A Bela Junie

By Vinícius Silva. Filed in Cinema, Críticas  |  
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Dirigido por Christophe Honoré. Com: Louis Garrel, Léa Seydoux, Grégoire Leprince-Ringuet, Simon Tuxillo, Agathe Bonitzer e Anais Demoustier. (La Belle Personne, 2008)

Fechando a chamada Trilogia do Amor, A Bela Junie funciona, mesmo que indiretamente, como um complemento pra os longas-metragens Em Paris (leia a crítica aqui) e Canções de Amor (leia a crítica). Todos eles retratam, de maneiras diferentes, os sentimentos amorosos em sua plena forma, sem se importar exatamente com o julgamento que o público pode vir a ter sobre o que está sendo mostrado. O diretor francês Christophe Honoré, utiliza em todos estes filmes a sensibilidade que marca os seus filmes com belas canções, belos enquadramentos de câmeras e personagens construídos a partir de um propósito singular: o amor.

Assim, Junie (Seydoux) é uma garota que se mudou para Paris com o objetivo de tentar superar a morte da sua mãe. Novata em um colégio da cidade, a primeira cena naturalista composta por Honoré é bastante significativa ao mostra o campo desconhecido em que ela está chegando. Enquanto um professor ler alguns textos em inglês, não existe tradução para realmente retratar a maneira como ela se sente deslocada, exatamente como o espectador ao perceber que o que está sendo falado não possui legenda alguma logo, para alguns, pode não possuir compreendimento como não possuiu para Junie. Após esta cena, segue em seguida uma no corredor, onde o diretor apresenta os personagens e acaba jogando Junie no meio das confusões dos estudantes que ali estavam.

Este parecia o foco, mas ao conhecer Junie, Otto (Leprince-Ringuet), se apaixona perdidamente. E aqui se dá início às várias facetas que o amor pode ter, pelo menos na concepção do diretor Christophe Honoré, que escreveu o roteiro do filme juntamente com o roteirista Gilles Taurand. Ao retratar este sentimento, o espectador começa a se dar conta que o amor pode possuir diversos significados para os personagens que são colocados frente a ele no filme. Ao mesmo tempo em que ele retrata esta paixão à primeira vista, tem-se o professor de italiano, Nemours (Garrel), que possui um relacionamento com uma professora e também com uma aluna.

Mas a chegada de Junie não transforma apenas a garota, mas todos que estão ao seu redor. Apesar de colocar isso de maneira indireta, vemos como os estudantes estão pensando apenas neles mesmos, principalmente em uma das cenas finais cujo clímax cria uma certa ambigüidade (para não dizer defasagem) em relação à trama. Com isso, Nemours termina os dois relacionamentos que ele tinha por perceber que também tinha se apaixonado por Junie e, assim, começa um triângulo amoroso (mais um para a conta do Honoré, pois ele já havia retratado este tema em Canções de Amor).

O espectador vê, então, dois personagens que possuem diferentes maneiras de amar. Enquanto que Nemours é o professor galanteador do colégio cujas paixões são incríveis aventuras, Otto é o cara romântico que tem o pensamento um pouco ultrapassado para o atual momento em que vive. Ele questiona o fato de Junie não parecer sentir o mesmo que ele mas, no entanto, continua disposto a lhe dar o carinho necessário para confortar a morte da sua mãe. Enquanto o triângulo aconteceu, um outro também estava preparado, só que envolvendo um relacionamento homossexual.

Porém, as tramas de A Bela Junie começam a ficar atrapalhadas entre elas mesmas. Christophe Honoré parece querer encarar o fato de colocar múltiplas formas de se relacionar (inclusive apontando as suas diferenças e dificuldades) no seu filme, mas acaba exatamente pecando por não conseguir desenvolvê-los ao longo do tempo que ele programou. A própria morte do Otto soa forçada, mas até possui um entendimento para o momento dramático que ele precisava, uma vez que ele soube construir de maneira impecável a cena. A constituição estética, tomada em parte pela fotografia meio azulada, com uma bela canção ao fundo, funcionou também graças à excelente atuação de Leprince-Ringuet, que já havia comprovado em Canções de Amor ser um bom ator.

Engraçado é notar como o amor, para Honoré (e até mesmo para mim), possui estas concepções formuladas. A tragédia amorosa em ’Romeu e Julieta, de William Shakespeare, por exemplo, é uma forma clara de entender a morte de Otto. Mas, ao contrário do livro, aqui a moça não se mata em seguida, pelo contrário, se entrega aos braços do seu professor de italiano, que já havia demonstrado o seu interesse. O mais engraçado, no entanto, é perceber como este fato passa meio que despercebido, já que o diretor não perde tempo em mostrar os seus amigos sentindo pesar pela morte do outro. Isso pode representar, aliás, o que estava sendo dito no início do filme: todos se importam somente consigo mesmos. E esta individualidade é uma característica contemporânea que o filme sabe retratar muito bem.

Christophe Honoré traça um perfil interessante sobre o amor nesta Trilogia do Amor que ele finaliza com este filme. No primeiro longa-metragem, Em Paris, Honoré retratou um relacionamento amoroso que havia se dissipado e, para se confortar, o jovem acabou retornando à casa do seu pai, para viver em companhia dele e do seu irmão. Canções de Amor, sendo um musical, traça a estória de um amor vivido por três pessoas, que depois muda com a morte de uma delas. Em A Bela Junie, ele tanta fazer um misto disso tudo que foi retratado nos outros dois filmes, mas se perde exatamente por não ter um foco em uma determinada trama. A vontade de narrar várias maneiras de se relacionar e várias formas de sentir o amor, acaba passando uma leve impressão de desorganização, apesar de ter sido bem concebido, revelando mais uma ótima atriz do cinema francês: Léa Seudoyx. E não apenas isso é capaz de incomodar, visto que colocar o ator Louis Garrel fazendo o papel de um professor não me parece ter sido uma decisão acertada por parte do diretor que o escalou.

Mesmo com o choque cultural (não consigo pensar numa verossimilhança na maneira como o filme mostra a relação entre alunos e professores), A Bela Junie é mais uma dessas obras que escancara o romantismo e a paixão, como possíveis sentimentos que podem levar a outros surtos: como a perseguição, o suicídio, a depressão, a desilusão e a decepção. Cada personagem, para Honoré, encara isso de uma forma. De qualquer maneira, mais uma vez ele soube encaixar a trilha sonora, seja ela cantada pelos atores ou apenas ouvida ao fundo, nas cenas que culminam no clímax que o filme possui. E ele já mostrou não ser adepto de finais felizes, ou de encerramentos que possam explicar tudo o que foi mostrado. A conclusão é o espectador que tira. Assim como é o amor, cada um sente da sua maneira.

Cotação: ★★★☆☆


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3 Comments

  1. Comment by Rafael Carvalho:

    Acho que pelo fato do filme não ser roteirizado pelo Honoré, ele segue uma estrutura mais clássica, e não me parece que tivesse muita consistência. Os deselances amorosos do filme não me pareceram ter muita consistência. Mas é o tipo de situação que o diretor gosta de abordar. Os filmes anteriores dele são bem melhores.

  2. Comment by Larissa Menon:

    Ao assistir ao filme o sentimento que me consumiu foi o de decepção. Fui ao cinema sem nenhuma crítica e ao assitir ao filme ficou claro pra mim que apesar da intenção do diretor estar muito clara ele falhava miseravelmente na execução. As atuações estavam ótimas, edição, fotografia e trilha também, mas o roteiro se manteve tão fraco e superficial que muito do que poderia ser mostrado ao publico acabou ficando excluído. Definitivamente, seguindo a cronologia do diretor, ele não chegou (talvez nem perto de) a terminar a trilogia da melhor maneira possivel.

  3. Comment by visitor travel:

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