Dirigido por Guel Arraes. Com: Wagner Moura, Letícia Sabatella, Andréa Beltrão, Vladimir Brichta, José Wilker. (idem, 2008)
O amor e a tragédia são dois elementos que estão ligados diretamente. E não foi a contemporaneidade que inventou isso, ou as novelas das oito. Eles caminham juntos desde o século XII, quando se criou a história de Tristão e Isolda. Nela, o amor já anunciava a tragédia e isso se seguiu com o passar dos anos. Shakespeare sugou o romance e escreveu Romeu e Julieta, assim como outros autores que também beberam da mesma água. Dessa forma, ficou impossível falar de amor, sem citar a paixão, a tristeza, a solidão, o ódio e o medo.
É dentro desses parâmetros que surge o filme Romance, novo trabalho do diretor Guel Arraes, com roteiro de Jorge Furtado. A premissa básica é a história de Tristão e Isolda e a paixão entre Pedro (Wagner Moura) e Ana (Letícia Sabatella). Tudo começa quando Pedro está com uma idéia de levar para o teatro a história trágica do amor entre Tristão e Isolda. Em meio aos testes que ele faz para descobrir o seu par, ele conhece Ana e os dois se apaixonam loucamente, envolvidos pela própria história de amor. A partir disso, o filme vira uma metalinguagem muito intensa e sensual, uma vez que eles se descobrem com o romance que estão interpretando. E eles acabam levantando uma questão importante: é possível um amor recíproco feliz?
O amor vivido por Pedro e Ana é intenso, assim como a própria peça teatral. Eles se encontram e estão dispostos a viver esta paixão, sem se preocupar com os medos, os vícios, as desavenças ou os términos. Tudo isso faz parte do amor, mas eles querem descobrir uma nova forma de amar. No entanto, as coisas mudam radicalmente a partir do sucesso da peça e, principalmente, quando Ana é chamada por Danilo (José Wilker) para interpretar um papel na novela das 7, financiada pela empresária Fernanda (Andréa Beltrão) Ela aceita, mas a novela será rodada no Rio de Janeiro, enquanto que peça que ela contracena com Pedro fica em cartaz na cidade de São Paulo.
Os impasses começam e Pedro é um grande amante do Teatro e conservador quanto à televisão. Ele acredita que são duas coisas completamente diferentes e que uma pessoa deve escolher entre fazer um e outro. Mas Ana aceita a proposta, de qualquer jeito, e os dois acabam terminando. Durante três anos, Pedro escreveu e atuou em outras peças, enquanto que Ana seguiu a sua carreira de atriz como ela desejou a partir do momento em que aceitou a proposta de trabalhar na novela. Porém, o destino deu um jeito de uní-los novamente, quando surgiu a oportunidade de Ana fazer uma minissérie e indicou que Pedro escrevesse. Adivinha do que ele escreveu: a história trágica do amor entre Tristão e Isolda.
O filme segue como uma poesia exuberante em que o roteiro de Jorge Furtado consegue fazê-lo com exímia perfeição, assim como os excelentes diálogos e a exuberância atuação de Letícia Sabatella e Wágner Moura. Ambos os atores dispensam comentários e não precisam provar nada pra ninguém. Todos já conhecem o quanto são talentosos e isso fica devidamente claro, porque o filme depende dos dois, depende da intensidade com que eles contracenam, tanto na “ficção” da minissérie, quanto na “realidade” do próprio filme.
Esse jogo entre ficção e realidade me lembra muito o longa-metragem Império dos Sonhos, dirigido por David Lynch. No filme, se tem uma atriz que recebe um papel para o Teatro e, aos poucos, ela vai percebendo que a sua vida pessoal e profissional (leia-se: ficção e realidade) estão se confrontando a medida em que ela vai tomando as atitudes do seu personagem. Pois bem, aqui em Romance isso começa acontecer quando eles decidem filmar a história de Tristão e Isolda transferindo o que aconteceu, no século XII, para os dias atuais. Assim, o romance se passa no sertão paraibano e com todo o coronelismo que existia, seja o casamento arranjado, a hierarquia, características próprias de uma época.
É assim que surge o personagem Orlando/José de Arimatéia, de Vladimir Brichta. Um ator que estava tentando uma vaga no romance que estava sendo escrito por Pedro, mas que poderia não conseguir porque este queria que os atores fossem próprios do lugar. Orlando, no momento, estava se relacionando com Fernanda, a pessoa que financiava, de certa maneira, as gravações e estava acompanhando de perto. Fernanda, então, dá um jeito para que Orlando fique com o papel principal, se passando por um paraibano e que se apaixona por Ana, da mesma maneira que ela se apaixonou por Pedro, vivendo intensamente o romance de Tristão e Isolda.
O coração de Ana fica dividido entre os dois homens. O amor acaba tocando-a, pelos dois lados, pelas duas pessoas que ela conheceu e que contracenaram com ela, fazendo o Tristão da história. Mas, com o amor, as mentiras também perseguem e são elas que afastam Ana de Orlando - quando ela ficou sabendo que ele era um impostor – e a aproxima de Pedro, que está pronto para viver o amor novamente, enfrentar a rotina e tudo o que possa vir com ele.
Romance é um dos melhores filmes nacionais que vi neste ano e mostra que Jorge Furtado ainda tem criatividade para escrever bons textos, relembrando um pouco a sua trajetória no curta-metragem. O filme segue com inteligência, confronta ficção com realidade de uma maneira interessante, sem cair em devidos clichês e sem deixar com que o tema [amor] possa ser tratado como algo leviano. Quando se pensa em amor, se imagina como algo poético e romântico. E estes são dois elementos que não faltam ao filme, fazendo com que o seu espectador possa se apaixonar pela história e pelos personagens, como uma maravilhosa história de amor. Mesmo porque, todos nós precisamos nos apaixonar, precisamos amar alguém, mesmo que isso implique sofrer e se amargurar.















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