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Amantes Constantes

sábado, junho 6th, 2009

Dirigido por Phillipe Garrel. Com: Louis Garrel, Clotilde Hesme, Julien Lucas, Eric Rulliat, Nicolas Bridet, Mathieu Genet e Rebecca Convenant. (Les Amants Réguliers, 2005)

“Liberdade, Fraternidade e Igualdade”. Esse era o lema da Revolução Francesa influenciado pelo Iluminismo proposto por pensadores como Descartes, John Locke, Rousseau e outros que ajudaram a construir o ideário iluminista. O ano de 1968, além de simbolizar o auge de um momento de intensas transformações políticas e comportamentais, mostrou que os pensamentos do “Século das Luzes” continuava vivo.

A revolta estudantil francesa e o seu desejo de liberdade e de igualdade foram premissas que serviram de base para se organizar a revolução que eles sonhavam fazer, sendo seguida por todo o mundo. A luta contra a opressão mundial somada a um reavivamento do espírito libertário -, discutido pelo jornalista e escritor brasileiro Zuenir Ventura, que vivenciou o estopim dos movimentos em maio de 68 e escreveu dois livros sobre os acontecimentos daquele ano - ajudou a comprovar que os sentimentos de luta ainda permanecem forjados no espírito de cada jovem que sonha em ver um mundo mais justo e igualitário.

É dentro desse campo histórico e idealista que o diretor francês Phillipe Garrel situa o seu filme Amantes Constantes. Desconhecido aos olhos dos brasileiros, mas com 30 obras realizadas entre curtas e longas-metragens, sendo um dos principais diretores da pós-Nouvelle Vague, Garrel traduz de maneira pessoal o que foram as manifestações dos estudantes parisienses em maio de 68. O seu compromisso estético marcado pelo preto e branco, faz com que a sua obra figure entre os comumentes chamados “filmes de arte”.

No entanto, seria um desatino dizer que esta era a sua grande preocupação. Garrel utiliza os tons preto e branco, não apenas por se referir a um fato no passado, mas por ter um comprometimento ainda maior com os elementos cinematográficos. Esta sua obra, principalmente, contém muitas características da maneira com a qual o sueco Ingmar Bergman conduzia os seus filmes: planos longos, câmera estática e takes bem figurados a partir de apenas um ângulo.

Dessa forma, ele nos apresenta François Dervieux (Louis Garrel, filho do diretor), poeta e que decide se unir aos outros estudantes em busca da revolução no ano de 1968. O filme é uma incursão sobre a vida desses jovens, mas principalmente sobre as mudanças que aos poucos vão acontecendo na vida de François. Assim, Amantes Constantes acaba se dividindo em duas narrativas: o ideário revolucionário de 1968 e o cansaço representado pelo ano seguinte. E é nesse espírito fadigado, pós-68, que François conhece Lillie (Clotilde Hesme) em meio à república de artistas que funcionava como um esconderijo para estes jovens e ao uso inconseqüente de ópio.

Os dois se apaixonam e passam a viver um amor engajado pela visão intimista e sensível do seu diretor, que não está preocupado em beijos e atos desesperados de amor, mas sim na questão principal que envolve amar e se apaixonar por alguém. O romance constante entre os dois, contado de forma fragmentada, é retratado pela poesia reforçada pelos tons de preto e branco, mas sem perder o viés político.

Por isso que Amantes Constantes acaba sendo um longa-metragem muito mais real do que Os Sonhadores, dirigido por Bernardo Bertolucci. Amantes como o amor pede e precisa ser, mas também constantes por terem se apaixonado e pela vontade de viver essa grande paixão. Entrementes, quando vemos os olhos fundos e cheios de lágrimas de Lillie, percebemos que o amor constante entre eles não poderia continuar pela sua vontade em se mudar para a América. Naquele momento, a mágica do amor e a poesia já não tinham mais efeito ou qualquer significado.

A diferença entre Amantes Constantes e Os Sonhadores se constrói nesses momentos. Dois filmes que discursam sobre o mesmo fato histórico, mas que se diferenciam pelo compromisso que cada um teve com as suas respectivas obras. Enquanto Phillipe Garrel esteve mais preocupado em aprender com a vivência daquele tempo, mas também em entender os acontecimentos que vieram a seguir, Bertolucci se preocupou em fazer uma compilação de grandes filmes para dar sustento à sua narrativa, sem o intuito de direcionar o seu olhar para a Revolução de 1968.

Apesar de Louis Garrel ter atuado em ambos os filmes, fica claro que eles seguem caminhos diferentes: o distanciamento de Bertolucci dos fatos de 68 em contraste com a aproximação da câmera de Garrel sobre o movimento e as manifestações que marcaram aquele ano. Isso fica ainda mais em evidência quando Garrel decide jogar de vez o seu espectador nos ideais revolucionários de François e dos outros jovens franceses, sem deixar de mencionar os movimentos, as barricadas e as transformações geradas pela revolução.

Assim, ele não se distancia da sua obra e da história desses jovens. Quanto mais perto da manifestação ele conseguiu estar, com a sua câmera estática e de quadros simples, mas que exprimem situações complexas e indecifráveis, mais temos a sensação de que Amantes Constantes se trata de uma obra autobiográfica e pessoal.

E a partir do momento em que François conhece Lillie, nota-se que boa parte da narrativa fílmica empregada por Garrel na primeira metade havia terminado e que um novo filme estaria começando, agora para narrar a história de François e Lillie, assim como as transformações que se seguiram pós-revolução. O uso cada vez maior de drogas, a preocupação de cada um em se tornar artista e a crítica em cima da burguesia opressora e acomodada, são apenas algumas das transformações que os personagens do filme começaram a vivenciar.

Portanto, o espírito libertário de outrora deu lugar a uma cômoda resignação, onde a luta não era mais o que importava. Com esse novo olhar, nasce a trilha sonora construída apenas pelo piano de Jean-Claude Vannier, sendo ela a responsável por criar os momentos de tensão e sensibilidade do filme.

A fotografia de William Lubtchansky (vencedor do Festival de Veneza em 2005) deixa ainda mais claro as lindas cenas idealizadas pelo seu criador, que mostra uma beleza fílmica pouco vista atualmente e um encanto peculiar, combinando com maestria o intimismo aliado ao artificialismo de algumas cenas com silêncios perturbardores, aspectos marcantes da Nouvelle Vague.

Amantes Constantes é um filme difícil de assistir, principalmente para aqueles que estão acostumados com o entretenimento hollywoodiano. Com características próprias da década de sessenta e um desenrolar sutil de uma obra que não tem pressa para finalizar a sua narrativa. Momentos mágicos, como numa cena em que o som do piano e o rosto estático de Lillie fica demoradamente imóvel na tela, até se chegar no sorriso, passando pelo desespero e, logo após, trazendo a intimidade dos seus lábios repletos de lágrimas.

É em meio a esse tom romântico que se constitui Amantes Constantes - um romantismo que não é representado pelo implícito relacionamento amoroso entre Lillie e François, mas, sim, pela beleza das suas cenas.

Cotação: ★★★★☆