Dirigido por Ron Howard. Com: Michael Keaton, Robert Duvall, Glenn Close, Marisa Tomei, Randy Quaid, Spalding Gray. (The Paper, 1994)
Para estudantes de jornalismo que desejam conhecer como funciona uma redação, o longa do diretor Ron Howard (Apollo 13, Uma Mente Brilhante) é um dos melhores exemplos para isso. A idéia de como se dá a produção de um diário impresso também é um outro ponto muito bem colocado no filme, que apresenta um momento muito interessante em que os editores estão em reunião de pauta para decidir o que entrará no jornal. O filme ainda agrega muito importância às notícias, às manchetes dos jornais impressos que causam impacto e que precisam ter esse poder.
A construção da personalidade de um jornalista é um dentre os pontos fortes que tem o roteiro desse filme. Durante 24 horas, a lente de Ron Howard acompanha a vida de Henry Hackett (Michael Keaton), editor de um jornal nova iorquino e que precisa conciliar a gravidez da sua mulher, a repórter Martha Hackett (Marisa Tomei), com o seu trabalho. E o filme deixa claro o quanto é difícil esta conciliação. A profissão de jornalista requer entrega à profissão, é como se ele [o jornalista] não tivesse tempo de namorar ou de aproveitar a vida, estando sempre preocupado com o tempo. Uma coisa interessante é que Ron Howard a todo momento coloca o relógio em primeiro plano, mostrando que na redação as pessoas estão sempre preocupadas com o tempo, com o famoso deadline. E o relógio é um personagem muito importante dentro da narrativa de O Jornal, interagindo com os humanos. Soa até estranho dizer isso, mas é assim mesmo que funciona.
Na época em que o filme se passa – mesma data do seu lançamento – os Estados Unidos estavam passando por uma fase de discriminação racial. O preconceito estava cada vez mais evidente. Então surge um assassinato e, naquele momento, dois jovens negros estavam passando pelo local e viram os corpos de dois policiais assassinados e, assim, foram acusados pelo crime, sem ter nada a haver com ele. Todos os jornais da cidade Nova York publicaram na primeira capa o ocorrido, menos o The Sun, que sofreu o que chamamos de “furo jornalístico”. O The New York Sun não cobriu a matéria, dando uma manchete completamente equivocada na sua capa. Sabendo que tinham levado um “furo”, os editores começam a pensar em uma estratégia para reaver os danos causados por aquele dia trágico, em que ele saiu atrás de todos os impressos da cidade.
E a câmera de Ron Howard é muito eficaz para mostrar esse processo, para mostrar o funcionamento da redação de um jornal. Os travellings utilizados por ele para mostrar o ritimo frenético que é trabalhar em um lugar como esse causa mais impacto do que a de Alan J. Pakula quando dirigiu o seu ótimo Todos os Homens do Presidente. Nesse filme, o diretor mostra como é a redação mas não traduzindo isso em ritmo frenético, em uma movimentação de planos que pudesse causar esse efeito. No caso de Ron Howard, ele consegue ser impactante nesse quesito e sempre mostrando o relógio, as horas passando, a correria para escrever uma matéria, para achar um bom título para a capa, para arrumar uma boa fotografia.
E, assim, o fotojornalismo também se faz presente no filme. O The Sun, correndo atrás do prejuízo, envia uma fotógrafa de apenas 17 anos para fotografar a chegada dos criminosos injustiçados à delegacia. A sua estatura não ajuda muito para que ela possa tirar uma boa foto, visto que todos estavam ali atrás do mesmo motivo que ela. No entanto, o seu ritmo alucinado para colher uma boa foto para a capa do jornal rende um dos momentos mais interessantes da película, em que vemos a correria quando se cobre um caso como esse. Ela consegue tirar a foto, meio que sem-querer, ganhando a primeira página do The Sun.
E, nesse momento, Hackett já não acreditava mais que os dois rapazes negros havia matado os policiais. E ele partiu para uma investigação, mesmo tendo que passar por cima da sua editora-chefe mal amada, interpretada por Glenn Close. O Jornal deixa claro que a vida de um jornalista não se faz apenas dentro de uma redação, mas sim nas ruas, apurando os fatos, investigando. O The Sun, que havia recebido o “furo” no início da projeção, acaba conseguindo uma matéria que ninguém tinha ao descobrir que eles não haviam matado ninguém e por isso a reportagem sai no dia seguinte como exclusiva. Além disso, o filme explora como a profissão de jornalista é difícil. Chegar tarde em casa (4 da manhã), não ter a chance de jantar com a sua esposa, de estar presente para ela, não ter momentos para desfrutar a vida. São apenas alguns pontos que são retratados na personalidade de Hackett.
O Jornal consegue mesclar de forma inteligente o drama e a comédia do funcionamento de uma redação e também das prensas que são utilizadas para imprimir os jornais. Ron Howard dirige muito bem este ótimo elenco e mostra no seu filme o compromisso que um jornal deve ter com a verdade, com a objetividade tantas vezes falada na Teoria do Espelho. E esta é a missão do jornalista: investigar, apurar e noticiar a verdade, podendo equacionar isso tudo e dizer que a Ética é a representividade de todos esses fatores. Tudo isso associado à vida particular de um jornalista, só ajuda para que o roteiro retrate esse mundo jornalístico com uma realidade pouco vista no cinema, apesar do seu desfecho soar completamente apelativo.











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