Nessas últimas semanas andei lendo muitos artigos referentes ao Ano de 68, mais precisamente a Maio de 68. Nessa semana que passou, acabei ganhando os dois livros do Zuenir Ventura: “O Ano que não Terminou” e “O que Fizemos de Nós”. Em ambos os trabalhos, Zuenir, um grande pesquisador dessa época e também um Jornalista de renome no Brasil, contextualiza os acontecimentos que fizeram do ano de 68 um marco. Não apenas do que aconteceu aqui no Brasil, mas principalmente na França, palco de muitas greves estudantis e muita luta. “O Ano que não Terminou” funciona como uma segunda parte do livro que ele escreveu há quarenta anos atrás, dessa vez contendo relatos de outras pessoas que o Jornalista entrevistou durante esse tempo em que ele esteve em constante pesquisa sobre a influência daquele ano nos dias atuais. Assim, “O Ano que não Terminou” acaba sendo uma obra contemporânea para os relatos que foram feitos por Zuenir Ventura em “O que Fizemos de Nós”.
O ano de 68 foi, por assim dizer, um momento em que todos estavam insatisfeitos, principalmente a classe juvenil. Alguns caracterizam o que aconteceu naquele ano como uma “espécie de furacão humano”, em que uma generalizada e estridente revolução estava varrendo o mundo. O filósofo Jean-Paul Sartre, por exemplo, que vivenciou essa época, ficou por muito tempo pensando em tudo aquilo que tinha acontecido em Paris, em todas as transformações que aquela geração propiciou. Apenas os que realmente viveram nesta época, sabem o real significado do que foi aquela maré revolucionária, começando na capital francesa, passando por toda a Europa e chegando até Recife. É até mesmo difícil interpretar o que de fato aconteceu naquele momento, porque haviam combates de rua entre estudantes, operários e policiais, enquanto que também existia um grande diálogo que borbulhavam nos centros universitários e faziam crescer espíritos de lideranças estudantis para lutar contra aquilo que eles acreditavam ser ruim.
Além disso, vale relatar que o ano de 68 se deve também a uma reação extremada juvenil às pressões de mais de vinte anos da Guerra Fria, mas também uma rejeição aos processos de manipulação da opinião pública, em que a mídia atuava como aparelhos ideológicos. Sem contar que 68 foi o ponto de partida para que houvessem transformações políticas, éticas, sexuais e, principalmente, comportamentais, que afetaram não somente a sociedade daquela época, mas também a sociedade que se tem hoje. Movimentos feministas, organizações não-governamentais (ONGs) e dos defensores das minorias dos direitos humanos, tudo isso estava impregnado naquele ano que, para alguns, é tido como mágico.
O Ano de 68 não é feito apenas de “coisas boas”. É verdade que foi um momento revolucionário, mas foi com ele que as drogas começaram a tomar lugar. Dizer que esta foi a “herança maldita” deixada pelo ano de 68 não é nenhum absurdo. Grande parte daquela juventude militante se refugiava no consumo constante de drogas ou escolhiam a estrada da violência, da guerrilha e do terrorismo urbano. São fatos muito bem retratados em dois filmes franceses: Amantes Constantes (Les Amants Réguliers, 2005), dirigido por Phillipe Garrel, que relembra de uma maneira mais real e crua os eventos de Maio de 68 e de como os estudantes se organizavam para protestar, utilizando um romance como pano-de-fundo. O filme, totalmente em preto-e-branco como uma expressão estética da época, é um dos poucos filmes que conseguiram recriar aquela época. A visão imposta por Garrel é muito diferente daquela de Bernardo Bertolluci, que impõe um romantismo sem um aparente significado dentro de um tema tão importante em seu longa Os Sonhadores, apostando basicamente na nudez de Eva Green, tornando-se uma obra completamente vazia e sem o debate que o tema propicia.
No entanto, este artigo não tem a vontade de exprimir um desejo de que se volte para aquela época ou que nós possamos viver algo parecido nos dias atuais. Sempre escuto alguns colegas reclamando de que hoje as pessoas são acomodadas e eles sempre se voltam para o Ano de 68 como uma fonte de inspiração, ou como uma forma de chamar a atenção para uma juventude que era engajada em temas políticos. A verdade é que não podemos nos esquecer que os tempos são outros. O mundo, decerto, não passa por nenhuma transformação como aquela ou por nenhum momento mágico como aquele. O que existe hoje para se lutar? O que existe para se combater? A sociedade do ano de 2008 é completamente diferente da sociedade do ano de 1968, e isso é algo que não podemos deixar de citar.
















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