nos seus outros filmes, mas que consegue captar bem os momentos e tem excelentes planos que elucidam um pouco do sentimento que o espectador pode estar sentindo - seguido da já elogiada trilha sonora, se torna primoroso por saber amarrar a estória. Mesmo não aproveitando como deveria o potencial de Camilla Belle, é a novata Laura Neiva que consegue uma atuação de destaque, entregando um personagem que soa natural, contraindo os mesmos sentimentos que, possivelmente, qualquer adolescente da sua idade poderia ter. Deborah Bloch e Vincent Cassel também estão ótimos no filme, fazendo de À Deriva uma obra que pode muito bem beirar a perfeição.
Talvez isso não aconteça pelos momentos clichês que ele apresenta, apesar de saber contorná-los muito bem. O fato de colocar Clarice como alguém que já tinha um relacionamento, apesar de ter sido bem escondido pelo roteiro, não é uma afirmação que ganha tanta proporção como se poderia esperar, mesmo sendo este o clímax do filme, que também se consolida como tal nos atos finais, quando À Deriva termina como começou: os carinhos entre Filipa e Mathias, enquanto Clarice os abandonava para viver o amor, ou a aventura, que ela estava esperando.
Esta nova obra de Heitor Dhalia tem o seu lado pessoal, já confessado pelo diretor, mas também possui uma beleza que está presente pela própria geografia do lugar, assim como pelas belas cenas que foram criadas em meio a este ‘paraíso’. Um filme sobre separação, sobre perdas, sobre experiência. Um filme, porque não, sobre o amor e a capacidade de se reerguer. Um filme sobre a vida.


















3 de agosto de 2009 as 1:26
Olá! Muito bom saber que o filme está sendo tão bem recebido. É sem dúvidas um dos melhores nacionais do ano. Seu texto levantou pontos muito interessantes, como a arma. Só não achei clichê a Clarice ter outro relacionamento, aquilo que desencadeou a atitude final da Filipa, o que achei super coerente com a história.
Uma dica: que tal avisar que há grandes spoilers em seu texto? Eu ficaria bastante revoltado se não tivesse visto o filme.
[]s!
3 de agosto de 2009 as 11:42
I think this was a very interesting post thanks for writing it!
3 de agosto de 2009 as 13:03
Achei o seu post incrível! Assisti o filme e tive algumas impressões semelhantes as suas. “[...] a trilha sonora de Antonio Pinto, oscilando entre a melancolia e a tristeza, contempla estas cenas com tamanha intensidade que se torna impossível de descrever neste artigo”. Se torna impossível mesmo de descrever, saí meio estática do filme, um pouco melancólica, mas depois reunindo as minhas impressões tenho que concordar com você e dizer que ‘À Deriva’ é um filme que fala sobre a vida, o amor e a difícil e dolorosa capacidade de dar a volta por cima.
5 de agosto de 2009 as 20:29
[...] escrevi a crítica sobre o filme ‘À Deriva’ (leia aqui) no final da semana, mas resolvi escrever um artigo mais focado nesta relação entre pai e filha, [...]
6 de agosto de 2009 as 18:16
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9 de agosto de 2009 as 22:58
Acabei de ver o filme,
Sinceramente, achei uma apelação, aquela garota e todas as crianças a todo instante com roupa de praia, sendo filmados por todos os ângulos. Se isso não é esbarrar e incentivar pedofilia, não sei o que é.
Diversos momentos lembrei até daquele filme “littlle children” - título no Brasil com “pecado íntimos” filme belíssimo mas que entre outras coisas mostrava um pedófilo e a ótica dele na piscina foi a mesma utilizado neste filme ‘À deriva’.
Num momento em que o mundo está cada vez mais atento para tentar preservar as crianças..o Brasil lança uma dessas.
Realmente, achei lamentável, da mesma forma, ou até mais, do que acho meninas de 13, 14 anos desfilando de biquinis em passarelas.
Imagino o que não deve passar na cabeça de estrangeiros, confirmação de paraíso com sexo com crianças total. No final a garota de 14 anos passa à noite com o rapaz do bar que atende a seu pedido e dá wisky pra ela, o Cauã Reymond.
E o filme encerra como poesia….. o pai abraçando e recebendo a filha de 14 anos que acabou de transar com um homem adulto…?
não sei o que a censura pode ou não proibir, mas a meu ver faltou um olhar mais atento.
O que adianta ficarmos colocando outdoors em aeroportos dizendo que pedofilia é crime,
O que adianta ficar prendendo “pedreiros” de 19, 20 anos qdo transam com as meninas de 14 e 15,
Se estamos patrocinando e incentivando isso nas grandes telas??
obs: a fotografia dos lugares, espetacular. Mas o que pode estar sendo patrocinado por trás é preocupante.
Ou eu estou ficando velha e ultra conservadora……tbm pode ser isso.
11 de agosto de 2009 as 22:28
[...] Silva SOB A MINHA LENTE “Esta obra de Dhalia tem o seu lado pessoal, mas também possui uma beleza que está presente [...]
21 de setembro de 2009 as 18:51
Estou precisando da Trilha sonora do Filme À Deriva. Como posso consegui-la?
23 de outubro de 2009 as 15:59
Para Eleni:
Minha cara, sinto muito, mas vc acertou! A última alternativa é a correta…
(”Ou eu estou ficando velha e ultra conservadora……tbm pode ser isso.”)
Sorry, mas este belo filme nada tem a ver com pedofilia, SUA ÓTICA esta completamente equivocada. Pense sobre isso.
Pergunte para suas filhas, sobrinhas, vizinhas, filhas de amigas etc de 14 anos com quem elas transaram a primeira vez e vc vai descobrir que a vida vai um pouco além da bobagem politicamente correta que importamos.
Aliás, seja sincera, com quem vc transou quando tinha catorze anos?
PS: Para o autor do blog: O Jeff tem razão, quem ler tua (boa) análise sobre o filme antes de assití-lo vai ter poucas surpresas. Talvez fosse de bom tom vc avisar no inicio que irá contar todo o roteiro…
21 de janeiro de 2010 as 3:15
Eleni, sinto muito mas aqui vai um pouco de verdade para você: você é uma ignorante. Vê o mundo com suas lentes da moralzinha, dos bons costumes, das regrinhas. A pedofilia está nos seus olhos de moralista e não no filme. Um filme com uma cena de assassinato não faz apologia ao assassinato. Essa apologia é coisa sua, não do filme. O filme conta uma história de uma família complicada. E essa do bikini… cenário de praia e você queira que as crianças do filme estivessem cobertas? Como você encontra as crianças e adolescentes na praia? Em que mundo você vive? O Brasil tem problemas com proteção de menores e pedofilia sim… mas A Deriva não tem nada a ver com isso…ignorância de moralistas caóticos feito você. Mas azar o seu porque nunca vai conseguir apreciar um bom filme como eu, graças a essas suas lentes quadradas que analisam as coisas segundo regras levadas ao exagero. “O que está sendo patrocinado por trás é preocupante…”, preocupante é a pedofilia a sério e os moralistas ignorantes como você. Não tenha dúvidas: isso é ultra-conservadorismo, se você não consegue ver crianças a adolescentes num filme porque acha errado então não assista mais filmes, não apareça na praia. Mas não nas praias brasileiras, em qualquer uma. O problema do Brasil com as crianças existe, mas não nada a ver com isso… E minha cara, censura mesmo já não existe graças a Deus, esse é daquele outro tempo… mas esse pão de censura define bem como você pensa.
21 de janeiro de 2010 as 3:17
Esse pão náo né… esse papo.