Antes que o Diabo saiba que você está Morto

Cinema, Críticas Sem comentários »

Dirigido por Sidney Lumet. Com: Phillip Seymour Hoffman, Ethan Hawke, Marisa Tomei, Albert Finney. (Before The Devil Knows You’re Dead, 2007)

Em um mundo como este em que vivemos, é importante falar que a única que nos move parece ser o dinheiro. E, obviamente, isso não poderia ser diferente até porque o próprio sistema exige que tenhamos esse tipo de pensamento. O poder é uma busca muito maior que a felicidade, porque um leva ao outro. E o poder só tende a crescer e nunca é demais. Se, por exemplo, uma pessoa já é rica ela dá um jeito de querer mais e o pobre, que sempre está na “lama”, quer chegar no topo. Se percebe, assim, que é uma guerra de interesse e de individualidades, além da competitividade exigida pela própria forma de governo.

O filme Antes que o Diabo… escrito por Kelly Masterson e dirigido pelo experiente e consagrado Sidney Lumet trata dessas questões. Ele coloca dois irmãos: Andy (Hoffman) e Hank (Hawke). Os dois estão passando por um momento muito ruim e precisam urgentemente de dinheiro. Andy tem tido um péssimo relacionamento com a sua mulher, se afortunado cada vez mais nas drogas e sem expectativas de como conseguir dinheiro. Hank, o seu irmão caçula, tem uma situação parecida. Sem pagar a pensão da filha há três meses e ainda devendo dinheiro para um bando de gente, ele precisa achar alguma forma de conseguir dinheiro para quitar as suas dívidas.

É uma temática muito parecida com o filme de Woody Allen O Sonho de Cassandra, quando ele também apresenta a história de dois irmãos que também estavam em situações parecidas com os estes personagens aqui apresentados e acabaram se envolvendo em um negócio familiar para assassinar um inimigo do tio deles. A partir disso, uma série de acontecimentos foram se desencadeando e Woody Allen soube conduzir bem a história, apesar de um final no mínimo estranho. Neste longa de Sidney Lumet a história é praticamente a mesma, assim como a personalidade dos irmãos. Andy aparenta ser um cara mais decidido e durão, disposto a fazer qualquer coisa para conseguir o dinheiro. Hank é um cara mais cauteloso e medroso, por isso está sempre se metendo em problemas.

É nessa vontade de querer fazer qualquer coisa que Andy acaba tendo a brilhante idéia de assaltar a joalheria da sua própria mãe, por já conhecer o lugar e por saber as senhas dos cofres. Ele chama o seu irmão Hank que, obviamente, não concorda no primeiro momento, mas depois volta atrás e acaba se aliando ao seu irmão mais velho nessa loucura. A idéia, lógico, era de não machucar ninguém. Por essa razão eles até resolvem programar o assalto no sábado, um dia que a sua mãe não aparece na loja, apenas depois do meio-dia. Pois bem, com o plano tudo elaborado nada poderia sair errado, exceto o medo de Hank. Ele chama um amigo para ajudá-lo a fazer o trabalho-sujo e tudo sai errado. O parceiro de Hank entra na joalheria armado e, contrariando as expectativas, quem foi abrir a loja naquele dia havia sido a mãe dos irmãos. Na troca de tiros, tanto o amigo de Hank quanto a sua mãe morrem e começa aí as conseqüências dos fatos.

A diferença entre os dois filmes, Antes que o Diabo saiba que você está Morto e O Sonho de Cassandra, está na forma com que os fatos posteriores são conduzidos. Sidney Lumet acaba criando uma expectativa muito maior em cima do que está sendo contado e ele vai apresentando os fatos aos poucos, pela perspectiva de cada um dos principais personagens envolvidos. Assim, ele acaba criando uma narração de idas e vindas, mas sempre mostrando novas ocorrências, mais ou menos como o Gus Van Sant faz quando monta os seus longas. Lumet acerta a mão neste aspecto, mas também com a sua direção cuidadosa e sempre peculiar. Ele soube mostrar o sentimento de cada persona depois do ocorrido. Seja com o espírito de vingança de Charles (Finney); a luta para fazer as coisas darem certo mesmo depois do que aconteceu de Andy; ou ainda o desespero de Hank e as atrapalhadas que só faziam piorar o que já tinha acontecido.

E quando Andy descobre que o seu irmão Hank estava tendo um caso com a sua mulher, as coisas ainda ficam piores e Andy, que sempre tinha o controle da situação e sabia como resolver as coisas, acaba perdendo a cabeça no momento em que ele mais precisa do seu auto-controle. Enquanto que o despreparo de Hank em lidar com situações críticas, acaba livrando-o de algo muito pior. Por mais que Andy fosse calculista, ele cometeu alguns erros que fizeram com que o seu pai descobrisse que o seu próprio filho havia sido o responsável pela morte da sua esposa e da sua própria mãe. Sidney Lumet mantém o tom dramático até o final do filme, o que ressalta a sua capacidade na maneira de conduzir este filme, que tem um roteiro excelente.

Antes que o Diabo… ressalta mais uma vez essa busca pelo poder, pelo dinheiro e em como isso pode machucar as pessoas, mas também no quanto até onde o ser humano é capaz de chegar para alcançar os seus objetivos. A verdade é que cada um pensa exclusivamente em si mesmo e nem a família escapa disso. O desfecho desastroso de um plano que parecia ser perfeito, é a temática explorada por Sidney Lumet. O diretor mantém o suspense do seu filme até as últimas cenas, e mesmo quando o pai tem de tomar uma decisão corajosa, o longa consegue criar uma tensão em cima de algo que já era praticamente certo. Com uma temática um pouco pesada, Sidney Lumet nem se importa com o fato de não existir personagens carismáticos no seu filme, muito pelo contrário. Lumet soube levar a expressão “para cada ação existe uma reação” ao pé-da-letra e não hesitou em mostrar algumas verdades no desfecho do seu filme. O resultado: uma obra extremamente bem elaborada e com um elenco que dispensa comentários.

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O final de temporada de In Treatment

Opinião do Editor 1 Comentário »

Foram 43 episódios! A cada semana ficavámos ainda mais íntimos daqueles pacientes e também do Dr. Paul Weston. Durante as nove semanas pudemos perceber a evolução na terapia de alguns personagens, mas também dos problemas enfrentados por Paul que foram se acumulando ao longo da temporada. Além de ouvir os problemas dos seus pacientes e de tentar fazer com que estes pudessem entender e achar uma solução, Paul também tentava entender os seus próprios questionamentos se tratando com a sua mentora Gina. E vimos que algumas feridas foram reabertas pelos dois, principalmente pela maneira com que cada um enxerga a Psicologia e as teorias que a compõem. No entanto, In Treatment soube conduzir a temporada de maneira eficaz e intensa. Decerto, o final de alguns personagens acabaram por não corresponder as expectativas deste blogueiro. Por outro lado, a resolução de alguns quesitos me surpreenderam e a série deve continuar com essa ousadia na 2ª temporada, prevista para estrear em 2009. Portanto, vamos ao que aconteceu com cada personagem:

Laura: Paul teve muitas dificuldades para conduzir a terapia de Laura, principalmente porque viu se apaixonar por ela. Durante um ano ele tentou entender os motivos que levam à Laura a usar o sexo como forma de escapar da realidade. Paul estava com medo de se tornar mais uma pessoa no círculo sexual de Laura e ela estava com medo de não corresponder às expectativas do seu terapeuta. Dr. Weston tentou parar a terapia, mas Laura queria continuar as sessões porque ela ainda não se sentia preparada para se separar do seu mentor, do seu amor. Mas Paul também não estava preparado e por mais que ele não quisesse aceitar a idéia, o seu envolvimento com ela era só uma questão de tempo e Gina fez ele perceber que ele poderia amar quem quisesse. Paul tentou, mas na hora “h”, ele não conseguiu. Enquanto que Laura, para ele, conseguiu evoluir a sua terapia e chegou em um ponto que ela não dependia mais dos homens, se tornando uma mulher um pouco mais independente.

Alex: Foi um final trágico. Nem eu mesmo esperava que isso pudesse acontecer. Este, talvez, foi um dos personagens que mais Paul teve problemas. Piloto da Marinha, ele foi para terapia depois de ter jogado uma bomba e matado um grande número de crianças. Depois veio a separação com a sua esposa, o seu envolvimento com Laura e o retorno à Marinha como instrutor. Ele demonstrava estar feliz com o retorno, mas Paul sabia que ainda tinham muitas questões a serem tratadas, principalmente pela infância conturbada que ele teve. Alex, assim como o seu pai, era uma pessoa durona e que não se entregava, típica personalidade de um Soldado. Paul tentava fazer com que Alex pudesse compreender o que estava acontecendo com ele, as vertigens que ele tinha, os pesadelos e todo o resto que o atormentava. A morte de Alex pegou Paul de surpresa e acredito que a todos os telespectadores que acompanharam a temporada. A forma trágica com que as coisas aconteceram, levaram Paul a repensar as teorias que ele se utiliza no seu processo terapêutico e a rever também a forma com que as pessoas e os psicólogos encaram a Psicologia.

Sophie: Aqui está o personagem mais carismático dessa temporada. Torcemos, a todo instante, por um final feliz para Sophie. E ela teve. Porém, o processo foi doloroso e o trabalho de Paul foi realmente muito difícil, mas deve ter sido maravilhoso pensar que ele conseguiu fazer o seu trabalho, principalmente no final quando ele olha pela janela do seu escritório a felicidade que ela estava sentindo, mas também a maturidade que ela adquiriu e o poder de decisão que ela obteve, tanto com a sua mãe quanto com o seu pai, principalmente com este último. Sophie, por ser uma ginasta, sempre sofreu muita pressão. A soma disso com mais os problemas familiares, fizeram com que ela tentasse suicídio. Paul também se utilizou, não apenas de teorias, mas do seu carisma para fazer com que Sophie pudesse acreditar em si mesma. E ele conseguiu. Sophie começou a entender a relação de julgamento que ela tinha com a sua mãe e o porquê dela defender tanto o seu pai, mesmo este estando longe e não se preocupando com ela. E foi nestas sessões que a série mostrou que a Psicologia e a terapia não são feitas apenas de processos teóricos, mas que a relação de afeto e carinho entre o paciente e terapeuta são de extrema importância para que, além do respeito, haja uma confiança entre os dois e naquilo que está sendo falado nas sessões. Sophie, no final, se mostrou uma garota forte e pronta para alcançar os seus objetivos;

Jake e Amy: Já com estes personagens, Paul não apresentou tanta evolução como se era esperado. O casal Jake e Amy nunca conseguiram se entender, mesmo durante os dois meses de terapia em que o Dr. Weston tentava traçar o perfil dos dois aliado ao momento que eles estavam vivendo. Para Jake, as sessões de terapia, com o tempo, foram responsáveis pela trégua entre os dois, pelo menos enquanto estavam naquela sala. Amy já pensa o contrário e não viu muitas evoluções no processo. Para ela, tudo só piorou com a terapia. Paul tentou fazer de tudo para que eles não se separassem, desde a infância de cada um até o elo que ligam os dois hoje, o filho Lenny. Mesmo assim, Paul conseguiu com que cada um pudesse abrir o seu coração em certos momentos. Jake chegou a dizer que só havia se apaixonado por Amy em toda a sua vida. Mas tudo isso sempre se esbarrava nas confusões da sua esposa, por ela não saber o que queria da vida, pelas suas indecisões. Paul tentou, mas acredito que não tenha sido em vão, porque ambos conseguiram compreender que eles são melhores separados do que juntos. E o mais importante: essa foi uma decisão que partiu dos dois e não do terapeuta.

Paul e Gina: Com tantos problemas, tanto na sua vida profissional quanto na sua vida pessoal, Paul tinha que descarregar tudo isso. Ele precisava conversar com alguém que poderia fazê-lo compreender o que estava acontecendo. Para isso ele foi se consultar com a sua mentora Gina. As sessões entre os dois sempre foram muito carregadas de emoção, intensidade e de muito drama. Paul sempre questionou os métodos de Gina como psicóloga. Enquanto que Gina acreditava que Paul estava cada vez mais perto de se tornar como o seu pai, algo que ele sempre teve medo de acontecer. Paul, como terapeuta, era uma pessoa brilhante. Ele sabia conduzir as suas sessões de maneira perfeita, sempre mantendo a calma. E quando parecia que as coisas estavam saindo de seu controle, ele não se preocupava e continuava mantendo o seu ritmo. Mas quando ele se consultava com Gina, víamos uma pessoa completamente diferente. Ele se revela como um homem confuso, cheio de dúvidas sobre os seus pacientes e sobre a sua própria vida. Quando ele descobre, por exemplo, que a sua mulher estava tendo um caso, é como se ele estivesse vendo o seu mundo desmoronar, um mundo que ele demorou para construir. E quando a sua esposa e ele vão se consultar com Gina para uma terapia de casal, as verdades começam a vir à tona e Gina, talvez ainda mais brilhante que Paul, sabe se impôr aos comentários analíticos de Paul.

Conclusões Finais

In Treatment foi uma das melhores estréias esse ano. E falo isso pela maneira com que ela retratou estes personagens, com que ela foi, pouco a pouco, construindo uma personalidade para eles. O mais importante tudo foi o processo de humanização do seu terapeuta, Paul Weston. A série deixou de transformá-lo numa pessoa inatingível e possivelmente sem problemas, para um ser ainda mais humano que também enfrenta questões pessoais, que também busca entender questões que o perturba.

Durante os 20 e poucos minutos de duração de cada episódio, In Treatment se mostrou uma série fantástica, com textos e diálogos inteligentes e com problemas que são comuns em nosso cotidiano e que pode acontecer com qualquer pessoa. Talvez alguém tenha se identificado com a história de um certo personagem e a série consegue obter este sucesso. Laços teóricos, emocionais, seja qual for o processo terapêutico, o importante é dizer que In Treatment é uma série genial.

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Escritores da Liberdade

Cinema, Críticas 14 Comentários »

Dirigido por Richard LaGravenese. Com: Hilary Swank, Patrick Dempsey, Scott Glenn, Imelda Staunton, Kristin Herrera. (Freedom Writers, 2007)

Sempre existiu, na Política Educacional, uma maneira de tentar enquadrar todos dentro de um sistema de educação, com o governo sempre salientando que estaria dando oportunidades para todos e, assim, ninguém reclamaria. Mas não adianta, ainda falando em termos políticos, criar um sistema de enquadramento para dar oportunidades a todos se ele não é feito da maneira, ou sem o esforço daqueles que estão no poder. No Cinema, sempre existiu a mesma visão: a busca de retratar uma realidade que conhecemos, mas que sempre termina em um final feliz. É o que chamo da visão romântica que às vezes o cinema tem para certos assuntos, quando sabemos que a realidade é outra. Talvez essa fuga do real seja uma forma também de imaginar possibilidades e de criar esperanças.

Escritores da Liberdade se compreende a partir dessa perspectiva. O filme se passa em 1994, dois anos depois dos acontecimentos que aterrorizam a cidade de Los Angeles. Briga entre gangues rivais, disputas por espaços, por bairros e grupos tentando se afirmar perante uma sociedade preconceituosa, que é a mesma que temos hoje, nada mudou. É daí que surge a Professora Erin Gruwell (Hilary Swank), que decidiu seguri a carreira exatamente depois de ver pelos noticiários os terríveis ataques sofridos pela acidente e o seu deslumbramento em acreditar que poderia mudar o cenário, mas que isso teria que começar pelas escolas e não depois quando estes jovens já estão com conceitos pré-formados e sem mais nenhuma chance de recuperação. Vinda de uma família que mora em Newport Beach, a realidade que ela encontra em seu primeiro emprego numa instituição de Ensino Médio é completamente diferente do que ela acreditava, principalmente porque o caos é uma constante.

É difícil querer chegar em um determinado lugar e alterá-lo. Essa é, afinal, a proposta básica para estudos antropológicos. A observação faz parte dos requisitos, mas nunca querer mudar uma cultura. Porém, o filme retrata de uma maneira real o que de fato é o Ensino Público. Apesar de se passar nos Estados Unidos, é uma obra que serve para qualquer outro país. O Brasil, por exemplo, enfrenta graves problemas na sua educação pública e nós podemos ser enquadrados dentro do contexto que a película aborda. Os estudantes parecem viver em dois mundos: existe o mundo real e o seu próprio mundo. Por isso cada um escolhe o seu grupo de amigos que mais tem a haver com o seu gosto, com a sua maneira de ser. A partir disso, começam as guerras, as individualidades e as disputas por marcar território, por querer ser maior que o outro. É a guerra pessoal de cada um: ou tentar se afirmar ou ser popular.

Para os estudantes daquela Instituição o que acontecia era muito mais profundo. Eles nunca tiveram oportunidades e a grande maioria que ali estava vieram de um programa de inserção criado pelo governo americano na época, onde muitos jovens que iriam para reformatórios, no caso, eram “jogados” em escolas públicas em convívio de outras pessoas sem nenhuma perspectiva de vida. O que sobrava para estes adolescentes? Se aventurar no tráfico de drogas e no medo de sair nas ruas e nunca mais voltar. A professora iniciante de Inglês começa a mudar o seu espaço da sala-de-aula transformando num lugar em que aqueles garotos pudessem se sentir bem, como uma segunda casa. Por isso ela propõe para que cada um começasse a escrever em um diário todo dia, relatando a vida, as angústias, os sonhos, os medos, o que esperavam da vida e do futuro. E o roteiro é inspirado nos diários que estes adolescentes escreveram, sendo baseado em fatos reais, o que aumenta a autenticidade daquilo que é narrado.

A idéia vai dando certo e despertando nestes jovens uma paixão de viver e de irem à escola. E, obviamente, isso também vai incomodando os diretores da Instituição, que estavam ou com inveja da maneira como Erin estava conduzindo a sua turma, ou com medo de educar aquelas pessoas, com medo de que elas pudessem se tornar vozes de protestos. Os novos métodos de ensino também inspiram os estudantes a terem objetivos numa vida praticamente perdida e sem esperança. Mais importante que isso, os ensinamentos de Erin ajudam eles a enfrentarem os seus problemas familiares e os problemas que existiam entre eles mesmos, os preconceitos que um grupo tinha pelo outro.

Existem muitos filmes sobre educação nos Estados Unidos, sobre as escolas americanas. Poucos conseguiram mostrar o cotidiano trágico desses adolescentes, dessas crianças de 14 a 16 anos, que parecem viver como adultos que já se preocupam com o dia seguinte sem deixar de esquecer o anterior e aquilo que os atormentaram durante a fase de crescimento, que chega cada vez mais cedo para eles. O filme Sociedade dos Poetas Mortos até consegue retratar um pouco disso, mas de uma maneira não tão real quanto esta obra. Coach Carter também tem o intuito de mostrar os problemas do ensino público, mas cria uma narrativa voltada para a importância que o esporte tem (nesse caso o Basquete) na recuperação dos adolescentes.

Escritores da Liberdade vai mais adiante: consegue explorar, não apenas as dificuldades daquelas pessoas, mas também os problemas que a professora Erin Gruwell precisa enfrentar para fazer com que os seus métodos possam ser aceitos. Além disso, o engajamento incodicional que ela estava dando para aqueles jovens, acaba refletindo pessimamente no seu casamento, levando ao rompimento. Tudo isso é muito entrelaçado e cria uma atmosfera contagiante para que a película fosse bem conduzida até o seu final. Apesar de nos momentos finais parecer existir uma pressa para que os arcos fossem fechados e uma pequena quebra no ritmo do filme, Escritores da Liberdade amplia os conhecimentos da importância que a Educação tem e dos seus mecanismos de transformações individuais na vida de cada ser humano.

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O mais irreverente dos 70’s show

Opinião do Editor, Swingtown 1 Comentário »

A midseason sempre nos reserva bons programas, o que acaba sendo uma alternativa às séries que entraram de férias e que só devem entre os meses de agosto e setembro. Normalmente as emissoras americanas conseguem investir bastante nesse meio do ano, como é o caso da rede ABC Family que tem, na grande maioria da sua grade, seriados que sempre estream nesta época. No entanto, quem tem roubado mesmo a cena é a CBS com a série Swingtown, que tem conseguido chamar atenção pela construção de um tema polêmico e pela recriação da década de 70.

O período da década de 70 foi extremamente conturbado, mas a música foi a expressão que mais se sobressaiu, assim como a mudança de comportamento das pessoas. O classic rock teve o seu surgimento e por essa razão os anos 70 também é chamado de “a década da discoteca”, devido ao surgimento da dance music e todos aqueles bailes que agitavam as boates de todo o mundo. Grupos como Pink Floyd, Genesis, Jethro Tull, dentre outros, foram de grande importância para a incorporação de anos tão significativos e de uma evolução musical muito importante. O glamour visual que começou com David Bowie também marcou uma década em que as pessoas seguiam uma moda que, nos tempos atuais, é simplesmente chamada de “brega”. A força de Led Zeppelin, Black Sabbath, Deep Purple, ainda ajudaram a criar uma tensão muito mais forte para o rock e influenciando as gerações seguintes, assim como Sex Pistols, Ramones, The Clash e tantos outros conjuntos musicais que marcaram época.

É dentro desse círculo que se desenvolve a série Swingtown, considerada como uma das grandes promessas do canal CBS para esquentar essa midseason. A história gira em torno dos casais Susan e Bruce, Tom e Trina. Os dois primeiros acabaram de se mudar para uma vizinhaça no subúrbio de Chicago, onde os residentes praticam o swing. E essa premissa não poderia se passar em uma década melhor, visto que os anos 70 tem toda a ousadia e a irreverência que um tema como este necessita. Por essa razão, a série não tem a intenção de retratar como nenhum romantismo a idéia, mas sim tentanto recriar uma realidade. E isso fica claro na parte técnica do programa. É impressionante como as construções são realmente idênticas às da época, assim como os carros, as rodovias, o figurino, os costumes dos personagens e tantas outras características marcantes da série.

Além disso, a série tá sabendo construir muito bem os seus personagens. Assim que assisti o episódio Pilot, resolvi não traçar muitos comentários positivos para não ser surpreendido no capítulo seguinte. Porém, Swingtown continou muito bem a história mostrando as conseqüências dos atos que foram explorados na sua estréia e a reação dos casais. Trina e Tom são os que conduzem Susan e Bruce para a nova prática com a intenção de levantar o astral do relacionamento entre os dois, que estava um pouco frio até por conta do tempo que estão juntos e dos dois filhos que tiveram. Susan e Bruce, com a ajuda de Tom e Trina, encontram no swing uma forma de continuar vivendo o amor. E me parece que esse tipo de recriação é a melhor possível, não apenas criando um fato sem um mero significado. A série tem o objetivo de transmitir que o relacionamento aberto pode ser uma saída para os problemas que muitos casais enfrentam como, por exemplo, os ciúmes, as desconfianças e o medo do outro encontrar uma outra pessoa.

Mesmo assim, o que realmente exalta a qualidade de Swingtown é a sua trilha sonora. Contagiante como a década foi, até agora foi o que de melhor a série se preocupou em mostrar, revivendo grandes clássicos da música como Johnny Cash, Rolling Stones, Bob Dylan. Assim como músicas de extremo sucesso, entre elas estão “Radar Love”, “Machine Gun”, “I Can See Clearly Now” e tantas outras belas canções. E acho imensamente importante esse resgate que a série tem feito, o que acaba sendo uma oportunidade para aqueles que não viveram nesta década de, pelo menos, ouvir e sentir o que foram aqueles anos de drogas, sexo e muito rock n’ roll, além da busca pela aceitação das mulheres o que acabou gerando os movimentos feministas que se iniciaram mais tarde.

Ainda é muito cedo para se avaliar Swingtown porque foram apenas dois episódios exibidos, mas é impossível não dizer que a série já conseguiu obter um tremendo destaque, seja com a trilha sonora maravilhosa ou com o tratamento de um tema tão polêmico e sensual. Mas não pense que o programa é cheio de sexo, porque ele não é. Se você está pensando em assistir por este motivo, a série não vai responder às suas expectativas. Mesmo sem as cenas que poderiam conter, Swingtown tem conseguido criar personagens que são tão contagiantes quanto a sua trilha sonora e que, acima de tudo, atores que possuem “a cara dos anos 70.”

Dica: Vocês podem acessar o link http://www.lastfm.com.br/group/swingtown para ouvir as músicas que são tocadas nos episódios da série.

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O Amor Custa Caro

Cinema, Críticas 1 Comentário »

Dirigido por Joel Coen. Com: George Clooney, Catherine Zeta-Jones, Geoffrey Rush, Paul Adelstein, Billy Bob Thornton, Jack Kyle. (Intolerable Cruelty, 2005)

Uma comédia romântica nas mãos dos fratelli Coen? Pois bem, essa é uma característica marcante dos irmãos, que sempre fazem trabalhos diferentes uns dos outros. Um gênero como esse na mão de qualquer outro diretor, tenho certeza que caíria naquela velha história de um casal lutando para ficarem juntos e todo aquele besteirol que já estamos acostumados. Com os irmãos Coen é completamente diferente.

Já falei em outras críticas que fiz de outras produções dos irmãos, que eles sempre conseguem desenvolver muito bem os seus personagens. Pois isso se confirma em O Amor Custa Caro. Primeiro ele nos mostra Miles Massey (George Clooney), um advogado especialista em divórcios. O cara possui uma genialidade inquestionável quando o assunto é estar no tribunal para defender os interesses do seu cliente. Sem contar nos lucros que ele dá para empresa em que trabalha. Enfim, o cara é um mito dentro do mercado. Enquanto isso, se tem a “caça-dotes” Marilyn Rexroth (Catherine Zeta-Jones) que, ao longo do filme, vai ganhando vários sobrenomes. Ela está sempre a procura de um marido rico, pois a riqueza para ela significa liberdade, independência, poder.

O grande lance do roteiro assinado pelos irmãos Coen é que eles dissimulam o amor, além das táticas que cada um desses personagens utilizam para vencer ou para conseguirem o que querem. O amor, sempre tratado como algo Belo, aqui nesta obra adquire uma outra forma: ele é apenas um objeto, num espaço em que existem interesses muito maiores. Simplificando, o amor é tratado como um jogo em que cada um defende aquilo que será melhor para si mesmo. O amor tratado como algo individualista.

Essas metáforas que os Coen utilizam estão presentes em grande parte da sua filmografia. Basta lembrar, por exemplo, de Fargo, quando eles também conseguem traças uma história como pano-de-fundo para exemplificar as ações dos seus personagens. Os roteiros são sempre inteligentes, não deixando escapar absolutamente nada. No início de O Amor Custa Caro eles colocam um produtor de televisão que flagra a sua mulher transando com outro. Nisso, a mulher contrata Miles Messey para fazer com que ela se saísse bem na divisão dos bens, mesmo com a traição. Essa história parecia ter o seu arco fechado no momento em que ele ganha a causa, mas logo depois isso serve como um estopim para a aproximação entre Miles e Marilyn e as conseqüências que seriam traçadas no restante da película.

Ainda assim, apesar de mostrar os seus personagens como pessoas auto-suficientes e auto-confiáveis, os irmãos Coen ainda conseguem transmitir que todos eles, mesmo sempre atrás do poder, conseguem expressar uma sensibilidade que eles pareciam não ter criando, assim, personagens que são seres humanos que possuem os seus sentimentos e emoções, o que soa completamente verossímil com a personalidade de uma pessoa normal, deixando claro que existiu sim uma tentativa de criar personagens que, apesar do roteiro ficcional, pudesse ser identificado como uma pessoa “normal”.

E é sempre assim que os Coen conseguem conduzir a sua narrativa fílmica, mesmo dentro de um gênero como uma comédia romãntica, eles conseguem ilustrar e criar um roteiro inteligente e com todos os arcos se fechando, além de um ótimo desenvolvimento dos seus personagens. Nessa clássica guerra dos sexos, entre traições e espertezas, dramas e romances, quem sai ganhando com tudo isso é o espectador que se delicia com essa comédia romântica bem água-com-açúcar, mas que se diferencia por ter um enquadramento completamente diferente de outras fitas que adotam este mesmo gênero.

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