Dirigido por Terrence Malick. Com: Brad Pitt, Sean Penn, Jessica Chastain, Hunter McCracken, Laramie Eppler, Tye Sheridan e Fiona Shaw. (The Tree of Life, 2011).

A Árvore da Vida, escrito e dirigido por Terrence Malick, é um desses filmes que, ao sair do cinema, você está cheio de questionamentos e tentando entender aquilo que o diretor quis dizer. A discussão em torno das imagens do filme surgem desta forma, já que elas suscitam que o espectador queira respostas para os porquês que ele está vendo. Malick toca em um ponto complexo que é a vida. E possui uma visão que é sustentada por questões filosóficas que giram em torno de dois elementos principais: o estado de graça e o estado de natureza. Terrence Malick, então, desdobra estas complexidades desde a vida como ela é concebida até a questão que envolve a sua finitude que se dá quando morremos.

O Sr. O’Brien (Brad Pitt) e a sua mulher (Jessica Chastain) moram em uma cidadezinha do Texas – onde Malick fora criado quando criança. Aos poucos eles constituem uma família com a chegada dos dois filhos. Ele é um pai durão, conservador, exigente, arrogante e que o corte de cabelo militar já transmite uma aura mais durona. Para Malick, ele é o estado da Natureza que pensa somente em si mesmo, querendo com que todas as coisas ao seu redor funcionem da forma como ele quer. A mãe, Sra. O’Brien, já apresenta como um outro contraste para a história. Ela representa o estado de graça, sendo uma pessoa muito mais leve e que sabe educar os seus filhos deixando-os de maneira livre e com responsabilidade. Ela é o oposto do marido, uma mulher carinhosa e que brinca com as crianças na grama da sua casa de maneira muito mais alegre.

E isso fica claro na cena em que vemos a maneira como cada um dos pais acordam os seus filhos. A mãe é sempre mais carinhosa e brincalhona ao jogar gelo dentro da roupa de um dos meninos, ou ao abrir a cortina para deixar o sol entrar. Enquanto isso, o pai tem um jeito muito mais rigoroso. O negócio dele é acordar os meninos com tapas e fazê-los levantar da cama o mais rápido possível. Por isso que quando o pai deles viaja, os três (os dois filhos e a mãe) se sentem muito mais à vontade e correm e brincam pela casa, coisas que eles nunca fariam se o pai estivesse por perto.

Sobre estas questões envolvendo o pai, o garoto Jack vive se questionando para Deus. Ele se pergunta se Deus não pode fazer o seu pai ir embora ou se Ele não o mata. E também se questiona sobre a questão que envolve o fato de Deus criar vidas. Jack se pergunta como é possível alguém ter o poder de  dar a vida, mas também  possuir o poder de tirá-la. Que tipo de Deus é esse, pergunta ele. Neste caso, por que então ele deve lutar para ser bom e justo se isso não vai adiantar? Porque Jack sabe, ao ver um amigo morrer afogado, que vai existir uma hora em que Deus (ou alguma outra força) vai tirar a sua vida e ele vai morrer.

Terrence Malick concentra a sua narração em determinados momentos na figura de Jack, o filho mais velho e que aparece adulto na figura de Sean Penn. Ele luta para não ser como o pai e, principalmente, tentar fazer tudo aquiloque ele manda. Por outro lado, Jack sente ciúmes do irmão mais novo por ele conseguir agradar muito mais o seu pai e ter nascido com as mesmas raízes artísticas que ele. O’Brien gosta de tocar piano e ouvir música clássica, enquanto que o filho mais novo vive tocando violão e fazendo desenhos. Jack não tem esses dotes e, por isso, ele tenta encontrar segurança e resguardo na figura da sua mãe, que lhe dá o suporte que é renegado pelo seu pai.

Para filmar toda esta questão familiar que envolve a construção da vida, Terrence Malick transforma o seu filme em um verdadeiro espetáculo visual. Por vezes, este mesmo espetáculo no qual ele imerge a sua narrativa por entre belas imagens acaba sendo desnecessário. Mesmo porque, a mesma complexidade que torna o seu filme incrível quando vemos a vida da família O’Brien, as cenas entoadas pela trilha sonora de Alexandre Desplat quebram o ritmo da história e acendem uma discusão que, apesar de ser importante ao tratar dos estudos de Aristóteles sobre a natureza e a Biologia das coisas, se torna assim mais um assunto a ser tratado em um roteiro que já é extremamente complexo.

Até porque, além da questão envolvendo os pensamentos de Aristóteles, o filme ainda traça em seu início uma citação muito importante do Livro de Jó que norteia a narrativa. Jó foi um homem que sofreu bastante e vivia se questionando para Deus. Será que existe alguma possibilidade de Jó ter alguma relação com Jack? Esta, aliás, é uma pergunta que me fiz bastante depois que assisti o filme, principalmente porque quando Jack aparece adulto ele aparenta ser um homem melancólico e que não conseguiu superar o seu passado e a infância que teve.

Ao construir esta narrativa no começo com a citação de Jó, Malick também guarda em seu roteiro determinadas passagens que lembram os pensamentos filosóficos de Santo Agostinho, que leva em consideração a psicologia e o conhecimento da natureza. Por outro lado, para ele nada era mais importante que a Fé em Jesus e em Deus. E Malick me parece ser como Santo Agostinho, já que ele dá uma visão cristã para o que significa a vida. Ainda assim, ele também apresenta questões que constituíram o darwinismo, que podem ser vistas nas cenas em que vemos o aparecimento dos dinossauros.

O diretor Terrence Malick é um homem calcado nestas questões filosóficas. O seu filme, “Além da Linha Vermelha” (1998), traz uma reflexão dentro da guerra, no conflito armado com o inimigo em um campo de batalha. Já ali, o olhar de Malick não estava voltando para entender a guerra e os seus motivos, mas compreender a Natureza humana estando em um conflito como aquele. De maneira metafísica, é como se Malick estivesse tentando inserir o Homem na Natureza, fazendo-o se relacionar com todas as coisas que ela tem pra oferecer. A Árvore da Vida e Além da Linha Vermelha dialogam por serem filmes que se preocupam em mostrar a condição existencial dos seus personagens, e o peso das suas decisões.

Saindo do relato de indíviduos que estão inseridos na guerra, como é o caso de Além da Linha Vermelha, e passando para compreender o significado da vida, Malick ora se mostra experimental em A Árvore da Vida com uma câmera que parece ter tendências a ser antropológica, como se estivesse ali para registrar a experiência de uma família aprendendo a ser uma família. Por outro lado, o diretor se mostra bastante competente ao fazer o espectador mergulhar naquilo que os seus personagens estão vivendo. É por isso que quando ele mostra um dos meninos aprendendo a subir as escadas, a sua câmera também vai subindo os degraus – o que aproxima o espectador das experiências vividas por eles.

O fato de terem sido lançados tão próximos um do outro, fazem de Melancholia e A Árvore da Vida filmes que possuem algum diálogo entre eles mesmos. Alguns podem achar que pensam como Lars Von Trier, outros podem acreditar mais nas ideias de Terrence Malick. Enquanto Lars Von Trier traça um constraste sobre a finitude da vida e o medo de morrer da irmã de Justine por conta do planeta “Melancholia”, Justine aceita a sua morte como algo normal que em algum momento deveria acontecer. Em A Árvore da Vida, Malick tem uma visão muito mais religiosa ao explicar que, sendo justo ou não, Deus tem o poder de dar e de tirar a vida das pessoas.

Dificilmente a discusão em torno deste filme vai terminar por aqui. Ao longo dos anos e dos tempos, teorias e discussões filosóficas acerca da história serão retomadas. A Árvore da Vida, que possui fantásticas imagens, contempla em seu roteiro duas questão inerentes a todos nós, seres humanos: a vida e a morte. Na escola, sempre aprendemos que nascemos, vivemos e morremos. Malick pensa exatamente desta forma, mas coloca os seus personagens para questionar sobre isso. E nem sempre eles entendem os seus porquês, sabendo apenas que isto faz parte da natureza. Assim como é possível achar lindo e magnífico a maneira como as pessoas são concebidas, também achamos terrível e trágico como elas também deixam este mundo e passam para outro lugar.

A Árvore da Vida trata destas questões e, depois de tê-lo visto, nos faz questionar também assim como os seus próprios personagens, que começa com a inocência de uma criança e termina com a desilusão da vida adulta.

[rating: 5/5]

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