Dirigido por Murillo Salles. Com: Leandra Leal. (idem, 2008)
O diretor Murillo Salles, ao explicar o título do filme, diz que este foi “um filme procurando o seu nome próprio. É bem verdade que a titulação do longa-metragem só aparece no final, com a disposição das duas “Camillas”, como se uma estivesse completando a outra, ou como se uma não coubesse exatamente na outra. A metalinguagem imposta nesse momento cria muitas sensações e funções para se encerrar a sua narrativa.
É como se a Clarah Averbuck - autora dos livros “Máquina de Pinball” e “Cama de Gato”, que serviram de base para o roteiro – estivesse naquele momento criando o seu personagem fictício “Camilla”, ditando as cenas, as inquietações. Enquanto ela está sentada no computador, a fictícia Camilla obedece exatamente ao que está sendo escrito, uma metáfora para o que ela pensou antes de exatamente começar a escrever.
Nome Próprio, baseado nesta obra de Clarah Averbuck, é um misto de idas e vindas e de uma direção peculiar imposta por Murillo Salles. Não lembro de ter visto um começo de filme tão intenso porque, logo quando ele se inicia, vemos um homem arrumando as malas de uma maneira nervosa, como se ele estivesse deixando a casa/apartamento. A câmera de Murillo Salles vai perseguindo os seus movimentos em diversos planos e, logo depois, a cena se abre e vemos Camila (Leandra Leal, vencedora do kikito de Melhor Atriz no Festival de Cinema de Gramado), desolada no canto da sala, completamente nua e apenas observando.
Este é apenas o ínicio da sua trajetória para começar a escrever o tão sonhado livro. Para isso, ela se envolve em experiências boas, ruins, variações de humor constantemente. Tudo gira em torno dela e por isso é sempre bom destacar a atuação de Leandra Leal, que incorporou a sua personagem e atua de maneira intensa em todas as cenas, já que é ela quem dita a narrativa do filme, as mudanças de comportamento da trilha sonora e tantos outros elementos que o compõe.
Camilla se envolve com muitos caras. Às vezes ela acredita ter achado o homem perfeito, mas uma “merda” sempre acontece. Nem ela mesma consegue explicar para si o que há de errado, se ela é o problema, se são os homens que ela encontra. É bem verdade que ela tem comportamentos inconstantes, mas sem perder o seu empenho em se tornar uma escritora e por isso mantém um blog onde fala tudo o que acontece na sua vida, não tendo medo de se tornar uma pessoa exposta, não tendo medo de viver, de experimentar e “quebrar a cara”, por mais que possa doer depois, por mais que ela possa sofrer.
Os homens que ela encontra pelo caminho não fazem diferença aqui, citando eles ou não, citando os seus nomes ou não. O que vale realmente dizer é o que cada um teve pra mostrar, o que ela aprendeu com cada um, até onde ela foi e estava disposta a ir para amar e se apaixonar. Entre tantas lamentações, parece que em certos momentos lhe falta coragem, enquanto que outros dá a entender que ela confia demais nas pessoas e em um sentimento chamado amor, no “pra sempre” que ela tanto exalta. As mudanças de humor – seguidas pela trilha sonora – são representadas pelas letras que pulam na tela, pelo som das teclas sendo tecladas, pela sua vontade ou não de sair e de comer.
Grande parte da projeção se dá entre quatro paredes. Por isso, é bom perceber o olhar intimista de Murillo Salles pela intimidade da sua personagem. Assim, Camilla está sempre com poucas vestimentas, ou quase nenhuma, mas isso não quer dizer que o filme apelativo. Quem disser isso, com certeza estará cometendo um erro terrível, porque o intismo e a provocação é o significado de toda essa narrativa. Camilla, assim como no seu blog, não tinha problemas em mostrar a sua intimidade, mesmo no virtual. O mesmo acontece nos seus relacionamentos e na sua maneira de viver.
O final, como já foi citado anteriormente, é a conclusão de que a personagem Camilla, também é a autora Camilla. Ela dita o ritmo do filme. Uma mulher que vivencia uma solidão quase que insuportável, já que pode incomodar muita gente a maneira como ela vive, sem se preocupar com limpeza, querendo apenas estar com o seu computador ligado, cerveja do lado, cigarro na mão e dedos rápidos para expressar aquilo que ela sente. Cheia de fragilidades emocionais, mas demonstrando ser uma mulher muito forte, Camilla está a procurar de organizar esse mundo, uma tentativa de estar em harmonia consigo mesma.
“Nome Próprio é cheio de vazios”, como bem diz o seu diretor de arte Pedro Paulo de Souza (ganhador do kikito de Melhor Direção de Arte no Festival de Cinema de Gramado). O filme segue com naturalidade durante todo o seu processo narrativo, tenta preencher os vazios que foram colocados por essa tecnologia, onde as pessoas não mais se socializam. Vazios e estranhezas se completam em meios aos cenários e ao ambiente, ressaltando a riqueza do universo interior daquela mulher chamada Camilla.
















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