Hamlet - a tragédia shakespeariana
domingo, julho 26th, 2009
Não sou muito de comentar as nuances do teatro porque não sou profundo conhecedor da estética teatral. Mas finalmente pude conferir a peça ‘Hamlet’, protagonizada por Wagner Moura e dirigida por Aderbal Freire-Filho. Os dois também fazem a tradução do texto, juntamente com Barbara Harrington. O elenco ainda conta com Tonico Pereira, Carla Ribas, Caio Junqueira, Fábio Lago e outros tantos. Escrita por William Shakespeare na virada do século XVII, a tragédia de Hamlet permanece como a peça mais celebrada em toda a história do teatro mundial. Ela se passa no Castelo de Elsinor, na Dinamarca, onde o fantasma do Rei Hamlet aparece para seu filho, o príncipe Hamlet, e exige uma vingança.
Obviamente, esta peça já teve milhares de leituras e releituras. Existem certos compreendimentos a cerca do que se vê e do que se lê: alguns podem acreditar na idéia de existir um fantasma, ou um espectro, que aparece para o Príncipe Hamlet e lhe diz para vingar a morte do seu pai, matando o seu tio que assumiu o trono e casou-se com a sua mãe. Para outros, tudo não passa de uma loucura moldada pelo personagem que se agravou com a morte do pai. A insanidade de Hamlet confunde até mesmo o espectador, sedento por mergulhar no coração vingativo e recheado de ódio do príncipe. Mas, afinal, no que você acredita? Qual a leitura que foi dada para esta peça contemporânea de ‘Hamlet’?
O ator Wagner Moura faz questão de trazer uma interpretação altamente insana, que lhe exige ter um vigor físico além da conta para viver este personagem, conturbado pelos pensamentos gerados a partir de uma vingança programada por ele, além de toda a insanidade que ele aparenta ter pelos salões do castelo. O que dá pra dizer em relação à peça, é que todos se preocuparam em dar uma leitura extremamente contemporânea. É perceptível pela formação dos diálogos, substituindo alguns termos da época em que Shakespeare escreveu para uma linguagem mais acessível e dinâmica que é, aliás, o ponto forte desta peça. Em alguns momentos utilizando uma câmera cujas imagens aparecem no telão ao fundo - que também pode representar o próprio espelho daquilo que Hamlet tanto persegue -, a peça se aprofunda pela mente doentia de Hamlet, pela sua loucura aparente e pelo seu pesar conturbado, cuja aceitação de uma morte passou despercebida.
Paralelamente a tudo o que podemos ver, existe a paixão entre Hamlet e Ofélia, filha de Polonio que é o conselheiro do atual Rei, Claudio, e da Rainha Gertrudes. Este pode ser considerado o ponto baixo da peça, uma vez que a paixão entre os dois não se torna exatamente o foco principal. Além disso, o amor entre eles se torna impossível pelo fato de que todos acreditam que Hamlet ficou realmente louco, um lunático que altera o seu humor constantemente. E isso Wagner Moura soube fazer com maestria, com oscilações na sua voz, com distúrbios ofegantes e cansaço no momento de falar, além de toda a mise-èn-scene que a peça acaba provocando, sendo muito bem ornamentada e dirigida.
O Hamlet do ator baiano é um misto de tudo que o personagem tem em si mesmo, entre sentimentos que beiram a perdição e outros que chegam próximo do precipício, quando temos a leve sensação, em seus poemas declamados em certos momentos, que ele está falando do suicídio como uma forma de escapismo ao que ocorre com ele.
Uma série de aulas, ou palestras, de A.C Bradley, que era professor de poesia em Oxford, em 1904, esclarece muito bem a ‘tragédia shakespeariana’, algo que o teatro agora no século XXI tenta fazer com tamanha dedicação e delicadeza. Um outro crítico, mais contemporâneo que Bradley, o americano Harold Bloom, se inspira nos escritos do professor para mostrar que a inspiração de toda esta tragédia também pode ser vista como uma abordagem moderna para um mundo em que não se pode viver sem elas, ou seja, sem passar por elas. Com isso, Bradley diz que ‘a causa direta da irresolução de Hamlet é um estado de espírito anormal e induzido por circunstâncias especiais, um estado de profunda melancolia’.
O perigo consumado de Hamlet é visto durante toda a peça, uma vez que Wagner Moura se mostra a todo instante agitado e isso gera preocupação no Rei e na Rainha, vendo o Príncipe se deteriorando mentalmente, como se estivesse caminhando para um estado de torpor, agonizando em seus próprios sentimentos e preso por eles em sua própria forma. Bradley, assim, vai ainda mais longe. Ele diz que Hamlet ‘tinha tendência a se tornar, durante esse tempo, presa do humor ou das sensações que tivessem se apossado dele, quer fossem alegres, quer deprimentes.’ Com isso, Shakespeare, em toda a sua genialidade que lhe foi concedida, dá ao seu personagem um exemplo de temperamentos que foi concebido a Hamlet de maneira planejada e consciente.
O texto explora temas como traição, incesto, vingança, corrupção e moralidade. A peça é uma incursão de vida na loucura real e fingida do Príncipe Hamlet. Estes elementos depois também acabam atingindo Ofélia. É, pra mim, o clímax que a peça atinge exatamente quando a insanidade, a demência e a melancolia tomam conta de todos os personagens que estão em cena. Hamlet, com isso, pode ser visto como um herói, mas também como um homem que, brilhante em seus textos e na sua inteligência, mas extremamente sensível em seus sentimentos, torna-se alguém adverso a uma leitura psicológica e mística. A literatura gótica retomou estas interpretações mas, afinal, o que é ‘Hamlet’? Ao mesmo tempo em que o vemos como uma pessoa conturbada e cheia de lutas internas e interiores, Hamlet se torna um personagem confuso e inconsistente.
Talvez seja mesmo esta a idéia que Shakespeare queria passar para o seu público. As múltiplas interpretações em torno da estória, nos compete dizer que os conflitos de Hamlet são contemporâneos em sua magnitude. Com uma linguagem inventiva, culta e bela, a peça se transforma em uma tragédia anunciada pelos elaborados planos de Hamlet para matar o seu tio. Esta resposta imediata o transtorna, cria um espectro em seu próprio corpo e coloca o seu espírito em conflitos que nem mesmo ele consegue suportar.
‘Ser ou não ser, eis a questão’. A tragédia fica explícita porque, enquanto Hamlet não consegue matar o seu tio, ele conduz outras pessoas à morte e, assim, todos acabam entrando, de uma maneira ou de outra, na sua repressão psicológica. Uma peça, ou um texto, cheio de artíficios questionadores e de belas passagens, com uma sonoridade nas palavras igualmente expressa pela excelente atuação do elenco que a compõe. Poético em sua essência; trágico e conturbado em sua quintessência; irônico e engraçado como poucos; e insana e melancólica em todos os momentos.

