Dirigido por Fatih Akin. Com: Nurgül Yesilçay, Baki Davrak, Tuncel Kurtiz, Hanna Schygulla, Patrycia Ziolkowska, Nursel Köse. (Aud der Anderen Seite, 2007)
Quando o filme havia lançado, a atriz Hanna Schygulla, que interpreta a personagem Suzanne no novo longa do diretor e roteirista Fatih Akin, ela disse o seguinte: “Akin se diferencia de outros jovens diretores por ter coragem de falar da morte como algo que faz parte da vida.” E ela, na ocasião, parece ter entendido exatamente a proposta deste jovem diretor para o seu filme, que não deixa de mostrar os elementos que fazem parte da vida de qualquer ser humano, o que inclui a morte e as dificuldades que enfrentamos pelo caminho.
Do Outro Lado é a segunda parte de uma trilogia que se iniciou em 2004 com o filme Contra a Parede. Não seria nenhuma loucura dizer que esta foi uma das melhores obras lançadas naquele ano e desde aquele momento poderíamos perceber a ousadia com que Akin conduz a sua direção, mas também a sua capacidade de entrelaçar histórias. Nesse quesito, tanto o de 2004 quanto o deste ano, se diferenciam de outros longas lançados e que possuem características parecidas, como a trilogia criada por Alejandro Iñarritú com os filmes Amores Brutos, 21 Gramas e Babel. Nas histórias criadas por Fatih Akin, não existe um lado obscuro, mas sim uma naturalidade em lidar com personagens que possuem personalidades diferentes, mas sem buscar necessariamente uma tragédia para que haja uma ligação entre eles e, ainda, sem a possibilidade de querer juntar as histórias no final.
Nejat (Davrak) é professor universitário de uma Universidade na Alemanha. Enquanto ele ensina os seus alunos a Literatura Alemã, o seu pai Ali Aksu (Kurtiz) tenta achar uma substituta para a sua falecida esposa e se aventura nos bordéis suburbanos da Turquia. Ali finalmente acha a sua musa, Yeter (Köse), que aceita o acordo firmado de continuar recebendo dinheiro depois que se mudar para morar com ele. Porém, Ali se descontrola com a possibilidade de que o seu filho Nejat tenha se apaixonado pela sua “mulher”, criando um desconforto na família, principalmente depois de ter um ataque cardíaco e de viver sempre desconfiado. É em uma dessas desconfianças que ele acaba assassinando Yeter, e isso é apenas o início para que o roteiro escrito por Fatih Akin entrelace, sem que você se dê conta, um misto de várias histórias.
Primeiro Nejat, querendo recompensar o erro do seu pai, deixa a Universidade na Alemanha e se concentra apenas em procurar a filha de Yeter, Ayten Öztürk (Yesilçay), que faz parte de um grupo de revolucionários que luta contra a censura na Turquia e por uma Educação que possa favorecer a todos e não apenas os mais ricos. E é aqui que Fatih Akin mostra porque ele recebeu o prêmio de Melhor Roteiro no Festival de Cannes em 2007. A sua maneira de dividir o filme em três blocos bem definidos cria uma narrativa única, que entrelaça as histórias com uma naturalidade impressionante, em que todos os ganchos entre um bloco e outro é devidamente preenchido com o passar do tempo e conforme os personagens vão ficando cada vez mais próximos por acontecimentos que são explorados pelo filme. Nesses blocos que são divididos, Akin consegue desenvolver muito bem as histórias dos seus personagens e cria um drama irretocável, desde o início até o seu desfecho.
E Do Outro Lado também explora um pouco da vida de Ayten, principalmente depois que o seu grupo revolucionário acaba não dando muito certo, obrigando ela a procurar a sua mãe. E nessa aventura, ela conhece Charllote (Ziolkowska), e as duas começam um relacionamento. Logo depois, Ayten é deportada e presa na Turquia, o que obriga “Lotte” a sair da Alemanha para ajudar a sua companheira. No entanto, Ayten pede um favor à Charlotte e tudo acaba terminando em tragédia. É o clímax do roteiro de Fatih Akin, que explora como ninguém a dor e a perda da mãe de Charlotte em uma das melhores cenas do filme. Além disso, a sua forma de conduzir o filme é praticamente perfeita, ao permanecer por boa parte da sua narrativa com planos abertos, criando uma maior visualização do ambiente em que todos estão contracenando e de explorar também as ruas da Alemanha e da Turquia, com o objetivo de que o espectador possa perceber a diferença entre os dois países.
A forma como ele termina o filme não poderia ser melhor. A comodidade de Nejat ao sentar na beira da praia, é apenas uma aceitação dele próprio de que tudo que ele poderia fazer para encontrar Ayten, ele fez. Ele desistiu por falta de opções do próximo passo que ele iria dar. E enquanto ele ficou ali, apenas olhando para o horizonte, é um reflexo do quanto foi cansativo e desgastante. Do Outro Lado é supreendente por conta desses elementos, o que comprova a capacidade de Fatih Akin e a maneira irretocável pela qual ele soube conduzir a sua obra.















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