Dirigido por Breno Silveira. Com: Thiago Martins, Vitória Frate, Rocco Pitanga, Cyria Coentro, Luana Schneider, Paulo César Grande (idem, 2008)

No momento em que o diretor Breno Silveira foi convidado a subir no palco do Teatro Castro Alves, antes da exibição do seu longa, ele se pronunciou dizendo que estava ouvindo muitos comentários de que a história de Era Uma Vez… já estava batida demais e que poderia não chamar muita atenção por conta deste prognóstico. No entanto, disse ele: “mas isso depende do tipo de olhar que você lança sobre uma obra comum como foi este meu novo filme. Pois eu quero que o público tenha o mesmo olhar sensível que eu tive quando estava finalizando o projeto e espero, acima de tudo, que Era Uma Vez… não seja apenas um filme romântico e emocionante, mas uma obra verdadeira e sincera.”

Talvez seja este o encantamento que mais chamou a atenção, neste que é apenas o seu segundo longa depois do sucesso de público que foi Dois Filhos de Francisco. E foi com esta proposta de sinceridade que ele criou a história de amor entre Dé (Thiago Martins), um morador da favela do Cantagalo, e Nina (Vitória Frate), que faz o estilo patricinha ao morar em um dos bairros mais ricos do Rio de Janeiro. Nos primeiros minutos de projeção, Breno Silveira procura mostrar a curta distância entre a pobreza e a riqueza. E aos poucos ele vai construindo o personagem de Thiago Martins, mostrando primeiramente a sua infância e a sua convivência com a violência quando ele perdeu o seu irmão Pedro, e logo em seguida o relacionamento com o seu irmão mais velho Carlão (Rocco Pitanga, em ótima interpretação).

Nina já vivia uma realidade completamente diferente. Acostumada sempre com a comodidade e a riqueza de morar em um prédio charmoso e com frente para o mar, ela pouco se importava com o que acontecia ao seu redor. E assim ela nem percebeu que na barraca de cachorro-quente que ficava na frente do seu apartamento, tinha um rapaz chamado Dé que estava loucamente apaixonado por ela. Os dois se conhecem a partir de uma discussão entre Nina e o seu namorado, que acabou servindo como um pressuposto para que a relação entre os dois terminasse. Ela então, desolada, é salva de um possível assalto na beira da praia de Ipanema por Dé. Estava nascendo ali uma paixão entre duas realidades diferentes, mas que conviviam lado-a-lado com a violência, o tráfico de drogas e o caos de uma cidade que clama por ajuda.

A diferença que Breno Silveira se refere com Era Uma Vez é a sua forma de não ficar preso apenas na relação entre Dé e Nina, mas também naquilo que acontece no morro do Cantagalo. Quando o seu irmão Carlão é preso, Era Uma Vez apresenta um personagem com uma personalidade completamente diferente daquela do início, que era marcada por não se envolver com o que de ruim existia no morro. Carlão, corrompido pelo sistema prisionário brasileiro, é solto a partir de um acordo firmado entre ele, traficantes e policiais. O seu espírito de paz deu lugar a uma pessoa que precisava de poder para governar. E a única forma de conseguir isso era se tornando o chefão do morro. Carlão é apenas um exemplo de como as pessoas marginalizadas se transformam a partir de um sistema que não funciona, dando credibilidade àqueles que possuem dinheiro e status.

Como aos poucos Era Uma Vez foi construindo o Carlão, ela também foi desconstruindo um clichê que já estava em evidência. Por mais que o filme tenha um apelo de um romance impossível entre duas apaixonadas e que não podem ficar juntas, o roteiro de Patrícia Andrade (com colaboração de Domingos de Oliveira) conseguia demonstrar os elementos destacados por Breno Silveira, ao tratar de um tema tão sensível como o amor, em contrapartida com uma realidade que teria que ser mostrada e representada.

Assim como Dé não gosta da pessoa que Carlão se tornou, isso ainda fica mais claro quando é traído pela pessoa que ele considerava, não apenas como um irmão, mas como um pai que lhe ensinava as nuances da vida. Colocado contra a parede pela polícia e pelos outros traficantes, Carlão se viu num beco sem saída e precisou seqüestrar Nina, contando com o dinheiro do resgate para saldar as suas dívidas e continuar controlando o morro. A história de amor entre Dé e Nina vai ganhando cada vez mais o mesmo tom dramático de Romeu e Julieta, com as mesmas característica.

Finalizar o filme, da maneira que foi concluído, mostra um Breno Silveira com um poder de captação e também de cativar os seus espectadores com o que está sendo contado. Apesar da repetição de uma história que já está “manjada”, o olhar e a maneira de querer fazer diferente é o que faz de Era Uma Vez uma obra realmente marcada pela emoção e pela sensibilidade. E como toda história de amor, o trágico não poderia deixar de ser abordado. Afinal de contas, Era Uma Vez é fortemente baseado na obra de Shakespeare. Ao invés de famílias que se odeiam, a condição social é a definição para que o amor seja impossível, mas que ao mesmo tempo nos traga esperanças de que a realidade possa mudar algum dia.

Cotação: ★★★½☆